À TUA ESPERA

Estou à tua espera
De esse outro
Que me consome
Que me enche de sonho
E controvérsia.

O outro é TU-EU
Paradoxal oxímoro
Impossibilidade ansiosa.

Amar é uma tempestade de areia
Uma bruma vítrea

Não menos que Penélope
Espero
Vagarosa e muda
Em minhas tarefas.



OCUPO-ME DE TI

Ocupo-me de
É certo:
Ocupas-me espaço
Preocupas-me.

Pões em minha mente
Afirmações infinitamente lidas
No espaço dos lábios.

Lugar intermédio
Entre o Éden e o seu contrário
O corpo mudamente fala
Ocupando um espaço infinito

Mas tudo está previamente ocupado
Pelo espaço
Incolor e nímio da tua ausência.



O IMPORTANTE

Quando te procurei
Estaria por acaso a verdade à minha espera?
O amor ocorre num espaço flutuante
Num exíguo lugar-nenhum
E o sonho é matéria incerta
Mestre na arte da fuga.


Ana Hatherly, in "A Neo-Penélope" & etc, 2007

Fiona Hewitt









www.fionahewitt.com

DIFICULDADE DE GOVERNAR

1

Todos os dias os ministros dizem ao povo
Como é difícil governar. Sem os ministros
O trigo cresceria para baixo em vez de crescer para cima.
nem um pedaço de carvão sairia das minas
Se o chanceler não fosse tão inteligente. Sem o ministro da Propaganda
Mais nenhuma mulher poderia ficar grávida. Sem o ministro da Guerra
Nunca mais haveria guerra. E atrever-se-ia a nascer o sol
Sem a autorização do Führer?
Não é nada provável e se o fosse
Ele nasceria por certo fora do lugar.

2

É também difícil, ao que nos é dito,
Dirigir uma fábrica. Sem o patrão
As paredes cairiam e as máquinas encher-se-iam de ferrugem.
se algures fizessem um arado
Ele nunca chegaria ao campo sem
As palavras avisadas do industrial aos camponeses: quem
De outro modo, poderia falar-lhes na existência de arados? E que
Seria da propriedade rural sem o proprietário rural?
Não há dúvida nenhuma que se semearia centeio onde já havia batata.

3

Se governar fosse fácil
Não havia necessidade de espíritos tão esclarecidos como o do Führer
E se o camponês soubesse distinguir um campo de uma forma para tortas
Não haveria necessidade de patrões nem de proprietários.
É só porque toda a gente é tão estúpida
Que há necessidade de alguns tão inteligentes.

4

Ou será que
Governar só é assim tão difícil porque a exploração e a mentira
São coisas que custam a aprender?


Bertolt Brecht, in "poemas" campo das letras, 2000
trad. Arnaldo Silva

imagem de Jean-François Martin


Siri Melchior [ The Dog Who Was a Cat Inside ] 2002

Ron Mueck [ In Bed ] 2005


«Lembras-te Fátima? era o que eu sempre te dizia, não somos nada nas mãos do acaso, e não há mais filosofia do que esta: deixar andar, tanto faz, hoje ou amanhã morremos todos, daqui a cem anos que importância tem isto, quem se lembrará de nós?»

Luiz Pacheco


TODAS AS MANHÃS

Todas as manhãs, entre o enfiar
do sapato esquerdo e do sapato direito
ele vê a vida desfilar-lhe diante dos olhos.
Por vezes só a custo consegue
calçar o sapato direito.


Judith Herzberg, in "O que resta do dia" cavalo de ferro, 2008
trad. Ana Maria Carvalho

imagem: René Magritte [ le modèl rouge] 1936

A Livraria Pó dos Livros na blogosfera...

«Quem organiza as redes de livrarias sabe que, a dada altura, uma livraria com um alto indício de roubos é também aquela que mais vende. Roubam-se muito mais coisas num supermercado do que numa drogaria, mas o supermercado faz parte de uma grande cadeia capitalista, ao passo que a drogaria é um pequeno estabelecimento com uma declaração de rendimentos muito reduzida.»

