NUM ANO SURREALISTA

num ano surrealista
de homens-sanduíche e de banhistas-de-sol
girassóis mortos e telefones vivos
os políticos profissionais domesticados faziam o seu numero do costume
repartidos por partidos
nas pistas dos seus circos de serradura
onde os acrobatas e as balas de canhões humanas
enchiam o ar como gritos
quando de repente um palhaço fleumático
premiu um incomível botão de cogumelo
e uma inaudível bomba de domingo
caiu
apanhando o presidente que rezava
no 19.º buraco do campo de golfe
Oh estava-se numa primavera
de folhas de pele e de flores de cobalto
os cadillacs caíam como chuva entre as árvores
afogando os relvados com loucura
enquanto de cada imitação de nuvem
pingavam miríades de multidões sem asas
de sobreviventes de nagasáqui

E chávenas perdidas
cheias das nossas cinzas
flutuavam no ar à nossa volta.


Lawrence Ferlinghetti, in "Como eu costumava dizer" dom quixote, 1972
trad. José Palha e Carmo

escutar...


«Do terraço deste café olho tremulamente para a vida. Pouco vejo dela – a espalhada – nesta sua concentração neste largo nítido e meu. Um marasmo, como um começo de bebedeira, elucida-me a alma de coisas. Decorre fora de mim, nos passos dos que passam e na fúria regulada de movimentos, a vida evidente e unânime. Nesta hora dos sentidos estagnarem-me e tudo me parecer outra coisa – as minha sensações um erro confuso e lúcido, abro asas mas não me movo, como um condor suposto.
Homem de ideais que sou, quem sabe se a minha maior aspiração não é realmente não passar de ocupar este lugar a esta mesa deste café?»

Fernando Pessoa, in “livro do desassossego” assírio & alvim, 2006
Pint. Almada Negreiros [ Fernando Pessoa ] 1954
Ralph Steiner [ Eight O'Clock Coffee ] 1935

Visões do Sul

Visões do Sul
1ª Mostra Internacional de Cinema de Portimão
Museu de Portimão 4 a 8 de Novembro 2008


PROGRAMAÇÂO

Terça 4 Nov
21h30 O Adeus à Brisa

Quarta 5 Nov
19h00 Jellyfish
.......+ Voyage in G Major

Quinta 6 Nov
19h00 My Marlon and Brando
21h30 WWW-What a Wonderful World

Sexta 7 Nov
19h00 Yo
21h30 Offside
.......+ Taxi Wala

Sábado 8 Nov
16h00 Under The Bombs
19h00 Bab Sebta


organização:

Câmara Municipal de Portimão

Zero em Comportamento – Associação Cultural

http://www.visoesdosul.blogspot.com/

O CEMITÉRIO MARINHO

Esse tecto calmo, que pombas percorrem,
Palpita entre pinheiros, palpita entre túmulos;
Meio-dia o justo enfeita de chamas
O mar, o mar sempre no início!
O prémio depois de um pensamento,
Prolongado olhar na calma dos deuses!

Que puro trabalho de finos relâmpagos
Tanta jóia gasta de invisível espuma,
E que paz parece ali conceber-se!
Quando o sol repousa por sobre o abismo,
Subtis lavores de uma causa eterna,
O tempo cintila e o Sonho é saber.

Durável tesouro, templo de Minerva,
Acervo de calma, visível reserva,
Água sobranceira, Olho que resguardas
Tanto sono em ti sob um véu de chama.
Silencio que és meu!... Na alma edifício
Mas coberto de oiro por mil telhas, Tecto!

Templo do Tempo que um suspiro explica,
Puro ponto onde me elevo e ao qual me habituo
Cercado que estou do meu olhar marinho;
Oferenda suprema por mim feita aos deuses,
Centelhas serenas bem alto se espalham
Para a sementeira de um desdém soberano.

E tal como o fruto que em prazer se esvai,
Como em delicia refaz a ausência
Dentro de uma boca que lhe mata a forma,
Já inspiro aqui o meu futuro fumo
E o céu vai cantar à trespassada alma
Margens convertidas num amplo murmúrio.

Belo e certo céu, vê-me a ser diferente!
Após tanto orgulho, tanto e estranho ócio,
Carregado embora de plenos poderes,
Faço a minha entrega ao espaço brilhante,
Sobre o lar dos mortos corre a minha sombra
Que sabe vergar-me ao seu curso débil.

