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AUTOFICÇÃO DA CIDADE AMOROSA

Construí-a
irreal
transparente
lúcida esguia um mar
inferior na barriga
correias de transmissão nos cabelos

Os anéis de saturno são a força centri-
fuga centrípeta que lhe agita os braços
no espasmo amoroso

Halley o metropolitano

75 milhões de anos-luz atravessam-na da cabeça à cauda

deito-me com ela todas as noites na via láctea


Pedro Oom, in "A Actuação escrita" & etc, 1979/80
ilust. Carlos Ferreiro

UM TOTOBOLA PARA TODOS

Nos confins da Ásia existia um povo muito infeliz.
Desde o Ministro ao simples camponês passavam todos imensas privações trabalhando vinte e quatro horas por dia a fim de pelo menos tentarem morrer decentemente.
Mas todos ima para à vala comum.
Até que o Governo teve a ideia luminosa de instituir uma Lotaria Nacional (estilo Totobola).
O povo que desde há tempos vinha já resmungando: «mau, mau, de que vale trabalhar tanto se nem conseguimos amealhar para um enterro decente», aceitou a ideia, a principio, com certa relutância.
Mas os felizes contemplados na lotaria logo tratavam do seu próprio enterro.
Os caixões eram de ouro fino ou madeiras raras cravejados das pedras mais preciosas: diamantes, rubis e esmeraldas.
Os cortejos fúnebres passaram a constituir alegres procissões com muitos arautos que apregoavam a glória do defunto.
Com a eliminação progressiva dos concorrentes, os restantes totobolistas adquiriram a certeza de ainda chegarem a ser totalistas.
Eliminada a insegurança quanto ao futuro aquele povo passou a ser um povo muito feliz.

Pedro Oom, in "Actuação escrita" & etc, 1979

UM TOSTÃO PARA O ENSINO

Num pequeno país atrasado e pobre o Primeiro-Ministro preocupavam-se muito com a ignorância do seu povo.
A percentagem de iletrados era tal que não se descortinava maneira de arrancar do estado de subdesenvolvimento para a fase industrial a que o país necessitava chegar.
O Primeiro-Ministro reuniu os melhores pedagogos do país que elaboraram um pequeno livro de bolso, a que chamaram «Cartilha Paternal», onde se resumia em frases simples toda a Ciência existente.
A «Cartilha Paternal» foi distribuída gratuitamente a todo o Povo, o qual lhe deu a serventia que estava habituado a dar a todo o papel, liso e impresso.

Moral: a instrução não custa um tostão...

Pedro Oom, in "actuação escrita" & etc (1979)


AS VIRTUDE DIALOGAIS

Dentro
de mim
há uma planta
que cresce
alegremente
que diz
bom dia
quando nos amamos
ao entardecer
e boa noite
quando florimos
à alvorada
uma árvore
que não está com o tempo
este tempo
a que chamamos
nosso.

Pedro Oom, in "actuação escrita" & etc (1980)
[ GRIFO ] Antologia de inéditos organizada e editada pelos autores (1970)


