Coimbra, 11 de Janeiro de 1948


DIZEM QUE A PAIXÃO O CONHECEU

dizem que a paixão o conheceu
mas hoje vive escondido nuns óculos escuros
senta-se no estremecer da noite
enumera o que lhe sobejou do adolescente rosto
turvo pela ligeira náusea da velhice

conhece a solidão de quem permanece acordado
quase sempre estendido ao lado do sono
pressente o suave esvoaçar da idade
ergue-se para o espelho
que lhe devolve um sorriso tamanho do medo

dizem que vive na transparência do sonho
à beira-mar envelheceu vagarosamente
sem que nenhuma ternura nenhuma alegria
nenhum ofício cantante
o tenha convencido a permanecer entre os vivos


Al Berto

6 comentários:

margarete disse...

levei este post para outras bandas.

miguel. disse...

e fez muito bem...

O Homem que Sabia Demasiado disse...

Grande, grande Al Berto!
Saudações,
VA

Anónimo disse...

Grande, grande Poeta, este Alberto.

hfm disse...

Ele, sempre!

ana salomé disse...

sempre, um príncipe*