Umberto Eco, in "Biblioteca" difel, 2002

imagem de Serge Bloch

«A arte pública dos Gregos que atingiu o apogeu na tragédia era expressão do que havia de mais profundo e mais nobre na consciência popular. O que há de mais profundo e mais nobre na consciência laica contemporânea é a pura contradição, a negatividade que atravessa a nossa arte. (...). Nos vastos espaços do anfiteatro grego era a totalidade do povo que participava nas representações. Pelo contrário, nos nossos mais distintos teatros preguiçam apenas os ricos. Os Gregos iam buscar os materiais da sua arte aos produtos mais elevados da cultura comunitária. Nós vamos buscá-los à barbárie social mais acabada. A educação do homem Grego fazia dele, no plano do corpo como no do espírito, desde a infância, um verdadeiro objecto da actividade artística e do prazer estético. O embotamento típico da educação contemporânea, na maior parte dos casos meramente orientada na perspectiva do lucro industrial, dá-nos satisfação idiota e simultaneamente orgulhosa da nossa inaptidão artística e ensina-nos a procurar objectos da experiência estética fora de nós, aproximadamente com o mesmo tipo de desejo com que o depravado procura junto de uma prostituta um fugaz prazer amoroso. o Grego era ensinado a representar, a cantar e a dançar, e portanto a sua representação no espectáculo trágico proporcionava-lhe um profundo prazer interior à obra de arte; estar à altura desse prazer, pela beleza e pela formação pessoais, era justamente uma honra. Nos tempos que correm manda-se amestrar um porção do proletariado existente em todas as classes para distracção do público e as fileiras do pessoal que se apresenta nos teatros tornaram-se um viveiro de vaidades mesquinhas onde vigora o desejo de agradar a qualquer preço e, em certas circunstâncias, a perspectiva de lucro rápido e abundante. Se o artista Grego era recompensado antes de mais pelo seu próprio prazer na obra de arte e depois pelo sucesso e pela aprovação pública, o artista moderno está amarrado a um contracto e a um salário. Estamos então em condições de caracterizar com rigor a diferença essencial: a arte pública dos Gregos era de facto arte, ao passo que a nossa é salariato artístico.
(…)
Não podemos, pois, admirar-nos ao verificar que também a arte anda em busca de dinheiro, porque tudo luta pela liberdade, tudo tende para o deus que lhe é próprio, e o deus do nosso tempo é o dinheiro, tal como a nossa religião é o lucro.»


Richard Wagner, in "A arte e a revolução" antígona, 1990
trad. José M. Justo

68

Sem dúvida, a pseudonecessidade imposta no consumo moderno não pode ser oposta a nenhuma necessidade ou desejo autêntico, que não seja, ele próprio, modelado pela sociedade e a sua história. Mas a mercadoria abundante está lá como a ruptura absoluta de um desenvolvimento orgânico nas necessidades sociais. A sua acumulação mecânica liberta um artificial ilimitado, perante o qual o desejo vivo fica desarmado. A potência cumulativa de um artificial independente conduz, em toda a parte, à falsificação da vida social.

Guy Debord, in "A sociedade do espectáculo" edições antipáticas, 2005
trad. Francisco Alves e Afonso Monteiro


EM TODA A CASA

Pelas paredes cheira ainda à tua pele cutânea.

Mas desde que te foste
estar aqui é oco, cansativo, uma espera.
E às vezes
(como se tivéssemos chorado)
respirar custa.

Sobretudo nada apetece.
Sair para a rua? Ir então em frente a repetir os passos
passear nas avenidas a espaçar as horas
dispersar a espera?

Tudo cinzento. Choverá?
Aqui é que não fico. No quarto onde dormimos
o espaço sobra, e cada coisa já morreu ou está a mais.

Em toda a casa uma violência subterrânea:
a tua ausência.