De alma bem exposta aos faróis do solstício
Eu vou sustentar-te, justiça assombrosa
Desta luz com armas sem piedade alguma!
Pura te devolvo ao lugar primeiro:
Olha para ti!... Mas devolve a luz,
Supõe que é de sombra a triste metade.

Para mim apenas, só meu, em mim próprio,
Junto a um coração, nas fontes do poema,
Entre a inexistência e o sucesso puro
Espero ouvir-me de eco à amplidão interna,
Poço de amargura sombrio e sonoro
Que é oco da lama e sempre futuro!

Enganoso escravo de tanta folhagem,
Golfo que devoras estas grandes secas!
Nos olhos que fecho, segredos magníficos,
Que corpo me arrasta ao seu preguiçoso fim,
Que fronte me atrai a este chão de ossos?
Um fulgor medita naqueles que perdi.

Fechado e sagrado, a arder sem matéria,
Pedaço terrestre ofertado à luz,
Amo este lugar, que archotes dominam,
Feito de oiro e pedras e árvores umbrosas
Onde cada mármore treme sobre sua sombra;
Mas fiel que dorme sobre as minhas campas!

Esplendida cadela, arreda o idólatra!
Sempre que me afasto e a sorrir, zagal,
Levo a demorado pasto ovelhas mistério,
O rebanho branco dos meus frios túmulos,
Deixa-me distante das pombas prudentes,
De sonhos inúteis, de anjos curiosos!

Quando chega aqui, o futuro dorme.
O lustroso insecto arranha a secura;
Ardido e desfeito, tudo o ar recebe
Em desconhecida e severa essência…
Como a vida é vasta, embriagada de ausências,
E o amargor suave, o espírito aberto.

Dão-se bem aqui os mortos ocultos
Que a terra acalenta e seca de mistério.
No alto o Meio-Dia, o Meio-Dia imóvel
Que em si mesmo pensa e a si próprio elege…
Cabeça total, diadema puro,
Quero em ti dizer secreta inconstância.

Só me tens a mim para refrear medos!
Remorsos que eu sinta, indecisões e dúvidas
são deformidade do teu diamante vasto…
Mas na sua noite pesada de mármores
Um povo divaga na raiz das árvores
E por ti vai estando, pôe-se do teu lado.

Já se dissolveram numa condensada ausência,
O barro vermelho bebeu especie branca,
A vida em oferenda passou as flores!
Onde estão dos mortos as frases banais,
A arte pessoal, as almas vulgares?
Tece a larva agora onde houvera prantos.

O gritar agudo de acesas donzelas,
Os olhos, os dentes, as pálpebras molhadas,
O enlevo de um seio a brincar com fogo,
O sangue que brilha em lábio rendidos,
Dádivas finais, dedos que as defendem,
Tudo desce à terra e regressa ao jogo!

E tu, grande alma, esperarás um sonho
Já destituído das cores de mentira
Que onda e oiro tecem aos olhos da carne?
Saberás cantar quando vaporosa fores?
Vai! Está tudo a fugir! Poroso me tens
E a santa impaciência também chega ao fim!

Imortalidade magra feita de ouro e negro,
Consoladora armada de execráveis louros
Que fazes da morte um seio materno,
A bela mentira e a piedosa astúcia!
Quem não reconhece e já não aceita
Este crânio oco e este riso eterno!

Pais do grande abismo, cabeças desertas,
Que bom solo sois sob pás de terra
E em nossos passos lançais confusão!
O vero comedor, o irrefutável verme
Nunca será vosso, que dormis na campa,
Ele vive de vida e não me abandona!

Quem sabe se amor, se ódio a mim próprio?
Tão perto me fica o seu dente secreto
Que todos os nomes lhe podemos dar!
Mas importa! Vê, quer, sonha e apalpa!
De carne lhe sirvo e até na minha cama
Passo a vida a ser desse vivo ser!

Cruento Zenão! Ó Zenão de Eleia!
Soubeste ferir-me com a flecha alada
Que vibra e que voa sem nunca voar!
Engendra-me o som e mata-me a flecha!
Ah! O sol… Que pesada sombra ele é para a alma,
Aquiles imóvel mas a caminha!

Não!…Mantém-te de pé! Na era seguinte!
Rasga, meu corpo, a pensativa forma!
Bebe, ó meu seio, o nascer do vento!
Uma frialdade saída do mar
Devolve-me a alma… Ó poder salgado!
Visite-se a onda que renasce viva!