António Barahona da Fonseca — A saque e a sangue

António José Forte — Um poema

Eduardo Valente da Fonseca — Os manequins inquietantes

Ernesto Sampaio — Surrealismo - uma estrada sem fronteiras

João Rodrigues — Dois desenhos

Manuel de Castro — Hans e a mão direita - Prolegómenos a uma história de animais

Maria Helena Barreiro — Três narrativas

Pedro Oom — Poema - O homem reduzido

Ricarte-Dácio — Equações I e II

Virgílio Martinho — Filopópolus


POEMA

POESIA NÃO É UMA MEDALHA PARA POR NO PEITO DOS TIRANOS MAS UMA IMENSA SOLIDÃO FEITA DE PEDRAS, ONDE O DESPOTISMO PODE ENCOMENDAR O ATAÚDE.CADA UM DE NÓS ODEIA O QUE AMA. POR ISSO O POETA NÃO AMA A POESIA QUE É SÓ DESESPERO E SOLIDÃO MAS ACALENTA AO PEITO AS FORMIGAS DA REVOLTA E DA REBELDIA, QUE TODOS OS DÉSPOTAS QUEREM SUBMISSAS E PROCRIADORAS. SÓ OS VOLUNTÁRIOS DA MISÉRIA E DA SUBMISSÃO PATRIARCAL QUEREM A POESIA NA ARCA DA ALIANÇA COM A TRADIÇÃO PACÓVIA E REGIONALISTA DOS PRETÉRITOS DIAS, GLÓRIAS PATRIOTEIRAS, HEROICIDADES FRUSTRES, PIRATARIA IGNARA. TODO O VERDADEIRO POETA DESPREZA O PEQUENO MONTE DE ESTERCO ONDE O DEJECTARAM NO PLANETA E A QUE OS OUTROS CHAMAM PÁTRIA, E SÓ AMA OS GRANDES CONTINENTES MARES E OCEANOS DA LIBERDADE E DO AMOR. SÓ NOS VASTOS ESPAÇOS INCRIADOS A POESIA SERVE O SEU DESTINO — CATAPULTAR O HOMEM NOS ABISMOS DO DESEJO INCONTROLADO ONDE O PRÓPRIO ASSASSINATO É UM ACTO DE POESIA E DE AMOR. ESTE ASSASSINATO DE QUE FALO É O GRANDE AMPLEXO DE HOMEM PARA HOMEM A SOLIDARIEDADE E A TERNURA, NÃO A CARIDADE HIPÓCRITA OU A CAMA DE FAMÍLIA, COM TODO O SEU PEQUENO CORTEJO DE HORRORES, ONDE A EXPLORAÇÃO DO FILHO PELO PAI DITA A SUA LEI.

Pedro Oom

PODE-SE ESCREVER

Pode-se escrever sem ortografia
Pode-se escrever sem sintaxe
Pode-se escrever sem português
Pode-se escrever numa língua sem saber essa língua
Pode-se escrever sem saber escrever
Pode-se pegar numa caneta sem haver escrita
Pode-se pegar na escrita sem haver caneta
Pode-se pegar na caneta sem haver caneta
Pode-se escrever sem caneta
Pode-se sem caneta escrever caneta
Pode-se sem escrever escrever plume
Pode-se escrever sem escrever
Pode-se escrever sem sabermos nada
Pode-se escrever nada sem sabermos
Pode-se escrever sabermos sem nada
Pode-se escrever nada
Pode-se escrever com nada
Pode-se escrever sem nada

Pode-se não escrever


Pedro Oom, in "actuação escrita" &etc (1980)


O SONHADOR ESPECIALIZADO

Este perfume, hálito benigno, incêndio espectacular de crateras extintas, este perfume é a estrada dos teus cabelos, das tuas superstições, das tuas violências absurdas, mulher-noite, mulher de espinhos com a tua floresta de água salpicada de estrelas, estranha, opaca, a todos os túmulos única, a todos os títulos notável !
A tua voz desliza nos confins da geleira que é o teu corpo entre nuvens e ondas furiosas, recordação vingativa, bússola doida condenado o tempo. Este tempo, o nosso ! Eu acredito no inacreditável. Haverá um tempo para os comboios de espuma e para os aviões de lama. E um outro tempo para as tuas mãos desenrolando os caminhos, para o reflexo da tua cabeleira imitando as marés, para a máquina giratória do teu sexo livre, para a fotografia do teu rosto em chamas.
Não há razão para queimar a esperança. O teu leito ainda está húmido de orvalho e os teus olhos ainda se negam aos Deuses. A realidade da tua nuca Evereste de gelos eternos, a carreira sem fim dos teus braços arco-íris circundando o meu corpo, a cordilheira da tua pele macia onde as minhas mãos se apoiam, são ainda o único motor para o "looping" no espaço, a única clareira onde o sonho floresce, a única estrada que só conduz a si mesma.
Eu digo-te que não há razão para queimar a esperança, esta esperança que tinge os teus lábios e vai contigo até ao fim dos abismos, êxtase delirante onde não existe o Presente e onde o Futuro é um espasmo violento, uma chama súbita em que eu e tu nos fundimos.
Não há razão para queimar a esperança, esta rubra mistura de sonho e lava, perfeitamente conjugada como um círculo em repouso. Tenho-te sempre nos meus braços, no meu ser, e por isso quando me debruço nos debruçamos no precipício olvidamos a nossa condição de indivíduos para sermos o fluxo e o refluxo da História.
Já não somos o que se classificaria de um homem e de uma mulher, mas sim uma multidão de sombras povoada de nuvens, a fusão de dois ácidos, a resolução de um problema.
A minha carne é o teu nevoeiro perpétuo.