João Habitualmente, in "Os animais antigos" objecto cardíaco, 2006

imagem de Gerard Dubois

Entr'acte, 1924



realização: René Clair
argumento: Francis Picabia
musica: Erik Satie
com Marcel Duchamp, Man Ray, Erik Satie, Francis Picabia entre outros

«Esta divertida curta-metragem, em que figuram inúmeras celebridades da época (pintores, escritores, jornalistas), foi criada por Francis Picabia e René Clair para servir de interlúdio filmado no bailado «instantaneista» Relâche, uma criação do Ballets Suecos de Rolf de Maré. A musica de acompanhamento foi composta por Erik Satie. O sucesso foi imediato, o que lhe valeu ser projectado em seguida, separadamente, nas salas de vanguarda.
É uma espécie de «cinema automático», na linha do movimento Dada (ao qual Picabia aderiu). René Clair aproveita para homenagear Méliès e as perseguições loucas da escola Pathé, que tinham feito as delicias da sua juventude. Ao contrário de Um Cão Andaluz, muito mais mordaz, que será realizado depois por Luis Buñuel e Salvador Dali, Entreacto não pretender chocar, mas apenas divertir. nas palavras de Picabia, este filme «não acredita em muita coisa, a não ser o direito de morrer a rir…».»

Claude Beylie, in "Os filmes-Chave do Cinema" pergaminho, 1997

nota: Em 1968 foi apresentada uma versão reconstituída de "Entreacto" com música original de acompanhamento de Erik Satie (orquestrada e dirigida por Henry Sauguet).

brevemente...


«No final ela morre e ele fica sozinho, embora na realidade tivesse ficado sozinho vários anos antes da morte dela, de Emília. Digamos que ela chama-se ou chamava-se Emília e que ele chama-se, chamava-se e continua a chamar-se Júlio. Júlio e Emília. No final Emília morre e Júlio não morre. O resto é literatura:
[…]
Gazmuri não é importante, Júlio é que é importante. Gazmuri tinha publicado seis ou sete romances que em conjunto formam uma série sobre a história chilena recente. Quase ninguém os compreendeu bem, salvo talvez Júlio, que os leu e releu várias vezes.
Como é que Gazmuri e Júlio acabam por se unir?
Seria excessivo dizer que se unem.
Mas unem: um sábado de Janeiro Gazmuri espera Júlio num café de Providencia. Acaba de pôr ponto final num novo romance: cinco cadernos Colón inteiramente manuscritos. Tradicionalmente é a mulher quem se encarrega de lhe transcrever os cadernos, mas desta vez ela não quer, está cansada. Está cansada de Gazmuri, não lhe fala há duas semanas, por isso Gazmuri sente-se esgotado e desamparado. Mas a mulher de Gazmuri não é importante, o próprio Gazmuri importa muito pouco. O velho telefona, então, à sua amiga Natália e a sua amiga Natália diz-lhe que está muito ocupada para transcrever o romance, mas recomenda-lhe Júlio.

Escreves à mão? Hoje em dia ninguém escreve à mão, observa Gazmuri, que não espera a resposta de Júlio. Mas Júlio responde, responde que não, que usa quase sempre o computador.
Gazmuri: então não sabes do que falo, não conheces a pulsão. Há uma pulsão quando escreves no papel, um ruído do lápis. Um estranho equilíbrio entre o cotovelo, a mão e o lápis.

Júlio fala, mas não se escuta o que diz. Alguém deveria aumentar-lhe o volume. A voz rouca e intensa de Gazmuri, pelo contrário, retumba, funciona:

Escreves romances, esses romances de capítulos curtos, de quarenta páginas, que estão na moda?
Júlio: Não. E acrescenta, apenas para dizer algo: O senhor recomenda-me que escreva romances?
Repara nas perguntas que fazes. Não te recomendo nada, não recomendo nada a ninguém. Julgas que marquei encontro contigo neste café para te dar conselhos?

