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NÃO DIZIA PALAVRAS

Não dizia palavras
Aproximava só um corpo interrogante,
Porque ignorava que o desejo é uma pergunta
Cuja resposta não existe,
Uma folha cujo ramo não existe,
Um mundo cujo céu não existe.

A angústia abre caminho entre os ossos
Sobe pelas veias
Até abrir-se na pele,
Jorros de sonho
Feitos carne em interrogação às nuvens.

Um toque ao passar,
Um olhar fugidio no meio das sombra,
Bastam para que o corpo se abra em dois,
Ávido de receber em si um corpo que sonha;
Metade e metade, sonho e sonho, carne e carne,
Iguais em figura, iguais em amor; iguais em desejo.

Embora só seja uma esperança
Porque o desejo é uma pergunta cuja resposta ninguém sabe.


Luis Cernuda, in "os prazeres proibidos" ariadne (2003)

imagem de Lorenzo Mattotti