Mostrar mensagens com a etiqueta vasco gato. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta vasco gato. Mostrar todas as mensagens


SÓ ESSA

repito, de mim para mim, vezes sem numero,
a promessa que fomos entre as primaveras abraçadas
e o fio de luz que escoava nos plátanos, já noite.
recordo o aroma doce que, misturado nos teus lábios,
abria vento fora o corpo e o carinho do corpo e a voz,
de mel que vinha dormir junto de mim, o teu nome

lembro também o ano em que habitávamos o frio,
no Inverno vertical que caía sobre nós com os dias
e os minutos em que o lume se internava na madeira
e, por momentos, nos deixava a sós com o estrondo
da casa quase vazia, a maneira como nos tocávamos.

«e se as esquinas não dessem para outra rua e tudo
se abismasse de súbito: como saberias de mim?»,
perguntaste-me quando os teus pulsos acharam o azul
e redondos espreitaram no mar a constelação de búzios
onde dizes ter nascido – como podia eu saber de ti?

compreendo por que deitaste para dormir, em silencio,
sem te demorares na varanda, sem escutares a floresta,
assim como quem descobre uma palavra nunca ouvida
e sabe que só essa valeria o dizer – e fui eu o poço

vou uma vez mais até ao extremo desta terra estremecida
e encontro o lugar vazio onde a bruma anuncia o que talvez não retorne
por não haver sangue entre nós, um segredo que leve a tua mão à minha,
uma volta de planeta que devolva as ruas e as esquinas em que eu sei de ti.


Vasco Gato, in “um mover de mão” assírio & alvim, 2000