É difícil conversar com Gazmuri, pensa Júlio. Difícil mas agradável. Em seguida Gazmuri começa a falar literalmente sozinho. Fala sobre diversas conspirações políticas e literárias, e enfatiza, em especial, uma ideia: é preciso cuidado com os maquilhadores de mortos. Tenho a certeza de que tu gostarias de me maquilhar. Os jovens como tu aproximam-se dos velhos porque gostam que sejamos velhos. Ser jovem é uma desvantagem, não uma qualidade. Devias saber isso. Quando eu era jovem sentia-me em desvantagem, e agora também. Ser velho também é uma desvantagem. Porque nós, os velhos, somos fracos e necessitamos não só das lisonjas dos jovens, necessitamos, no fundo, do seu sangue. Um velho necessita de muito sangue. Talvez a única coisa que te sobra, agora que reparo bem em ti, seja sangue.

Júlio não sabe o que responder. Salva-o um longo riso de Gazmuri, um riso que dá a entender que pelo menos algo do que acaba de dizer é a brincar. E Júlio ri com ele; acha piada estar ali, a fazer de personagem secundário. Quer, dentro do possível, manter-se nesse papel, mas para se manter nesse papel tem de certeza que dizer algo, algo que o faça ganhar relevância. Uma piada, por exemplo. Mas a piada não lhe sai. Não diz nada. É Gazmuri quem diz:

Nesta esquina acontece algo muito importante para o romance que vais transcrever. Por isso marquei encontro contigo aqui. No final do romance, precisamente nesta esquina acontece algo importante, esta esquina é importante. Já agora, quanto pensas cobrar-me?
Júlio: Cem mil pesos?

Na realidade Júlio está disposto, inclusive, a trabalhar de graça, embora, naturalmente, não lhe sobre muito dinheiro. Parece-lhe um privilégio tomar café e fumar cigarrilhas com Gazmuri. Disse cem mil como antes disse bom-dia, maquinalmente. E continua a escutar, fica um pouco atrás de Gazmuri, concorda com tudo, embora quisesse muito mais escutar tudo, absorver informação, ficar, agora, cheio de informação:

Digamos que este será o meu romance mais pessoal. É bem diferente dos anteriores. Resumo-to um pouco: ele fica ao corrente que uma garina da juventude morreu. Como todas as manhãs, liga o rádio e ouve dizer o nome da mulher no obituário. Dois nomes e dois apelidos. E é assim que tudo começa.
Tudo o quê?
Tudo, absolutamente tudo. Fica então combinado, telefono-te assim que tomar uma decisão.
E que mais acontece?
Nada, o mesmo de sempre. Entra tudo na merda. Fica então combinado, telefono-te assim que tomar uma decisão.»

Alejandro Zambra, in "Bonsái" teorema, 2008
tradução de Jorge Fallorca

via frenesi

Alejandro Zambra


Alejandro Zambra (Santiago do Chile, 1975) publicou os livros de poesia "Bahía Inútil" (1998) e "Mudanza" (2003). Escreve sobre literatura em diversos meios da imprensa chilena (Las Últimas Notícias, «Revista de Libros» de El Mercúrio e The Clinic, principalmente). Também colaborou na revista Turia e no suplemento «Babelia» do El País. Actualmente é professor de literatura da Universidade Diego Portales. "Bonsai" (2006) foi o seu primeiro romance, "La vida privada de los árboles" (2007) é o seu mais recente livro.

Kathleen Lolley

Two of Cups

Yellow Birdship

Somebody Shot the Messenger

Aerial Investigation

Auto Pilot

www.kathleenlolley.com/

SEIOS

Sei os teus seios.
Sei-os de cor.

Para a frente, para cima,
Despontam, alegres, os teus seios.

Vitoriosos já,
Mas não ainda triunfais.

Quem comparou os seios que são teus
(Banal imagem) a colinas!

Com donaire avançam os teus seios,
Ó minha embarcação!

Porque não há
Padarias que em vez de pão nos dêem seios
Logo p'la manhã?

Quantas vezes
Interrogastes, ao espelho, os seios?

Tão tolos os teus seios! Toda a noite
Com inveja um do outro, toda a santa
Noite!

Quantos seios ficaram por amar?