Sim! Oceano vasto cheio de delírios,
Pele de pantera e clâmide rasgada
Por muitos milhares de deuses do sol,
Hidra que bebeu a tua carne azul
Que volta a morder-te a cintilante cauda.
Em tumulto forte e tanto silêncio,

Levanta-se o vento!… Temos que viver!
O imenso ar abre e fecha o livro,
Salta a onda em pó, enfim, dos rochedos!
Voai minhas folhas assim ofuscadas!
Ondas, penetrai! Entrai águas fartas
No telhado calmo que as velas mordiam!


Paul Valéry, in "O cemitério marinho" hiena, 1987
trad. Pedro José Leal


UM PALITO PARA ALFRED JARRY

Esse pão com fome de polacos e de bicicleta com a poesia com as tripas de fora atravessando incólume terra de Ubus, o onanista voador de diamante em visita ao Amor, Alfred Jarry de seu nome incandescente, que eu conheci estava no meu primeiro solo de ranger de dentes e ele atirava ao alvo — ó cabecinhas, barrigas-de-petróleo, patriotas encuecados de ideal borrado, crocoloditas de pança encortiçada, mandibulantes de carniça operária, grandes escritores de tinta da china maricas — , esse Pão que todos os dias nos rebenta na boca logo de manhã, e depois à mesa, e na cama à noite, e sempre, enquanto este tempo de Ubus não for empurarrado para o alçapão — «nobres para o alçapão, financeiros para o alçapão —, Alfred Jarry de seu nome de letras crepitando no organismo da fêmea do super-macho e escrito no espelho de cada um, esse Pão com vidro moido por dentro para dar aos generais, com fumo para entrar nos olhos dos cães de guarda da paisagem, Alfred Jarry de seu nome cortante, ora vejmos:
Este poeta e a vida, paixão e morte da sua vida não podem sofrer homenagens para além do palito, que é, supõe-se, o que todos aqui vêm trazer, cada um à sua maneira. Porque, para além do palito, neste caso, o execicio de cadaverização estaria demasiado à vista. Desviar as balas alegremente em direcção ao alvo ainda vivo seria o mesmo que desarmar o franco-atirador que foi Alfred Jarry — e ficarmos desarmados. Confesso não estar muito à vontade com, na mão, este palito que me parece uma flor. Rir-se a barriga do rei dos polacos, por minha causa, das pistolas de Jarry, não desejaria eu nunca. O humor, que se quer negro, devorante e criador, há-de em português cintilar mesmo no cadafalso. Vejo uma mancha de sangue no local onde dois amantes se demoraram e oiço-os rir ao longe. Irei atrás deles.
Aqui está: um poeta corre sempre o risco de ser assassinado enquanto viver — sobreviver — rodeado de polacos. Abrir brechas, clareiras num exercito permanente às ordens de Ubu equivale a seguir, se não é amante, o rastro dos amantes.
O anti-terrorismo de Alfred Jarry, que não é para imitações, também não é para ser servido com os talheres com que habitualmente a literatura trata os seus alimentos. E ao pedir, na hora em que a fome o ataca mortalmente, apenas um palito, ao disparar assim afasta desde logo para bem longe os caixeiros das artes funerárias.
A vibrante canção de recusa e de degolação que é a sua vida e a sua obra mais uma vez coloca a poesia nas primeiras linhas de fogo, donde em vão a têm querido tirar. Neste século por acabar, por estripar, por incendiar, o grito de morra o Rei Ubu é a única palavra de ordem.
E cabe aos poetas tornar esse grito bem audível.

António José Forte, in "Uma faca nos dentes" & etc, 1983
imag. Felix Vallotton [ Alfred Jarry ] 1901

recomenda-se...


Órfão, guardião dos relógios e ladrão, Hugo vive entre as paredes de uma movimentada estação de comboios parisienses, onde a sua sobrevivência depende de segredos e do anonimato. Eis que, de súbito, o seu mundo se encaixa – tal como as rodas dentadas dos relógios que ele vigia – com o de uma excêntrica rapariga, amante de livros, e de um velho amargo, dono de uma pequena loja de brinquedos, e a vida secreta de Hugo, bem como o seu segredo mais precioso são colocados em risco. Um desenho misterioso, um bloco de ouro, uma chave roubada e uma mensagem escondida do falecido pai formam a espinha dorsal deste confuso, terno e arrebatador mistério.





