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o que aí vem da relógio d'água...



Setembro

Contos Escolhidos, de Carson McCullers
A Travessia, de Cormac McCarthy
A Poesia do Pensamento, de George Steiner
O Próximo Outono, de João Miguel Fernandes Jorge, com gravuras de Pedro Calapez
A Trombeta do Anjo Vingador, de Dalton Trevisan
O Vampiro de Curitiba, de Dalton Trevisan, com prefácio de J. Rentes de Carvalho


Outubro

Anjos, de Denis Johnson
A Rapariga sem Carne, de Jaime Rocha
Migalhas Filosóficas, de Soren Kierkegaard
Ada ou Ardor, de Vladimir Nabokov
Uma Antologia Improvável – A Escrita das Mulheres (1500-1830), com organização de Vanda Anastácio


Novembro

As Nuvens e o Vaso Sagrado, de Maria Filomena Molder
Os Cães e os Lobos, de Irène Némirovsky
O Poder do Pensamento, de Giorgio Agamben
Nos Trópicos sem Le Corbusier, de Ana Vaz Milheiro
Plataforma, de Michel Houellebecq
Henrique IV (Parte I) e Henrique IV (Parte II), de William Shakespeare
Riso na Escuridão, de Vladimir Nabokov



Dezembro

Ulisses, de James Joyce
Guerra e Paz, de Lev Tolstoi

brevemente na sistema solar...


Escrito com o português de Camilo Castelo Branco. «O livro é precioso porque é verdadeiro; é excelente, porque é bem escrito; é útil, porque encerra uma lição. Quem escreveu este livro?
Não o dizem as apreciações dos periódicos, nem os catálogos das livrarias. O livro é lido com espanto e talvez com lágrimas; ao passo que o autor, que tão cuidadosamente se ocultou, deve ter tido misteriosas e fortíssimas razões para esquivar-se à glória de haver escrito um livro tão precioso na forma quanto virtualmente útil. Transpira a verdade do contexto do romance, posto que a espaços a simpleza natural das coisas é estofada em pompas demasiadas da linguagem. Isso, porém, não desdoura, antes redobra o quilate da obra para quem se deixa de bom grado cativar e levar nas asas da dolorosa poesia que voeja por alto. O que os bons espíritos hão-de ver nesta pungente narrativa é a substância de tal e tamanho flagício praticado entre 1841 a 1868, neste tempo, em nossos dias! A crítica ilustrada estremará da religião divina, que ensinou Jesus, a protérvia dos sacrílegos que se abonam com ela, e lhe vão apagando as luzes para que as trevas da Idade Média se condensem e envolvam as instituições não carimbadas pela chancela pontifical. [...] O tradutor abstém-se de indicar as passagens realçadas de maiores belezas, porque lá está o claro entendimento de quem lê para as distinguir; e seria também desacordo antecipá-las, prejudicando o tal qual prazer do imprevisto.» (Da «Advertência do Tradutor»)



A história de Tristão e Isolda - os estranhos imortais do amor que constroem a sua tragédia sob as fatalidades de um sentimento imposto por artes da magia céltica, a paixão contra a qual os costumes e as leis são impotentes - mostrava-se como alternativa às sublimes lentidões de Wagner, e veloz, e empolgante, e obediente a todo o saber que faz a eficiência dos contos repetidos pela tradição oral. A lenda de Tristão e Isolda chegava ao êxito editorial e era confirmada no amor-símbolo, na sua intensidade inultrapassável, a que El-Rei Dom Dinis ousou ainda assim em versos desafiar: «o mui namorado Tristan sey ben que non amou Iseu quant?eu vos amo.»
«Joseph Bédier [1864-1938] tinha sabido seduzir o grande público com uma história de ingenuidade selvagem, com uma prosa que evocava ao leitor francês a tradição de contar que ele conhecia em Perrault. E em 1938, quando uma inesperada e fulminante congestão cerebral o atingiu no seu retiro de Grand-Serre, no Drôme, soube-se pelos jornais que tinha morrido... aquele autor... que escrevia coisas importantes sobre a Idade Média, sem dúvida, mas era o renovador do romance de Tristão e Isolda que já festejava a sua centésima edição.» (A.F.)