Seios pasmados, seios lorpas, seios
Como barrigas de glutões!

Seios decrépitos e no entanto belos
Como o que já viveu e fez viver!

Seios inacessíveis e tão altos
Como um orgulho que há-de rebentar
Em deseperadas, quarentonas lágrimas...

Seios fortes como os da Liberdade
—Delacroix— guiando o Povo.

Seios que vão à escola p'ra de lá saírem
Direitinhos p'ra casa...

Seios que deram o bom leite da vida
A vorazes filhos alheios!

Diz-se rijo dum seio que, vencido,
Acaba por vencer...

O amor excessivo dum poeta:
"E hei-de mandar fazer um almanaque
da pele encadernado do teu seio"

Retirar-me para uns seios que me esperam
Há tantos anos, fielmente, na província!

Arrulho de pequenos seios
No peitoril de uma janela
Aberta sobre a vida.

Botas, botirrafas
Pisando tudo, até os seios
Em que o amor se exalta e robustece!

Seios adivinhados, entrevistos,
Jamais possuídos, sempre desejados!

"Oculta, pois, oculta esses objectos
Altares onde fazem sacrifícios
Quantos os vêem com olhos indiscretos"

Raparigas dos limões a oferecerem
Fruta mais atrevida: inesperados seios...

Uma roda de velhos seios despeitados,
Rabujando,
A pretexto de chá...

Engolfo-me num seio até perder
Memória de quem sou...

Quantos seios devorou a guerra, quantos,
Depressa ou devagar, roubou à vida,
À alegria, ao amor e às gulosas
Bocas dos miúdos!

Pouso a cabeça no teu seio
E nenhum desejo me estremece a carne.

Vejo os teus seios, absortos
Sobre um pequeno ser.


Alexandre O'Neill, in "Poesias Completas" assírio & alvim, 2005

Silence is Sexy…



Silence is sexy
Silence is sexy
So sexy
So silence
Silence is sexy
Silence is sexy
So sexy
So sexy
Silence is not sexy at all
L’amusement
Solitude
Die ungesellige Liebe
Die fixe Idee
L‘idée fixe
Nur ich & ich & ich & Tinitus
Wenn die Musik endlich aufhört
Ganz von selbst
Silence is sexy
Silence is sexy
So sexy
As sexy as death
Silence is sexy
Silence is sexy
So sexy
So sexy
Just your silence is not sexy at all
Just your silence is not sexy at all
Your silence is not sexy at all!


Einstuerzende Neubauten

Charles Bukowski


UM POEMA CRUEL

eles continuam a escrever
a despejar poemas –
jovens rapazes e professores universitários
mulheres que bebem vinho toda a tarde
enquanto os maridos trabalham,
eles continuam a escrever
com os mesmos nomes nas mesmas revistas
cada ano a escreverem pior,
publicam colectâneas de poesia
e despejam mais poemas
parece um concurso
é um concurso
mas o prémio é invisível.

eles não escrevem nem contos nem ensaios
nem romances
apenas
despejam poemas
todos parecidos com os dos outros
e cada vez menos originais,
e alguns dos rapazes cansam-se e desistem
mas os professores nunca desistem
e as mulheres que bebem vinho toda a tarde
nunca, mas mesmo nunca, desistem
e chegam outros rapazes com novas revistas
e há troca de cartas entre poetas e poetisas
alguns chegam a foder
e tudo é exagerado e aborrecido.

quando os poemas saem
eles reescrevem-nos
e enviam-nos para a próxima revista na lista,
e fazem leituras
todas as que conseguem fazer
a maior parte de borla
na esperança que alguém repare neles
que alguém os aplauda
lhes reconheça o talento
os felicite
eles estão convencidos da sua genialidade
há muito poucas dúvidas,
e muitos vivem no Grande Porto ou Grande Lisboa,
e as suas caras são como os poemas que escrevem:
semelhantes,
e conhecem-se uns aos outros e
reúnem e odeiam e admiram e escolhem e expulsam
e continuam a despejar mais poemas
mais e mais poemas
mais e mais poemas
o concurso dos pasmados:
tap tap tap, tap tap, tap tap tap, tap tap…


