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POST SCRIPTUM

Van Gogh não morreu de um estado de delírio a sério
mas por ter sido corporalmente campo de um problema à volta do qual se debate, desde as origens, o espírito iníquo desta humanidade.
O da predominância da carne sobre o espírito, ou do corpo sobre a carne, ou do espírito sobre uma e outro.
E neste delírio, onde fica o lugar do eu humano?
Durante toda a vida Van Gogh procurou o seu com energia e determinação estranhas,
e não se suicidou num ataque de loucura, no transe de lá não chegar,
pelo contrário acabava de chegar lá e descobrir o que ele era e quem era quando a consciência geral da sociedade, para castigo de ter-se dela,
o suicidou.
Deu-se isto com Van Gogh, como é hábito como se dá por altura de todas as bacanais, missas, absolvições gerais ou qualquer outro rito de consagração, possessão, sucubação ou incubação.
Meteu-se-lhe pois no corpo
esta sociedade
absolvida,
consagrada,
santificada,
e possessa,
apagou-lhe a sobrenatural consciência que ele acabava de tomar e, como se fora uma inundação de corvos negros nas fibras da sua árvore interna,
submergiu-o num acesso repentino
e tomando-lhe o lugar
matou-o.
Porque é lógica anatómica do homem moderno é nunca ter podido viver nem pensar em viver senão à possesso.


Antonin Artaud, in "Van Gogh o suicidado da sociedade" & etc, 1983
trad. Aníbal Fernandes

[OS SERES… ]

O seres
não saem
para o dia exterior

só têm a força
de resplandecer
na noite subterrânea
onde se fazem.

Mas desde eternidades
passam
o seu tempo
e o tempo
a fazer-se
e nem um só chegou
assim
a manifestar-se.

Vai ser preciso esperar que
a mão do Homem
os prenda e consuma
porque só
o Homem
inato e predestinado
tem
esta temível
e
inefável
capacidade:

Fazer o corpo humano sair
para a luz da natureza
mergulhá-lo vivo
no clarão da natureza
onde o sol acabará enfim
por desposá-lo.


Antonin Artaud, in "Eu, Antonin Artaud" assírio & alvim
trad. Aníbal Fernandes

«Fazer surrealismo não é levar o surreal para o real, onde ele vai criar bolor e dormir, amontoar-se e depositar-se nas vidraças bem ajustadas dos livros, mas elevar materialmente o real até esse ponto em que a alma deve brotar dentro do corpo e não parar de amotinar o corpo. — É aquilo que o mundo ainda não conheceu e o surrealismo não pôde fazer, porque a alma do homem actual é prisioneira de um mau corpo que lhe proíbe toda a poesia e a força a viver sob o irremissível pelourinho das leis, sejam de exército, de policia, de igreja, de justiça ou de administração. E são principalmente a igreja.»

Antonin Artaud, in "Eu, Antonin Artaud" assírio & alvim, 2007

É preciso que se compreenda que toda a inteligência não é mais que uma vasta eventualidade, e que se pode perdê-la, não como o alienado que está morto, mas um vivo que está na vida, e que sente em si a atracção e o sopro dela (da inteligência, não da vida).
As titilações da inteligência e esse brusco derrubar das partes.
As palavras a meio caminho da inteligência.
Essa possibilidade de pensar em recuo, e de invectivar de súbito o seu pensamento.
Esse dialogo no pensamento.
A absorção, a ruptura de tudo.
E de repente, esse fio de água sobre um vulcão, a queda ténue e retardada do espírito.


Antonin Artaud, in "O pesa-nervos" hiena, 1991

Pensar sem ruptura mínima, sem astucia no pensamento, sem nenhuma dessas súbitas imposturas a que a minha medula está habituada como posto-emissor de correntes.
A minha medula diverte-se por vezes com esses jogos, deleita-se com esses jogos, com esses raptos furtivos a que preside a cabeça do meu pensamento.
Por vezes, bastar-me-ia uma só palavra, uma pequena palavra sem importância, para ser grande, para falar no tom dos profetas, uma palavra testemunho, uma palavra exacta, uma palavra subtil, uma palavra bem macerada na minha medula, surgida de mim, que se mantivesse no extremo último do meu ser,
e que, para toda a gente, não fosse nada.
Sou testemunho, sou o único testemunho de mim próprio. Esta crosta de palavras, estas imperceptíveis transformações do meu pensamento em voz baixa, da minha pequena parcela do meu pensamento que eu pretendo que estava já formulada, e que aborta,
sou o único juiz capaz de lhe medir o alcance.


Antonin Artaud, in "o pesa-nervos" hiena (1991)
Antonin Artaud [ auto-retrato ] 1947


DESCRIÇÃO DE UM ESTADO FÍSICO

uma sensação de queimadura ácida nos membros, músculos retorcidos e em carne viva, o sentimento de ser de vidro e quebrável, um medo, uma retracção perante o movimento e o barulho. Uma desordem inconsciente do andar, dos gestos, dos movimentos. Uma vontade perpetuamente tensa para os gestos mais simples,
a renuncia ao gesto simples,
uma fadiga arrasante e central, uma espécie de fadiga absorvente. Os movimentos por refazer, uma espécie de fadiga de morte, a fadiga do espírito pela aplicação da mais simples tensão muscular, o gesto de pegar, de se agarrar inconscientemente a qualquer coisa,
a sustentar por uma vontade aplicada.
Uma fadiga do princípio do mundo, a sensação do seu corpo como um fardo, um sentimento de fragilidade incrível, que se torna numa dor despedaçante,
um estado de entorpecimento doloroso, uma espécie de entorpecimento localizado na pele, que não impede nenhum movimento mas altera a sensação interna de um membro, e confere à simples posição vertical o valor de prémio de um esforço vitorioso.
Localizado provavelmente na pele, mas sentido como supressão radical de um membro, e não apresentado já ao cérebro senão imagens de membros filiformes e algodoados, imagens de membros longínquos e fora do seu lugar. Uma espécie de ruptura interna da correspondência de todos os nervos.
Uma vertigem em movimento, uma espécie assombro oblíquo que acompanha todo o esforço, uma coagulação de calor que condensa toda a extensão do crânio, ou se desfaz em pedaços, placas de calor que se deslocam.
Uma exacerbação dolorosa do crânio, uma cortante pressão dos nervos, a nuca obstinada em sofrer, as têmporas que se cristalizam ou se petrificam, uma cabeça espezinhada por cavalos.
(...).


Antonin Artaud, in "o pesa-nervos" hiena (1991)

Vincent van Gogh [ Autoretrato ] 1887



"Debaixo da pele o corpo é uma fábrica a ferver,
e por fora,
o doente brilha,
reluz,
com todos os poros,
estilhaçados."

Antonin Artaud in. "Van Gogh - o suicidado da sociedade"


" Não há disciplina à qual me sinta forçado a submeter-me, por mais rigoroso que seja o raciocínio apelado à minha adesão. Dois ou três princípios de morte ou de vida encontram-se para mim acima da mínima submissão precária. A lógica sempre me pareceu estranha. "

Antonin Artaud