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CAMINHO

que rua é esta que nos separa
ao longo da qual seguro a mão dos meus pensamentos
uma flor está escrita na ponta de cada dedo
e o fim da rua é uma flor que caminha comigo

Tristan Tzara, in "Qual é a minha ou a tua língua?" assírio & alvim, 2008
trad. Jorge Sousa Braga

ANEXO. COMO ME TORNEI ENCANTADOR SIMPÁTICO E DELICIOSO

Durmo muito tarde. Suicido-me a 65%. A vida fica-me muito barata, para mim não é mais que uns 30% da vida. A minha vida tem 30% da vida. Faltam-me os braços, umas guitas e alguns botões. 5% são consagrados a um estado de estupor semi-lúcido acompanhado por crepitações anémicas. Estes 5% chamam-se DADA. portanto a vida é barata. A morte é um bocadinho mais cara. Mas a vida é encantadora e a morte também é encantadora.
Aqui há dias, estava numa reunião de imbecis. Havia muita gente. Toda a gente era encantadora. Tristan Tzara, um personagem pequeno, idiota e insignificante, dava uma conferência sobre a arte duma pessoa se tornar encantadora. Era, aliás, encantador. Toda a gente é encantadora. E espiritual. É delicioso, não é? Aliás, toda a gente é deliciosa, 9 graus abaixo de zero. É encantador, não é? Não, não é encantador. Deus não está à altura. Nem sequer vem na lista. Mas mesmo assim é encantador.
Os embaixadores, os poetas, os condes, os príncipes, os músicos, os jornalistas, os escritores. os diplomatas, os directores, os costureiros, os socialistas, as princesas e as baronesas, é tudo encantador.
Vocês, todos vocês, são encantadores, muito finos, espirituais e deliciosos.
É Tristan Tzara quem vos diz: gostava bastante de fazer outra coisa, mas prefere continuar a ser idiota, um farsante e um aldrabão.
Sejam sinceros, por um instante: o que acabo de vos dizer, é encantador ou idiota?
Há pessoas (jornalistas, advogados, amadores, filósofos) que julgam que mesmo os negócios, os casamentos, as visitas, as guerras, os diversos congressos, as sociedades anónimas, a política, os acidentes, os dancings, as crises económicas, as crises de nervos, são variações de DADA. Como não sou imperialista, não partilho dessa opinião; prefiro acreditar que DADA é apenas uma divindade de segunda ordem, que deve ser simplesmente colocada ao lado das outras formas do novo mecanismo das religiões de interregno.
A simplicidade, é simples ou é DADA?
Acho-me bastante simpático.

Tristan Tzara, in "sete manifestos dada" hiena, 1987
trad. de José Miranda Justo

RECEITA DADAISTA



Pegue num jornal.
Pegue numa tesoura.
Escolha no jornal um artigo que tenha tamanho que pensa dar ao seu poema
Recorte o artigo.
Recorte seguidamente com cuidado as palavras que formam o artigo e meta-as num saco.
Agite com cuidado.
Seguidamente, retire os recortes um por um .
Copie conscienciosamente segundo a ordem pela qual foram saindo do saco
o poema parecer-se-á consigo.
E voçê tornou-se um escritor infinitamente original e de uma sensibilidade encantadora, ainda que incompreendida pelo vulgo.

Tristan Tzara

fotografia de Man Ray