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OBSTÁCULO

Falaram-me dum restaurante de luxo onde há as mais diversas iguarias. Há lá suportes de pratos com música, garrafas de dois gargalos, copos de pé e uma magnifica porta de entrada.
— As portas mais magnificas são essas em que por detrás se lê: "Abram em nome da lei".
— Prefiro, a esses dramas, o voo silencioso das abetardas e a tragédia familiar: o filho que parte para as colónias, a mãe que chora e a irmãzinha que pensa no colar que o irmão lhe há-de trazer. Quanto ao pai, regozija-se sem o mostrar, pois pensa que o filho acaba de se deparar com uma boa situação.
— Fui protegido, desde a mais tenra idade, por um animal doméstico, e no entanto sempre preferi uma daquelas historietas de antanho ao bafo quente da sua língua junto às minhas bochechas.
— Pode-se beber este licor verde com a ponta dos beiços, mas é mais conveniente encomendar um tónico.
— Os forçados esforçam-se imenso a fim de manterem a seriedade. Não lhes fale desses raptos sobrenaturais; a rapariguinha ainda trás o cabelo pelas costas.
— Por conseguinte, só há, para favorecer as evasões, esses carros cinzentos. Todos os dias, pelo meio-dia, alguém se escapa.
— Que ele tenha cuidado com essas escadas que são atiradas horizontalmente sobre as avenidas e que são, todas elas, de todos os. Agarre-a!
— Ele ri-se. Ora veja, aqui tem você um indivíduo que se aproxima de nós a correr.
Nem um só grito sairá dos nossos lábios. Ele corre mais depressa que as palavras.


André Breton e Philippe Soupault
[dadaphone (nº7), Paris, Março de 1920]

in "Pravda 2" fenda, 1983

uma boa reedição...


Acaba de ser lançado pela editora Assírio & Alvim a reedição de mais uma pérola perdida, Eu Antonin Artaud, anteriormente editado pela já extinta editora Hiena. Recordo que em 2004 já tinha saído a terceira edição de Van Gohg o suicidado da sociedade pela Assírio & Alvim, reedição da reedição, a primeira edição pela & etc em 1983 e a segunda pela Hiena em 1989. Ainda fica por reeditar muita coisa de Antonin Artaud, mas para os que pouco conhecem da sua vasta obra este talvez seja um bom ponto de partida, trata-se de uma magnifica antologia de textos essenciais para compreender a sua vida e obra.


«Foi em 1918 que senti em mim as primeiras dentadas destas ondas internas da alma que nos atormentam para ganharem forma. Música, teatro, pintura, poesia, eu compreendia que já não bastariam concretizações como estas, concretizações um dia destinadas a perecer e a perder força, e que o fogo que em mim ardia precisava de corporizações totalmente diferentes. Mas como desarrumar o real até chegar a esta encarnação maior de uma alma que consegue, encarnada num corpo, impor-lhe a carne sexual dura, a carne de alma do seu verdadeiro corpo?»

Antonin Artaud, in "Eu, Antonin Artaud" assírio & alvim, 2007



p.s. para os interessados em adquirir algumas dessas obras anteriormente editadas pela Hiena e pela & etc basta fazer uma visita à livraria letra livre

ANTES A VIDA

Antes a vida que estes prismas sem espessura mesmo se as cores são mais puras
Antes ela que esta hora sempre enevoada estas terríveis carruagens de labaredas frias
Estas pedras sorvadas
Antes este coração engatilhado
Que este charco de murmúrios
Este pano branco a cantar ao mesmo tempo na terra e no ar
E esta bênção nupcial que une o meu rosto ao da total fatuidade
Antes a vida
Antes a vida com os seus lençóis de esconjuro
As suas cicatrizes de fugas
Antes a vida antes esta rosácea no meu túmulo
A vida da presença só da presença
Onde uma voz diz Estás aí e a outra responde Estás aí
Eu pobre de mim não estou
E mesmo quando jogarmos ao que fazemos morrer
Antes a vida
Antes a vida antes a vida Infância venerável
A faixa que parte dum faquir
Parece o escorregadouro do mundo
Não importa que o sol não passe de um destroço
Por pouco que o corpo da mulher se lhe compare
Pensas tu ao contemplar a extensão da trajectória
Ou tão-só ao fechar os olhos sobre a tormenta adorável que se chama a tua mão
Antes a vida

Antes a vida com as suas salas de espera
Mesmo sabendo não ir entrar nunca
Antes a vida que estas estâncias termais
Onde o serviço é feito por coleiras
Antes a vida adversa e longa
Quando aqui os livros se fecharem sobre estantes menos suaves
E lá longe fizer mais que melhor fizer livre sim
Antes a vida

Antes a vida como fundo de desdém
A esta cabeça já de si tão bela
Como antídoto da perfeição aspirada e temida
A vida a maquilhagem de Deus
A vida como um passaporte virgem
Ou uma vilória como Port-à-Mousson
E como tudo foi dito já
Antes a vida


André Breton, in "poemas" assírio & alvim (1994)


«O mais simples dos actos surrealistas consiste em vir, de revólver em punho, para a rua e atirar ao acaso, tanto quanto possível, sobre a multidão. Aquele que, ao menos uma vez, não teve vontade de acabar desta maneira com o sistemazinho de envilecimento e cretinização em vigor, tem o seu lugar muito bem reservado nesta multidão, ventre à altura do cano.»


André Breton

RECEITA SURREALISTA



Mande vir com que escrever, depois de se ter instalado num lugar tão próprio quanto possível à concentração do seu espírito sobre si-mesmo. Coloque-se no estado mais passivo, ou receptivo, que poder. Abstraia do seu génio, do seu talento e de todos os outros. Repita a si-próprio que a literatura é um dos mais tristes caminhos que levam a tudo. Escreva depressa sem assunto prévio, suficientemente depressa para não parar e não ser tentado a rever. A primeira frase virá sozinha, de tal modo é verdade que em cada segundo existe uma frase estranha no nosso pensamento que só deseja exteriorizar-se. É bastante difícil pronunciarmo-nos sobre o caso da frase seguinte; ela participa simultaneamente da nossa actividade inconsciente e da outra, se admitirmos que o facto de termos escrito a primeira arrasta um mínimo de percepção. Aliás, isso pouco lhe deve importar; é nisso que reside, na maior parte dos casos o interesse do jogo surrealista.
A verdade é que a pontuação se opõe, sem dúvida à continuidade absoluta da corrente de que estamos a falar, embora pareça tão necessária como a distribuição dos nós numa corda vibrante. Continue enquanto lhe apetecer. Fie-se no carácter inesgotável do murmúrio (...).

André Breton

fotografia de Man Ray


Girassol

A viajante que atravessou os Halles ao cair do Verão
Caminhava em bicos de pés
O desespero rolava pelos céus seus grandes arãos tão belos
E na mala de mão escondia-se meu sonho esse frasco de sais
Que só a madrinha de deus inalou
Os torpetos pairavam como vapor de água
No chien qui fume
Onde o por e o contra acabavam de entrar
Difícil lhes era ver a moça só de soslaio a viam
Estaria eu diante da embaixatriz do salitre
Ou da curva branca sobre fundo negro a que se chama pensamento
(...).

André Breton in. " o amor louco "
imagem de Masaru Shichinohe