«Élie Faure (1873-1937) um médico, mas sobretudo escritor que em jornais, revistas e livros pensava a arte, toda a arte, como "o grande mistério da transposição lírica", e os homens como "construtores" obscuros com um esforço colectivo ignorado, responsável pelo aparecimento dos espíritos superiores no mundo. [...] O texto «Paul Cézanne» é de 1914 e está entre os que dedicou a notáveis "construtores do mundo", ou seja, a autores de "um trabalho de organização esboçado numa sociedade destruída". São a esta luz significativas as considerações que a sua História propõe sobre o pintor: "Mesmo quando tenta compor, como nessas extraordinárias reuniões de personagens nuas onde fez o esforço, visivelmente obcecado pela memória de Poussin, de construir com inabilidade uma longa melodia sensual no meio do grande coro das árvores, do vasto céu, das águas correntes, mostra-se mesmo então livre de toda a espécie de intenção psicológica ou literária. E o seu clacissismo, essa necessidade de ordem e medida que desde a infância o perseguia, mesmo então se engana sobre o seu verdadeiro sentido. Ele provinciano, ele católico, está de acordo como ritmo secreto do seu século, é impelido em direcção ao organismo desconhecido, que hesita, por forças profundas das quais não tem mais consciência do que os pedreiros das últimas igrejas romanas perante uma nave que ia de repente saltar, aligeirar-se, alongar-se, planar como uma asa coma geração que ascendia." Joachim Gasquet (1873-1921) deixou na literatura francesa uma imagem quase esquecida de poeta lírico, tendo chegado a dizer-se que a mais forte desde Victor Hugo. [...] Só era um dia mais velho do que Élie Faure, mas os seus pulmões - roídos pelo gás clorídrico dos ataques químicos da primeira Guerra Mundial - reduziram-lhe a vida a quarenta e oito anos, os últimos passados numa luta sem êxito pela sobrevivência. [...] Embora Cézanne fosse amigo de infância do seu pai, Joachim só o conheceu em Abril de 1896 (o ano do retrato onde hoje o vemos, exposto na Galeria de Arte Moderna de Praga e com um aspecto difícil de associar aos vinte e três anos de idade que nessa altura ele tinha). Entre os dois houve um convívio intenso, os quatro anos de encontros e cartas que veremos reflectidos em «O Que Ele Me Disse...», aos quais outros se sucederam de relativo afastamento até ao desacordo político que em 1904 definitivamente os separou.» (A.F.)

http://blogue-documenta.blogspot.pt/

um país que sonha...


"Um país que sonha, cem anos de poesia colombiana" assírio & alvim, 2012
selecção e prologo de Lauren Mendinueta
trad. Nuno Júdice

brevemente, na quetzal...

Durante muitos anos, o grande poeta Von Humboldt Fleisher e Charlie Citrine, uma jovem inflamado pelo amor à literatura, foram os melhores amigos. No momento em que morreu, Humboldt era um falhado, tornara-se pobre e só; e Citrine, por seu turno, também não se encontrava numa fase muito auspiciosa da vida: deixara de progredir na carreira, debatia-se nas malhas de um divórcio litigioso, e vivia uma paixoneta por uma jovem mulher pouco recomendável, envolvida com um mafioso neurótico. De repente, é como se Humboldt agisse a partir do além para deixar Charlie um legado inesperado - legado esse que poderá mudar o rumo da sua vida.

Saul Below "O legado de Humboldt" quetzal, 2012


Aclamado como obra-prima aquando da sua publicação em Itália, "Às Cegas" é um romance de grande originalidade e intensidade poética. A sua forma inovadora - um caudal, uma torrente, um oceano de palavras que fluem livremente - serve na perfeição a narrativa de um louco sobre a sua viagem no tempo e no espaço, e que se polariza nas duas categorias antagónicas dos que fazem a revolução e dos seus perseguidores. Claudio Magris trabalha aqui também motivos recorrentes na sua obra: o das vidas afundadas – que é preciso “resgatar para a literatura”; ou o da figura de proa que, à imagem do Homem, tendo perdido o rumo, continua a desbravar os mares, às cegas, num ato único de esperança.
Uma miríade de lugares, situações, símbolos, coincidências e reflexos, que atravessam continentes e séculos - e um retrato da falência da ideologia e do indivíduo à deriva.

Claudio Magris "Às cegas" quetzal, 2012
trad. Sara Ludovico

brevemente na tinta da china...