Pedro Oom in. " A intervenção surrealista "

fotografia de Francisca Moreira


O COELHINHO QUE NASCEU NUMA COUVE

Era uma vez um coelhinho que nasceu numa couve.
Como os pais do coelhinho nunca mais apareceram a couve passou a cuidar dele como se do seu próprio filho se tratasse.Com ervinhas tenras que cresciam ao seu redor a couve foi criando o coelhinho dentro do seu seio até que este passou a procurar a sua própria alimentação.O coelhinho, que tinha um coração muito bondoso, retribuindo o afecto que a couve lhe dedicava considerava-a como sua verdadeira mãe.A mãe couve e o seu filhinho adoptivo foram vivendo muito felizes até que um dia uma praga de gafanhotos se abateu sobre aquelas terras.O coelhinho ao ver que aqueles insectos vorazes devoravam tudo o que era verde cobriu com o seu próprio corpo o corpo da mãe couve e assim conseguiu que os gafanhotos pouco dano lhe fizessem.Quando aqueles insectos daninhos levantaram voo os campos em volta passaram a ser um imenso deserto de areias e pedra.O pobre coelhinho, que sempre tinha vivido nas proximidades da sua mãe couve, teve de deslocar-se para muitos quilómetros de distância a fim de procurar comida.Mas já nada havia que se pudesse mastigar naquelas terras.Passaram muitos dias e o pobre coelhinho estava cada vez mais magro mais magro e faminto.Então a mãe couve disse-lhe assim: “Ouve meu filho: é a lei da vida que os velhos têm de dar o lugar aos novos, por isso só vejo uma solução: assim como tu viveste durante algum tempo no meu seio, passarei a ser eu agora a viver dentro do teu. Compreendes, meu filho, o que eu quero dizer?”O pobre coelhinho compreendeu e, embora com grande tristeza na alma não teve outro remédio, comeu a mãe.

Pedro Oom in. "Actuação Escrita" & etc



O Homem Bisado

Alegra-me ser todas as coisas e as sombras que elas projectam
ser a sombra dos teus seios e da tua boca
o criado de smoking branco que te agita os cabelos
para um cocktail estimulante e fresco
a mesa onde passo a ferro o teu corpo
as espáduas as coxas a curva macia dos joelhos
alegra-me ser o contorno da tua nuca e o binário motor dos
teus braços
embora mais pequeno do que o corpúsculo celeste
sou os milhões de astros microorganismos estrelas
a rota de todos os navios perdidos
a angústia síntese de todos os suicidas
a forma de todos os animais conhecidos
o desenho rigoroso de toda a flora existente

Ontem em Paris hoje em Lisboa amanhã em Júpiter
caminho para a resolução de todos os problemas
sem a certeza de resolver qualquer um deles
como se fosse uma máquina de somar parcelas
quatro vezes quatro oito vezes dez oitenta
sabe-me a vida ao que É
esta progressão assustadora de crocodilos bebendo limonada
Ontem fui a prostituta a quem paguei a noite
hoje serei talvez o inocente violentador frustrado
Sutmil é a cidade para onde me evado todas as noites à aventura
e
a cabeça em Marte os pés na Terra
vindo

o comboio está na gare o comboio vai partir
apressemos o passo o momento é solene
somos o automóvel que sobe a avenida
a pulsação acelerada dos maquinismos
taxímetro de uma cidade de província
satélites dum satélite lunar.
Tu és o aeroporto eu o avião que parte
e muito mais calmos entre éter e fogo
percorremos os sonhos de planeta em planeta desfolhando o
futuro a flor sempre rara
e marcamos nos astros o nosso roteiro DEZ QUILÓMETROS

amanhã tirarei o curso de sonhador especializado.


Pedro Oom in. "Surrealismo Abjeccionismo" edições salamandra

imagem de Dan Page