Com 294 páginas de desenhos originais e combinando a imagem, novela gráfica e o cinema, Brian Selznick desconstrói a forma clássica da narrativa, proporcionando uma experiência de leitura totalmente inovadora. O resultado é uma fantástica viagem cinematográfica, conduzida pelo olhar de um arrojado contador de histórias, artista e escritor.

Brian Selznick "A invenção de Hugo Cabret" gailivro, 2008
trad. Pedro M. Ferreira

À MINHA MUSA

Senhora da manhã vitoriosa
E também do crepúsculo vencido.
Ó senhora da noite misteriosa,
Por quem ando, nas trevas, confundido.

Perfil de luz! Imagem religiosa!
Ó dor e amor! Ó sol e luar dorido!
Corpo, que é alma escrava e dolorosa,
Alma, que é corpo livre e redimido.

Mulher perfeita em sonho e realidade.
Aparicão Divina da Saudade...
Ó Eva, toda em flor e deslumbrada!

Casamento da lágrima e do riso;
O céu e a terra, o inferno e o paraíso,
Beijo rezado e oração beijada.



Teixeira de Pascoaes, in "Poesia" assírio & alvim, 2002
imag. Teixeira de Pascoaes, auto-retrato

Que não haja fome enquanto houver “fome”


Knut Hamsun "Fome" cavalo de ferro, 2008
trad. Liliete Martins

correspondências...


Um dos meus livros mais aguardados, Ennemis Publics (Flammarion/Grasset) acaba de ser lançado em França...
Agora só falta esperar que chegue a edição Portuguesa...

Don Cavalli


CERIMÓNIA FUNESTA

O corpo não responde
às vozes de comando,
como um cão estropiado
já desdenha os apelos
os antigos convites
às funestas moradas,
esqueceu-se do ponto
vai olvidando senhas
os códigos das grutas
acumulando lixos
as servidões austeras
diluem-se num canto
o corpo não atende chamadas
não estremece ao ruído da chave
não suporta
qualquer intromissão
secou num aterro,
os restos à vista
a memória escava
da lembrança os rastos
avidamente suga
de tal fausto os ossos,
de tão vitais cerimónias
nos tão secretos barcos
mesmo o pouco que resta
ainda se mastiga.


Fátima Maldonado, in "Vida Extenuada" & etc, 2008

E A MORTE PERDERÁ O SEU DOMÍNIO

E a morte perderá o seu domínio.
Nus, os homens mortos irão confundir-se
com o homem no vento e na lua do poente;
quando, descarnados e limpos, desaparecerem os ossos
hão-de nos seus braços e pés brilhar as estrelas.
Mesmo que se tornem loucos permanecerá o espírito lúcido;
mesmo que sejam submersos pelo mar, eles hão-de ressurgir;
mesmo que os amantes se percam, continuará o amor;
e a morte perderá o seu domínio.

E a morte perderá o seu domínio.
Aqueles que há muito repousam sobre as ondas do mar
não morrerão com a chegada do vento;
ainda que, na roda da tortura, comecem
os tendões a ceder, jamais se partirão;
entre as suas mãos será destruída a fé
e, como unicórnios, virá atravessá-los o sofrimento;
embora sejam divididos eles manterão a sua unidade;
e a morte perderá o seu domínio.

E a morte perderá o seu domínio.
Não hão-de gritar mais as gaivotas aos seus ouvidos
nem as vagas romper tumultuosamente nas praias;
onde se abriu uma flor não poderá nenhuma flor
erguer a sua corda em direcção à força das chuvas;
ainda que estejam mortas e loucas, hão-de descer
como pregos as suas cabeças pelas margaridas;
é no sol que irrompem até que o sol se extinga,
e a morte perderá o seu domínio.


Dylan Thomas, in "A mão ao assinar este papel" assírio & alvim, 1998
trad. Fernando Guimarães

A GAVETA APRESENTA :



dias 1 e 2 de Novembro, na antiga lota, junto à ponte velha (Portimão), às 21.30

O AUTOR

Samuel Beckett (Dublin 1906-Paris 1989) é um dos grandes mestres da literatura do século XX. Participante no movimento modernista e da renovação do romance e do teatro desse século, Beckett, que foi galardoado com o Prémio Nobel da Literatura em 1969, é o autor de romances e peças de teatro consagradas mundialmente como Murphy, Watt, Molloy, À espera de Godot e Dias Felizes.