E se o mundo quisesse falar connosco, revelar-nos íntimos segredos, ocultos mecanismos? Que léxico usaria, de modo a descer até ao nosso entendimento? São 18 palavras «difíceis», articuladas neste livro para descrever pequenos prodígios sem consequências, mas também dramas e cataclismos. E como se organizam estas palavras? Em listas, rascunhos, cabriolas de estilo, apropriações indevidas, estruturas falsas, homenagens improváveis. Para compor uma tabela periódica capaz de revelar as leis escondidas de vidas, livros, recordações, esquecimentos. São 18 histórias com dispositivos variados, do registo confessional ao pastiche, do jogo labiríntico à banda desenhada – aqui com o traço inconfundível de João Fazenda. Um livro com armadilhas e surpresas ao virar de cada página e que se lê como quem passa em revista um labirinto feito do bricabraque da memória.

Luís Miguel Rainha "18 palavras difíceis" tinta da china, 2012

25 de Novembro...


«O livro inspira-se em episódios relatados por imigrantes oriundos de diferentes países e períodos históricos, contando-se, entre eles, o testemunho do pai do próprio Shaun Tan que em 1960 emigrou para a Austrália Ocidental vindo da Malásia. Durante os quatro anos que durou o processo de criação de “Emigrantes”, o autor documentou-se em obras como “The Immigrants”, de Lowenstein e Loh, ou “Tales from a Suitcase”, de Davies e Dal Bosco. De realçar ainda é a influência artística do pintor australiano Tom Roberts e o arquivo gráfico da coleção do Museu da Imigração de Ellis Island, em Nova Iorque.»

Shaun Tan "Emigrantes" kalandraka, 2011

25 de Novembro...


“Depois de se ter deitado com um homem, lavava-se sempre numa infusão de folhas de arruda, apanhadas ao luar, e bebia tisanas com sementes de funcho e de sargacinha-dos-montes, para que as regras não lhe faltassem." Assim começa este romance que narra a vida e a morte (aos 33 anos, como Jesus) de José de Risso, um homem de virtude que nasceu marcado nas costas com um sinal em forma de folha de carvalho. Pelo meio há o enorme lobo de Espadañedo, um lobisomem que descia da serra quando a Lua lhe estava de feição; há receitas de chás e de tisanas que curam do mau-olhado, da má-sina com as mulheres, dos amores infelizes, das galhaduras, dos maus pensamentos; há chás e tisanas que fazem recobrar os ímpetos aos homens; há também Purísima de la Concepción, a muito bonita e alegre viúva galega, de quem se dizia (sem se ter a certeza) que encomendara a morte do marido a um matador de touros andaluz a quem as mulheres casadas chamavam, com disfarçado fervor e muita paixão contida, Niño del Teso.

José Riço Direitinho "Breviário das más inclinações" quetzal, 2011

25 de Novembro...

Luiz Pacheco era capaz das loucuras mais desapiedadas, mas também de actos de grande generosidade. Pessoa cheia de contrastes e incoerências, tinha uma enorme facilidade para relacionar-se com os outros e, depois, para cortar relações. Impulsivo e inconstante, aparecia e desaparecia de repente. Capaz de prescindir de tudo e de começar do zero, durante anos viveu em pensões manhosas, de onde muitas vezes era expulso por falta de pagamento. Era um especialista em dívidas e em não as pagar. Conheceu a miséria, o vício e a degradação. Gostava de estar perto dos marginais e das ovelhas ranhosas, porque com aqueles que não têm nada a perder conhecem-se melhor os labirintos da alma humana. Fundador da Editora Contraponto, conhecia bem o campo da edição e o meio das Letras, onde fervilhavam as intrigas e as capelinhas, e contra tudo isso lutou, recusando-se a participar na engrenagem dos manejos literários. Desmascarou os falsos prestígios e maltratou alguns intocáveis da cultura. Alguns viam Pacheco como um apocalíptico, um herdeiro da tradição dos grandes inconformistas. Mas foi simultaneamente um produto do próprio meio literário. Capaz de aparecer nu no meio do Montijo ou de pijama no Largo do Carmo, no 25 de Abril, em torno de Luiz Pacheco criou-se uma lenda, histórias e boatos que circulavam e que quase nunca se incomodou em desmentir, porque, como alguém disse, essa era a melhor forma de chegar a génio.

