07/05/1925 - 05/01/2008



«Há o estatuto do louco, o estatuto do bêbado, o estatuto do estroina, há o estatuto do vagabundo, do homossexual…
Esses estatutos são rótulos que nos colam em cima. Depois, para um tipo arrancar essas peles, isso é pior do que O Silêncio dos Inocentes quando o gajo queria fazer o fato com a pele das mulheres. Esse estatuto está colado. Por exemplo, vocês podiam agora ir tirar fotografias no meu quarto e ficavam logo com uma impressão muito diferente de mim.»

in revista K, julho de 1992



«Estendo o pé e toco com o calcanhar numa bochecha de carne macia e morna; viro-me para o lado esquerdo, de costas para a luz do candeeiro, e bafeja-me um hálito calmo e suave; faço um gesto ao acaso no escuro e a mão, involuntária tenaz de dedos, pulso, sangue latejante, descai-me dobre um seio morno nu ou numa cabecita de bebé, com um tufo de penugem preta no cocuruto da careca, a moleirarinha latejante; respiramos na boca uns dos outros, trocamos pernas e braços, bafos suor uns com os outros, uns pelos outros, tão conchegados, tão embrulhados e enleados num mesmo calor como se as nossas veias e artérias transportassem o mesmo sangue girando, palpitassem compassadamente, silenciosamente, duma igual vivificante seiva.»

in "Comunidade" contraponto, 1964

3 comentários:

manuel disse...

"Esses estatutos são rótulos que nos colam em cima."

Como dizia o Fellini: "as etiquetas só são boas para pôr nas malas".

hfm disse...

Só que esta comunidade vai ficando cada vez mais pequena.

miguel. disse...

estamos condenados a ser as malas dos outros, afinal somos aquilo que os outros querem que sejamos, é cada vez mais difícil não termos um rótulo...

esta comunidade vai é ficando cada vez mais pobre, já não há Pachecos, nem Mários nem Alexandres, nem Antónios Maria, nem Ernestos, nem Fortes... resta a malta das literaturas, os poetas nascem aos montes e a malta da chamada esquerda agora passeia-se pelas Fnac's e pelas Byblos e come caviar...