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NUM ANO SURREALISTA

num ano surrealista
de homens-sanduíche e de banhistas-de-sol
girassóis mortos e telefones vivos
os políticos profissionais domesticados faziam o seu numero do costume
repartidos por partidos
nas pistas dos seus circos de serradura
onde os acrobatas e as balas de canhões humanas
enchiam o ar como gritos
quando de repente um palhaço fleumático
premiu um incomível botão de cogumelo
e uma inaudível bomba de domingo
caiu
apanhando o presidente que rezava
no 19.º buraco do campo de golfe
Oh estava-se numa primavera
de folhas de pele e de flores de cobalto
os cadillacs caíam como chuva entre as árvores
afogando os relvados com loucura
enquanto de cada imitação de nuvem
pingavam miríades de multidões sem asas
de sobreviventes de nagasáqui

E chávenas perdidas
cheias das nossas cinzas
flutuavam no ar à nossa volta.


Lawrence Ferlinghetti, in "Como eu costumava dizer" dom quixote, 1972
trad. José Palha e Carmo

FAZENDO AMOR EM POESIA

Numa guerra onde cada segundo conta
o Tempo cai no chão
como a sombra de uma árvore
debaixo da qual nós dormimos
num barco de madeira feito da árvore
por um carpinteiro desconhecido
além do mar
onde flutuam caroços de pêssegos
disparados por um artilheiro a cabo de munições
com um canhão do qual a boca arranca
buracos em forma de coração
ao horizonte da nossa carne
moída de sol
muda de estupefacção
entre o acto do sexo
e o acto da poesia
planeando no ar que escurece
no momento do amor e do júbilo
não há clarividência
sob a miséria do mundo.

Lawrence Ferlinghetti, in "a boca da verdade" edição Lawrence Ferlinghetti e André Shan Lima, 1986