SE ENSINASSE ESCRITA CRIATIVA, PERGUNTOU-ME, O QUE LHES DIRIA?

diria para terem um desgosto amoroso,
hemorróidas, dentes podres
beberem vinho barato,
evitar a ópera e o golfe e o xadrez,
mudarem a cabeça da cama
de parede para parede
e depois diria para terem
outro desgosto amoroso
e para nunca usarem computador
portátil,
evitarem almoços em família
ou serem fotografados num jardim
com flores;
para lerem Hemingway só uma vez,
passarem por Faulkner
ignorarem Gogol
verem fotografias da Getrude Stein
e lerem Sherwood Anderson na cama
enquanto comem bolachas de água e sal,
perceberem que as pessoas que falam de
liberdade sexual tem mais medo do que vocês.
para ouvirem E. Power Biggs a tocar
órgão na rádio enquanto enrolam
um Bull Durham às escuras
numa cidade desconhecida
com um dia para pagar a renda
depois de abandonar
amigos, família e trabalho.
para nunca se considerarem superiores e/
ou justos
e nunca tentar ser.
para terem outro desgosto amoroso.
observarem uma mosca no verão.
nunca tentar ter sucesso.
nunca jogar bilhar.
para se mostrarem verdadeiramente furiosos
quando descobrirem que têm um pneu furado.
tomarem vitaminas mas nunca fazer exercício físico.

depois disto tudo
inverter o processo.
ter um bom caso amoroso.
e aprender
que não há nada nem ninguém a saber tudo –
nem o Estado, nem os ratos
nem a mangueira do jardim nem a Estrela Polar.
e se algum dia me apanharem
a dar uma aula de escrita criativa
e lerem isto
eu dou-vos um 20
pelo cu
acima.



versões de Manuel A. Domingos aqui

Judith Herzberg


CAIXAS

Porque durante a guerra nos falavam sempre
de antes da guerra, de como eram
ingénuos, tenho agora o máximo cuidado,
ao deitar qualquer coisa fora, por exemplo,
uma caixa de papelão, peço a Deus
para que a caixa não volte nunca
a assaltar-me em forma de remorso;
lembras-te ainda como nós, despreocupados,
deitávamos fora caixas sem pensar!
Se tivéssemos guardado pelo menos uma,
se tivéssemos guardado pelo menos uma!


Judith Herzberg, in "o que resta do dia" cavalo de ferro, 2007



Judith Herzberg nasceu em 1934 em Amesterdão. É uma das vozes mais representativas da poesia contemporânea europeia, contando com inúmeros prémios e traduções em vários idiomas.
A vasta obra poética de Judith Herzberg é composta por títulos como: «Zeepost» (1963); «Beemdgras» (1968); «Vliegen» (1970); «Strijkliicht» (1971); «27 Liedesliedjes» (1971); «Botshol» (1981); «Dagrest» (1984), «Dat Engels geen au heef» (1985), «Zoals» (1992); «Doen en laten» (1994); «Wat zij wilde schilderen» (1996); «Bijvangst» (1999); «Staalkaart» (2000); «Weet je wat ik ooj nooit wet» (2003); «Soms vaak» (2004); «Zijtak» (2007).
Judith Herzberg tem também desde os anos 70 vindo a publicar peças de teatro, ensaios, argumentos cinematográficos, peças para a televisão e muitas traduções. Em Portugal, os Artistas Unidos foram responsáveis pela publicação de três das suas peças de teatro: «Os Casamentos de Lea», «A Fábrica de Nada», «Talvez Viajar».

