Mostrar mensagens com a etiqueta daniil harms. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta daniil harms. Mostrar todas as mensagens

CADERNO AZUL Nº 10

Era uma vez um homem ruivo, sem olhos nem orelhas. Também não tinha cabelos, e só por convenção lhe chamávamos ruivo.
Não podia falar porque não tinha boca. E nariz também não.
Nem sequer tinha braços e pernas. Também não tinha barriga, nem coluna vertebral, nem mesmo entranhas. Não tinha coisa nenhuma! Por isso pergunto de quem estamos nós a falar.
Desta forma é preferível nada acrescentarmos a seu respeito.

Daniil Harms, in “Crónicas da razão louca” hiena, 1994
trad. Sérgio Mota

para outro que não tu…



«Era um homem ruivo que não tinha olhos nem orelhas. Também não tinha cabelo, pelo que só convencionalmente se podia chamar de ruivo.
Não podia falar, porque não tinha boca. Também não tinha nariz.
Nem sequer tinha mãos, nem pernas. Não tinha ventre, não tinha costas, não tinha coluna vertebral nem quaisquer entranhas. Não tinha nada! Por isso não se compreende de quem se trata.
É melhor não falarmos mais nele.»

Daniil Harms, in "A velha e outras histórias" assírio & alvim, 2007

ilustração de Jean-François Martin

Daniil Harms, morto aos trinta e sete anos numa prisão da Leninegrado cercada pelos nazis, pertence à última geração dos grandes vanguardistas russos que ainda ousaram exprimir-se com liberdade e ironia (embora por isso não pudessem publicar e tivessem sido reprimidos). Harms só foi publicado muito parcialmente na URSS vinte anos após a sua morte, em 1962. É um dos mais originais representantes das novas perspectivas literárias que influenciaram a Rússia e o mundo desde o final do século XIX até ao final do primeiro terço do século XX. Fundador da OBERIU, Associação de Arte Real, erigiu o absurdo e o humor negro em arte nas suas peças e histórias curtas. É considerado o representante russo — casual ou não — do movimento surrealista. Além das histórias de Harms propriamente ditas, este volume contém três anexos: o Anexo 1 é o Manifesto oberiuísta. O Anexo 2, que pode considerar-se prosa típica de Harms, consiste nos cinco autos de interrogatório (entre Janeiro de 1931 e Julho de 1932) em que Harms «confessa» ironicamente os seus crimes, sobretudo o carácter anti-soviético das suas poesias infantis. O Anexo 3 é a tradução possível de três dessas suas poesias infantis.

in, Daniil Harms "A velha e outras histórias" assírio & alvim, 2007

DITIRAMBO*

Meu maresperantotòtémico
minha màlanimatógrafurriel
minha noivadiagem serpente
meu èliòtrópolipo polar

meu fiambre de sol de roseira
minha musa amiantulipálida
meu lustrefrenado céu grande
minha afiàurora-manhã

minha fôgoécia de estátuas
minha lábioquimia cerrada
minha ponta na terra meu arsgrima

meu diamantermita acordado?


Mário Cesariny, in "Pena Capital" assírio & alvim, 2004
*poema dedicado a Daniil Harms