SINOPSE

"Naquela altura eu não percebia as mulheres. Aliás agora também não. Nem os homens. Nem os animais. O que percebo melhor, e não é dizer muito, são as minhas dores." Samuel Beckett, in “Primeiro Amor”.
Um homem conta a sua história. Uma história de amor? Sim, e não só. Entre o cemitério e um banco de jardim, entre altas urtigas e bostas de vaca, entre uma casa e outra casa ele relata como as coisas realmente se passaram entre ele e Lulu. Ou será Ana? "Mas que importância tem o modo como as coisas se passam a partir do momento em que se passam." A história é sempre a mesma. Desde o princípio do verbo que tem sido assim. A ironia da vida. As adversidades do amor. A inadiável morte. Nunca houve outros assuntos. Nunca haverá outra história. Seja deste ou de outro homem. Os adereços mudam mas o assunto não. Sempre. A vida. O amor. A morte. O medo. O riso. O desespero. Aperversidade. A repetição.

ESTE ESPECTÁCULO

Este espectáculo nasce de uma provocação. A novela "Primeiro Amor" escrita por Samuel Beckett.
Samuel Beckett não é um autor meigo. A sua escrita intensa e provocadora, marcou o século XX, marca o século XXI, e continuará viva e actual por muitos mais. Beckett é sempre um desafio. Para quem o lê. Para quem o encena. É um autor radical. Nele não há temperaturas amenas. Godot, Dias Felizes, Malone, Molloy, Catástrofe, O inominável, Not I, Come and Go, Breath. São exemplos. Quando penso em Beckett, penso numa cabeça. Na cabeça do Homem. Tudo está na cabeça. Fechado. Então é preciso abri-la. A cabeça começa a agir: a boca começa a falar. Um precipício de palavras. Sem travão. Sem filtros. E o corpo obedece à cabeça. Às palavras. Esta cabeça quase não precisa do corpo. Mas já que o tem de carregar, manda nele. A cabeça como início e fim. O corpo como extensão.Como não possui moral, nem preconceitos, a cabeça diz aquilo. Tem a coragem de atirar cá para fora, sem filtros, sem cadeados, aquilo tudo: as coisas todas que nos passam pela cabeça! E são tantas as coisas que passam pela cabeça do Homem!E nós o que fazemos com aquilo? Engolimos em seco o nó da garganta, coçamos o nariz, compomos o vestido, retorcemos o bigode, limpamos as gotas de suor da testa, remexemos o rabo no assento da cadeira, atiramos gargalhadas para afastar o incómodo. Beckett causa incómodo, estranheza e riso. Pois quanto mais o lemos e ouvimos, mais próximo estamos da nossa incompreensão e da incompreensão dos outros. Afinal como nos vamos compreender, aceitar, perdoar, amar, se está tudo na cabeça? Fechado na cabeça. Na dele. Na minha. Na vossa. E ninguém tem a chave. Por isso, talvez o melhor seja não criar barreiras intelectuais. Não tentar dissecar com o bisturi toda a mensagem. Deixem-se levar pela cabeça. Deixem a cabeça falar. Andar. Chorar. Rir. Defecar. Cantar. Acusar. Lamentar. Dançar. Comer. Agredir. Imaginar. Salvar. Amar, se for caso disso. Deixem a cabeça vaguear, livre.
Eis o meu pensamento para esta noite.

Sandro William Junqueira

FICHA TÉCNICA

Texto: Samuel Beckett
Encenação: Sandro William Junqueira
Interpretação: Rui Cabrita
Cenografia: Paulo Quaresma
Desenho de Luz: Rui Luacto
Figurinos: A Gaveta
Música: Luís Conceição
Sonoplastia: Rui Bentes
Aconselhamento: Prof. José Louro


Não há remissão para este pecado:
o cheiro da prostituta acordou o homem.
Enojado, o homem pagou e levantou-se.
Ela fechou as pernas e o jardim e riu-se.
O homem procurara ali,
o cheiro da carne certa em vão:
as axilas envinagradas;
o guisado atrás dos lóbulos;
a dobrada das virilhas;
o coalho matinal da saliva parada pela noite.
Aquilo tudo que tanto o excitava na mulher que em casa o recusava.
De narinas asfixiadas, o homem fechou a porta atrás de si.
Não há remissão para este pecado:
Tanto mel, canela, amoras e jasmim.

Sandro William Junqueira
imagem de Gottfried Helnwein


Quem vem lá, ansioso, rude, místico, nu?
Como retiro forças da carne que me alimenta?

Em todo o caso, o que é um homem? Quem sou eu? Quem és tu?

