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brevemente...


Poemas de Mário Cesariny e Adolfo Luxúria Canibal ditos por este último, numa edição em parceria com a Fundação Cupertino de Miranda, onde Adolfo Luxúria Canibal interpreta três poemas seus e cinco poemas de Mário Cesariny, acompanhado musicalmente por António Rafael (pianos, teclados e programações), Henrique Fernandes (contrabaixo eléctrico) e Jorge Coelho (guitarra eléctrica).

assírio & alvim, 2012

PASSAGEM DOS SONHOS

Inclinada ou deitada sobre o braço esquerdo
é uma mulher-montanha ou uma montanha-mulher
da cintura para cima vê-se o corpo nu
no seio do lado direito há uma ferida-cratera violácea
ela diz: aqui é luz
depois movendo a mão direita
assinala outro sítio que não é bem o seio esquerdo
julgo que ainda é o seio direito
e diz: aqui é sombra
(não é bem sombra o que ela diz
seria antes o lugar de uma cor
que não sei porquê se opõe à luz)
depois desce lentamente com um dedo espalmado
na direcção do sexo
a unha ao deslizar abre um sulco-ranhura
semelhante a uma fenda aberta na terra
já não se vê carne mas uma planície
com no meio a fenda separadora
descendo mais a mão desaparece entre sedas
que revelam-ocultam outro corpo montanha

Mário Cesariny, in "19 Projectos de Prémio Aldonso Ortigão Seguidos de Poemas de Londres" quadrante, 1971
[ The Man Who Laughs (Paul Leni) ] 1928



«No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra»


Mário Cesariny

PASSAGEM DOS SONHOS

Inclinada ou deitada sobre o braço esquerdo
é uma mulher-montanha ou uma montanha-mulher
da cintura para cima vê-se o corpo nu
no seio do lado direito há uma ferida-cratera violácea
ela diz: aqui é luz
depois movendo a mão direita
assinala outro sítio que não é bem o seio esquerdo
julgo que ainda é o seio direito
e diz: aqui é sombra
(não é bem sombra o que ela diz
seria antes o lugar de uma cor
que não sei porquê se opõe à luz)
depois desce lentamente com um dedo espalmado
na direcção do sexo
a unha ao deslizar abre um sulco-ranhura
semelhante a uma fenda aberta na terra
já não se vê carne mas uma planície
com no meio a fenda separadora
descendo mais a mão desaparece entre sedas
que revelam-ocultam outro corpo montanha

Mário Cesariny, in "19 Projectos de Prémio Aldonso Ortigão Seguidos de Poemas de Londres" quadrante, 1971

fotografia de Fernando Lemos

em forma de poema

dou os meus prantos às procelas
para que cessem em me deixem
dou os meus sonhos às estrelas
para que os meus sonhos não se queixem

fico só como o lobisomem
na estrada sem forma e sem fundo
meus sonhos no ar dormem dormem
à espera da manhã do mundo

vê tu se nesta alegoria
descobres porque estou inteiro
e nunca terei agonia
sem fartar meus sonhos primeiro


Mário Cesariny, in "manual de prestidigitação" assírio & alvim, 2005

Daniil Harms, morto aos trinta e sete anos numa prisão da Leninegrado cercada pelos nazis, pertence à última geração dos grandes vanguardistas russos que ainda ousaram exprimir-se com liberdade e ironia (embora por isso não pudessem publicar e tivessem sido reprimidos). Harms só foi publicado muito parcialmente na URSS vinte anos após a sua morte, em 1962. É um dos mais originais representantes das novas perspectivas literárias que influenciaram a Rússia e o mundo desde o final do século XIX até ao final do primeiro terço do século XX. Fundador da OBERIU, Associação de Arte Real, erigiu o absurdo e o humor negro em arte nas suas peças e histórias curtas. É considerado o representante russo — casual ou não — do movimento surrealista. Além das histórias de Harms propriamente ditas, este volume contém três anexos: o Anexo 1 é o Manifesto oberiuísta. O Anexo 2, que pode considerar-se prosa típica de Harms, consiste nos cinco autos de interrogatório (entre Janeiro de 1931 e Julho de 1932) em que Harms «confessa» ironicamente os seus crimes, sobretudo o carácter anti-soviético das suas poesias infantis. O Anexo 3 é a tradução possível de três dessas suas poesias infantis.