Coimbra, 11 de Janeiro de 1948


DIZEM QUE A PAIXÃO O CONHECEU

dizem que a paixão o conheceu
mas hoje vive escondido nuns óculos escuros
senta-se no estremecer da noite
enumera o que lhe sobejou do adolescente rosto
turvo pela ligeira náusea da velhice

conhece a solidão de quem permanece acordado
quase sempre estendido ao lado do sono
pressente o suave esvoaçar da idade
ergue-se para o espelho
que lhe devolve um sorriso tamanho do medo

dizem que vive na transparência do sonho
à beira-mar envelheceu vagarosamente
sem que nenhuma ternura nenhuma alegria
nenhum ofício cantante
o tenha convencido a permanecer entre os vivos


Al Berto

REMORSO EM TRAJE DE NOITE

Um homem cinzento pela rua de névoa
Ninguém o suspeita. É um corpo vazio;
Vazio como uma planície, como o mar, como o vento
Desertos tão amargos sob um céu implacável

É o tempo passado, e suas asas agora
Entre a sombra encontram uma pálida força;
É o remorso, que de noite, duvidando,
Em segredo aproxima a sua sombra descuidada.

Não estreites essa mão. A hera altivamente
Ascenderá cobrindo os troncos do inverno.
Invisível na calma o homem cinzento caminha
Não sentis os mortos? Mas a terra está silenciosa.

Luis Cernuda, in "Um rio, um amor" ariadne, 2003

imagem de Craig LaRotonda

síndrome pré-menstrual…

Frank Brunner [ Alice… ]






ESTE CÉREBRO…

Este cérebro de um país
placa tornante gonzo eclusa
de tantas aspirações que procuram

ele próprio no centro
da comodidade das suas estradas convergentes
local feito para a troca e para as reuniões
capital onde se realiza não só a síntese
de duas raças
mas também a união de tantos interesses
tantas energias
desligou as suas imagens
boca aberta em expectativa
os homens-jaguares
vão falar


António José Forte, in "uma faca nos dentes" & etc, 1983

imagem "emprestada" pela frenesi

Leitura recomendada...


«UM GOVERNO que punisse todos os vícios de maneira imparcial é segundo toda a evidência de tal maneira impossível que nunca se viu, nem verá, uma pessoa tão estúpida que o propusesse. O máximo que se pode propor é que o governo puna um vicio ao acaso, ou quando muito alguns, ou aqueles que considera repugnantes. Mas trata-se de uma discriminação totalmente absurda, ilógica e tirânica. Que direito pode ter seja que grupo de homens a dizer: "nós puniremos os vícios dos outros homens mas ninguém punirá os nossos próprios vícios. Nós limitaremos os outros homens na sua aquisição de qualquer conhecimento experimental conducente, ou necessário, à própria felicidade; mas a nós ninguém nos limitará na nossa aquisição de um conhecimento experimental conducente, ou necessário, à nossa própria felicidade"?
Só os ingénuos e os imbecis podem ter a ideia de proceder a suposições semelhantes. E no entanto, segundo toda a evidência, só suposições semelhantes podem permitir quem quer que seja reclamar o direito de punir os vícios de outrem e proclamar, ao mesmo tempo, a impunidade dos seus próprios vícios.»

Lysander Spooner, in "os vícios não são crime" fenda, 1999


«Se existe na natureza um principio de justiça, esse é necessariamente o único princípio político que jamais existiu ou existirá. Todos os outros princípios ditos políticos, princípios que os homens têm o hábito de inventar, nada têm de princípios. São ou puras vanglórias de simples de espirito, que imaginam ter descoberto qualquer coisa de melhor que a verdade, a justiça e a lei universal, ou as astúcias e os pretextos a que recorrem egoístas e celerados a fim de obterem a glória, o poder e o dinheiro.»

