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PERDA

No poroso branco das lajes
da limpa escada de pedra
sobre o abismo feliz
das claridades eternas
cada passo
perde
lentamente
a esperança de ser o último

A obra sem peso
da minha paciência
corre sobre a terra
constrói o silêncio
onde tu te anuncias

No reflexo das horas
como uma imagem de vidro
onde só vejo
a luz do vento
eu sei que a cor do mundo
está perdida


Ernesto Sampaio, in "Feriados Nacionais" fenda, 1999


PERDA

No poroso branco das lajes
da limpa escada de pedra
sobre o abismo feliz
das claridades eternas
cada passo
perde
lentamente
a esperança de ser o último

A obra sem peso
da minha paciência
corre sobre a terra
constrói o silêncio
onde tu te anuncias

No reflexo das horas
como uma imagem de vidro
onde só vejo
a luz do vento
eu sei que a cor do mundo
está perdida


Ernesto Sampaio, in "Feriados Nacionais" fenda, 1999

imagem de Selçuk Demirel

O MENOS POSSÍVEL

Respirar
o menos possível
nestas cidades
de uma tristeza
sem idade
abrindo o espaço
com os gestos lentos de um náufrago
a caminho
do fundo

A noite sobe-me
na voz
como um lugar
capaz de imaginar
sozinho
o seu cenário
onde o azul
dorme
numa cave
com os cães


Ernesto Sampaio, in "feriados nacionais" fenda, 1999

imagem de Gérard Dubois

O AMOR É O ÚNICO MITO de pura exaltação que a humanidade conheceu. O único que parte do coração do desejo e visa a sua satisfação total. O único grito de angústia capaz de se metamorfosear em canto de alegria. Com o amor, o maravilhoso perde o carácter sobrenatural, extraterrestre ou celeste que possui em todos os mitos, regressando de algum modo à sua origem para se inscrever nos limites da existência humana.
Dando corpo às aspirações primordiais do indivíduo, o amor oferece uma via de transmutações que culmina com no acordo da carne e do espirito, tendente a fundi-los numa unidade superior. O desejo, no amor, longe de perder de vista o ser da carne que lhe deu origem, sublima o seu objecto numa espécie de sexualização do universo que restabelece no homem uma coesão anteriormente inexistente.
O amor não admite a menor restrição: tudo ou nada, sendo o tudo a vida e o nada a morte.

Ernesto Sampaio, in "Fernanda" fenda (2000)

imagem de Pep Montserrat

DEITADOS LADO A LADO, envoltos das fatigas do dia a dia.
Paisagem fresca e calma onde passam histórias irrealizáveis, o sono repousa sobre nós.
Nenhuma espada precisava de nos separar.
Um peso delicioso, pesado na minha perna, despertou-me.
Reconheci o teu pé.
Soube então, por um homem e uma mulher que se conhecem, o que era estar deitado lado a lado.


Ernesto Sampaio, in "Fernanda" fenda (2000)

imagem de Kurt Halsey