in, Daniil Harms "A velha e outras histórias" assírio & alvim, 2007

DITIRAMBO*

Meu maresperantotòtémico
minha màlanimatógrafurriel
minha noivadiagem serpente
meu èliòtrópolipo polar

meu fiambre de sol de roseira
minha musa amiantulipálida
meu lustrefrenado céu grande
minha afiàurora-manhã

minha fôgoécia de estátuas
minha lábioquimia cerrada
minha ponta na terra meu arsgrima

meu diamantermita acordado?


Mário Cesariny, in "Pena Capital" assírio & alvim, 2004
*poema dedicado a Daniil Harms

NAVIO DE ESPELHOS


O navio de espelhos
não navega, cavalga

Seu mar é a floresta
que lhe serve de nível

Ao crepúsculo espelha
sol e lua nos flancos

Por isso o tempo gosta
de deitar-se com ele

Os armadores não amam
A sua rota clara

(Vista do movimento
dir-se-ia que pára)

Quando chega à cidade
nenhum cais o abriga

O seu porão traz nada
nada leva à partida

Vozes e ar pesado
é tudo o que transporta

E no mastro espelhado
uma espécie de porta

Seus dez mil capitães
têm o mesmo rosto

A mesma cinta escura
o mesmo grau e posto

Quando um se revolta
há dez mil insurrectos

(Como os olhos da mosca
reflectem os objectos)

E quando um deles ala
o corpo sobre os mastros
e escruta o mar do fundo

Toda a nave cavalga
(como no espaço os astros)

Do princípio do mundo
até ao fim do mundo


Mário Cesariny, in “A Cidade Queimada” assírio & alvim, 2000

FIDELIDADE

Porquê não se sabe ainda
mas ainda aos que amam o poeta porque ele lhes dá o livro do não trabalho
e diz cor-de-rosa diante de toda a gente
mas lhe lêem o livro só nas férias
(entre trabalho e trabalho)
e à noite vão a casas dizer cor-de-rosa em segredo a esses e ainda
aos que estudaram o problema tão a fundo
que saíram pelo outro lado
e armaram um quintal novo para as galinhas do poeta porem ovos
e disseram ao poeta estas são as nossas galinhas que tu nos deste
se elas não põem os ovos que amamos
matamos-te
e então o poeta vai e mata ele as galinhas
as suas belas galinhas de ovos de oiro
porque se transformaram em malinhas torpes
em tristes bichas operárias que cheiram a coelho

a esses e ainda
aos realmente explorados
aos realmente montes de trabalho
ou nem isso só rios
só folhas na árvore cheia do método árvore


Mário Cesariny, in “Pena Capital” assírio & alvim, 2004

BRASILEIRA

O vento não varria as folhas
O vento não varria os frutos
O vento não varrias as flores...

E a minha vida não ficava
Cada vez mais cheia
De frutos, de flores de folhas...

O vento não varria as luzes
O vento não varria as músicas
O vento não varria os aromas

E a minha vida não ficava
Cada vez mais cheia
De aromas, de estrelas, de cânticos...

O vento não varria os sonhos
E não varria as amizades...
O vento não varrias as mulheres...

E a minha vida não ficava
Cada vez mais cheia
De afectos e de mulheres...

O vento não varria os meses
E não varria os teus sorrisos...
O vento não varria tudo!

E a minha vida não ficava
Cada vez mais cheia
De tudo.


Mário Cesariny, in "nobilíssima visão" assírio & alvim (1991)

fotografia de Fernando Lemos


ALQUIMIA DO VERBO

agora fiquei triste, realmente,
emudeci

o que esta boca sente
quando sorri!

o jardim está sem gente
e anda um vago sonho por aí

quando voltar a minha força ausente
hei-de pensar neste alibi


Mário Cesariny, in "manual de prestidigitação" assírio & alvim (1981)

imagem de Gérard Dubois