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DA BOA UTILIZAÇÃO DOS CALMANTES

O médico marcou-me consulta, e eu pensei cá comigo: porreiro, não vou ter de esperar.
Cheguei lá; quinze pessoas. Não fiquei nada contente. Felizmente, tinha lá revistas. Pus-me a olhar para as figuras. Doze pessoas. Fiz as palavras cruzadas. Oito pessoas. Fiz o problema de bridge, mas como não sei jogar, foi bastante difícil.
Por fim, chegou a minha vez.
Entrei. O médico disse-me: dispa as calças.
- Ah, desculpe — disse-lhe. - Vim cá porque me dói a cabeça.
- Ah ah, dor de cabeça — disse-me ele. - Tem ideias fixas?
- Tenho, fixas à cabeça
- Consegue localizar a dor?
Localizar — que é que ele queria com aquele localizar? Mais uma palavra fina para assustar as pessoas.
- Vou examiná-lo — disse-me ele.
- Isso não é coisa difícil — disse-lhe eu e abri a boca e mostrei-lhe o dente do siso, o que está estragado.
Pôs-se a olhar para ele e disse-me:
- Já estou a ver o que é. Precisa de uns calmantes.

Raymond Queneau, in "ficções de humor" tinta permanente, 2003

A EXPLICAÇÃO DAS METÁFORAS

Longe do tempo e do espaço um homem se perdeu
Fino como um cabelo, vasto como a aurora.
Narinas espumantes, olhos esgazeados,
Com as mãos estendidas a tactear o cenário.

— Que, aliás, não existe — objectar-me-ão.
Pois que significação tem esta metáfora
«Fino como um cabelo, vasto como a aurora»?
E essas narinas fora das três dimensões?

Se falo do tempo, é porque não é ainda.
Se falo dum sítio, esse lugar sumiu-se.
Se falo dum homem, em breve morrerá.
Se falo do tempo, o tempo terminou.

Se falo do espaço, um deus vem destruí-lo,
Se falo dos anos, é para aniquilar,
Se oiço o silêncio, um deus põe-se a mugir
E os seus gritos repetidos incomodam-me.

Estes deuses são demónios: rastejam pelo espaço
Finos como um cabelo, amplos como a aurora,
Narinas espumantes, a baba pelas faces
E as mãos estendidas a tactear um cenário.

— Que, aliás, não existe — objectar-me-ão.
Pois que significação tem esta metáfora
«Fino como um cabelo, vasto como a aurora»?
E estas faces fora das três dimensões?

Se falo dos deuses, é porque cobrem o mar
Com o seu peso infinito e o voo imortal.
Se falo dos deuses, é porque povoam os ares,
Se falo dos deuses, é porque são perpétuos.

Se falo dos deuses, é porque vivem sobre sob a terra,
Insuflando no solo seu hálito vivaz,
Se falo dos deuses é porque eles chocam o ferro,
Amassam o carvão, distilam o zenabre.

Deuses ou demónios? Enchem o tempo todo
Fino como um cabelo, amplo como a aurora?
Os olhos estalados, narinas espumantes,
E as mãos estendidas a tactear um cenário.

— Que, aliás, não existe — objectar-me-ão.
Pois que significação tem esta metáfora
«Fino como um cabelo, vasto como a aurora»?
E porquê estas mãos fora das três dimensões?

Sãos demónio, sim. Um desce, o outro sobe.
A cada noite, um dia, a cada monte um vale.
A um dia uma noite, à árvore sua sombra.
Um nome a cada ser, a todo o bem seu mal.

Sim, são reflexos, imagens negativas,
Agitando-se em figuras imóveis,
Lançando-se no vácuo em viva multidão
E formando um duplo para cada verdade.

Mas o homem — um deus, um demónio — perdeu-se
Fino como um cabelo, vasto como a aurora,
Narinas espumantes, olhos esgazeados,
As mãos estendidas a tactear um cenário.


Raymond Queneau, in
Franco Fortini "O Movimento Surrealista" presença, 1980
trad. António Ramos Rosa