João Pedro George "Puta que os pariu!" tinta da china, 2011



Henry Miller dizia que "O Colosso de Maroussi" era o seu melhor livro. Seduzido pelas descrições da Grécia, Miller parte com o seu amigo Lawrence Durrell à descoberta do interior daquele país. Entre dias ao relento na praia, atropelados por rebanhos de ovelhas, noites em pensões decadentes mas carregadas de história, em aldeias com um único forno para toda a população, e peregrinações à Acrópole de Atenas, Miller descobriu na Grécia o sentido da civilização:
«Eu tinha caminhado com os olhos vendados, em passos cambaleantes, hesitantes; era orgulhoso, arrogante, satisfeito com a vida falsa e limitada de homem da cidade; a luz da Grécia abriu‑me os olhos, penetrou os meus poros, fez todo o meu corpo dilatar‑se. Descobri a minha pátria.»

Henry Miller "O colosso de Maroussi" tinta da china, 2011

dia 27 de outubro...

Per Olov Enquist "a visita do médico real" ahab, 2011
trad. Mário Semião e Maria João Freire de Andrade

reedição...


«- Todos os que trabalham cospem nas mãos?
Naturalmente, respondeu Jacquemort. É para matar a preguiça.»


Boris Vian, in "O arranca corações" relógio d'água, 2011
trad. Luiza Neto Jorge

primeiro parágrafo…


«Mas na metrópole há cerejas. Cerejas grandes e luzidias que as raparigas põem nas orelhas a fazer brincos. Raparigas bonitas como só as da metrópole podem ser. As raparigas daqui não sabem como são as cerejas, dizem que são como as pitangas. Ainda que sejam, nunca as vi com brincos de pitangas a rirem-se umas com as outras como as raparigas da metrópole fazem nas fotografias.»

Maria Dulce Cardoso, in “o retorno” tinta da china, 2011

brevemente...

“Como é que é o herói Ferdydurke? Interiormente é apenas fermento, caos, imaturidade. Para se manifestar exteriormente, e sobretudo face aos outros homens, é que ele tem necessidade da forma (…) mas esta forma limita-o, viola-o, deforma-o”. O herói é Jozio, que acaba de fazer trinta anos e é raptado pelo seu ex-professor para voltar ao liceu. Condenado a sentar-se nas carteiras de uma sala de aulas, rodeado de adolescentes e de um mestre antigo-regime, a sanidade do protagonista passa a enfrentar uma permanente ameaça, forçado pelo absurdo das circunstâncias. A sua resposta face ŕs pressões deformantes da vida quotidiana, atreitas a fabricar inteligências, doutrinas, obras-de-arte, ciência, morais e responsabilidades de etiqueta social, é a chacota, a imaturidade, o disparate, o grotesco, a embirração, a inteligência trágica de tudo pôr em causa.”

Witold Gombrowicz "Ferdydurke" 7 nós

dia 23 de setembro nas livrarias...


Para escapar ao anonimato de uma vida comum, à solidão da escrita e ao esquecimento dos futuros leitores, o narrador de Uma Mentira Mil Vezes Repetida inventou uma obra monumental, um autor – um judeu húngaro com uma vida aventurosa – e uma miríade de personagens e de histórias que narra entusiasticamente a quem ao pé dele se senta nos transportes públicos. Assim vai desfiando as andanças literárias de Marcos Sacatepequez e o seu singular destino, a desgraça do Homem-Zebra de Polvorosa, o caos postal de Granada, a maldição do marinheiro Albrecht e as memórias do velho Afonso Cão, amigo de Cassiano Consciência, advogado e proprietário do único exemplar conhecido de Cidade Conquistada, a obra-prima de Oscar Schidinski. Enquanto o autocarro se aproxima de Cedofeita, ou pára na rua do Bolhão, quem o escuta viaja do Belize a Budapeste, passando pelas Honduras, por estâncias alpinas, por Toulon ou por Lisboa. Mas se o nosso narrador não encontrou a glória - senão por breves momentos e na mente alheada de quem cumpre uma rotina - talvez tenha encontrado o amor. Ou será ele também inventado.

Manuel Jorge Marmelo "uma mentira mil vezes repetida" quetzal, 2011