Lysander Spooner, in "insultos a chefes de estado" fenda, 1999

Jennifer Venditti [ Billy the Kidd ] 2007

07/05/1925 - 05/01/2008



«Há o estatuto do louco, o estatuto do bêbado, o estatuto do estroina, há o estatuto do vagabundo, do homossexual…
Esses estatutos são rótulos que nos colam em cima. Depois, para um tipo arrancar essas peles, isso é pior do que O Silêncio dos Inocentes quando o gajo queria fazer o fato com a pele das mulheres. Esse estatuto está colado. Por exemplo, vocês podiam agora ir tirar fotografias no meu quarto e ficavam logo com uma impressão muito diferente de mim.»

in revista K, julho de 1992



«Estendo o pé e toco com o calcanhar numa bochecha de carne macia e morna; viro-me para o lado esquerdo, de costas para a luz do candeeiro, e bafeja-me um hálito calmo e suave; faço um gesto ao acaso no escuro e a mão, involuntária tenaz de dedos, pulso, sangue latejante, descai-me dobre um seio morno nu ou numa cabecita de bebé, com um tufo de penugem preta no cocuruto da careca, a moleirarinha latejante; respiramos na boca uns dos outros, trocamos pernas e braços, bafos suor uns com os outros, uns pelos outros, tão conchegados, tão embrulhados e enleados num mesmo calor como se as nossas veias e artérias transportassem o mesmo sangue girando, palpitassem compassadamente, silenciosamente, duma igual vivificante seiva.»

in "Comunidade" contraponto, 1964

AOS QUE VIRÃO A NASCER

I

É verdade, vivo em tempo de trevas!
É insensata toda a palavra ingénua. Uma testa lisa
Revela insensibilidade. Os que riem
Riem porque ainda não receberam
A terrível notícia.

Que tempos são estes, em que
Uma conversa sobre árvores é quase um crime
Porque traz em si um silencio sobre tanta monstruosidade?
Aquele ali, tranquilo a atravessar a rua,
Não estará já disponível para os amigos
Em apuros?

É verdade: ainda ganho o meu sustento.
Mas acreditem: é puro acaso. Nada
Do que eu faço me dá o direito de comer bem.
Por acaso fui poupado (Quando a sorte me faltar, estou perdido.)

Dizem-me: Come e bebe! Agradece por teres o que tens!
Mas como posso eu comer e beber quando
Roubo ao faminto o que como e
O meu copo de água falta a quem morre de sede?
E apesar disso eu como e bebo.

Também eu gostava de ter sabedoria.
Nos velhos livros está escrito o que é ser sábio:
Retirar-se das querelas do mundo e passar
Este breve tempo sem medo.
E também viver sem violência
Pagar o mal com o bem
Não realizar os desejos, mas esquecê-los.
Ser sábio é isto.
E eu nada disso sei fazer!
É verdade, vivo em tempo de trevas!

II

Cheguei às cidades nos tempos da desordem
Quando ai grassava a fome
Vim viver com os homens nos tempos da revolta
E com eles me revoltei.
E assim passou o tempo
Que na terra me foi dado.

Comi o meu pão entre as batalhas
Deitei-me a dormir entre os assassinos
Dei-me ao amor sem cuidados
E olhei a natureza sem paciência.
E assim passou o tempo
Que na terra me foi dado.

No meu tempo as ruas iam dar ao pântano.
A língua traiu-me ao carniceiro.
Pouco podia fazer. Mas os senhores do mundo
Sem mim estavam mais seguros, esperava eu.
E assim passou o tempo
Que na terra me foi dado.

As forças eram poucas. A meta
Estava muito longe
Claramente visível, mas nem por isso
Ao meu alcance.
E assim passou o tempo
Que na terra me foi dado.

III

Vós, que surgireis do dilúvio
Em que nós nos afundamos
Quando falardes das nossas fraquezas
Lembrai-vos
Também do tempo de trevas
A que escapastes.

Pois nós, mudando mais vezes de país que de sapatos, atravessamos
As guerras de classes, desesperados
Ao ver só injustiça e não revolta.

E afinal sabemos:
Também o ódio contra a baixeza
Desfigura as feições.
Também a cólera contra a injustiça
Torna a voz rouca. Ah, nós
Que queríamos desbravar o terreno para a amabilidade
Não soubemos afinal ser amáveis.

Mas vós, quando chegar a hora
De o homem ajudar o homem
Lembrai-vos de nós
Com indulgência.


Bertolt Brecht, in “rosa do mundo” assírio & alvim, 2001

Raoul Servais [ Chromophobia ] 1965