Tudo o que designo como meu chamarás teu,
Ou então perdereis tempo a escutar-me.
Não lamento o que o mundo lamenta,
Que os meses são vazios e a terra apenas lodaçal e imundície.

O queixume e a humilhação juntam-se aos remédios para os inválidos, o conformismo vai até à quarta geração,
Eu uso o chapéu como me apetece, dentro ou fora de casa.

Porque é que devia rezar? E venerar e ser cerimonioso?

Tendo examinado os estratos, analisando-os ao pormenor, consultando os mestres, calculando com rigor,
Não encontro gordura mais agradável do que a que tenho agarrada aos meus próprios ossos.

Em toda a gente vejo-me a mim mesmo, ninguém é mais do que eu, nem um grão de cereal menos,
E o bem e o mal que digo de mim digo deles.

Sei que sou sólido e são,
Os objectos do universo convergem eternamente para mim,
Tudo foi escrito para mim e devo decifrar o seu sentido.
Sei que sou imortal,
Sei que esta órbita não pode ser traçada pelo compasso de um carpinteiro,
Sei que não me apagarei como o fogo do archote que uma criança leva pela noite.
Sei que sou majestoso,
Não atormento o meu espírito para quem se defenda ou explique,
Sei que as leis elementares nunca se desculpam,
(No fim de contas, reconheço que o meu orgulho não é mais alto do que o nível onde edifico a minha casa).
Existo como sou, e isso basta,
Se mais ninguém no mundo o sabe fico satisfeito,
E se todos e cada um o sabem fico satisfeito.

Há um mundo que o sabe e é sem dúvida o mais vasto para mim, e esse sou eu próprio,
E se o reconheço hoje dentro de dez mil ou dez milhões de anos,
Alegremente o posso aceitar agora, ou alegremente posso esperar.

O apoio do meu pé é entalhado em granito,
Rio-me daquilo que chamas dissolução,
E conheço a amplitude do tempo.


Walt Whitman, in "Canto de mim mesmo" assírio & alvim, 1992
trad. José Agostinho Baptista

Food Fight


Stefan Nadelman, 2006


www.touristpictures.com

mais aqui e aqui

Neste pequeno livro, o aclamado realizador de cinema David Lynch abre uma rara janela para os seus métodos como artista, a sua forma de capturar ideias e desenvolver a criatividade, e os imensos benefícios artísticos que experimentou graças à prática de meditação.
Em Busca do Grande Peixe é uma verdadeira revelação para aqueles que gostariam de compreender melhor a visão pessoal de Lynch. É igualmente inspirador para qualquer um que queira desenvolver a sua própria criatividade.
Os lucros do autor pela venda deste livro revertem a favor da David Lynch Foundation for Consciousness-Based Education and World Peace, com o objectivo de providenciar fundos para programas de Meditação Transcendental nas escolas.

David Lynch [ em busca do grande peixe ] estrelapolar, 2008
trad. Mariana Spratley
Havia um homem que corria pelo orvalho dentro.
O orvalho da muita manhã.
Corria de noite, como no meio da alegria,
pelo orvalho parado da noite.
Luzia no orvalho. Levava uma flecha
pelo orvalho dentro, como se estivesse a ser caçado
loucamente
por um caçador de que nada se sabia.
E era pelo orvalho dentro.
Brilhava.

Não havia animal que no seu pêlo brilhasse
assim na morte,
batendo nas ervas extasiadas por uma morte
tão bela.
Porque as ervas têm pálpebras abertas
sobre estas imagens tremendamente puras.

Pelo orvalho dentro.
De dia. De noite.
A sua cara batia nas candeias.
Batia nas coisas gerais da manhã.
Havia um homem que ia admiravelmente perseguido.
Tomava alegria no pensamento
do orvalho. Corria.

Ouvi dizer que os mortos respiram com luzes transformadas.
Que têm os olhos cegos como sangue.
Este corria, assombrado.
Os mortos devem ser puros.
Ouvi dizer que respiram.
Correm pelo orvalho dentro, e depois
estendem-se. Ajudam os vivos.
São doces equivalências, luzes, ideias puras.
Vejo que a morte é como romper uma palavra e passar

— a morte é passar, como rompendo uma palavra,
através da porta,
para uma nova palavra. E vejo
o mesmo ritmo geral. Como morte e ressurreição
através das portas de outros corpos.
Como uma qualidade ardente de uma coisa para
outra coisa, como os dedos passam fogo
à criação inteira, e o pensamento
pára e escurece

— como no meio do orvalho o amor é total.
Havia um homem que ficou deitado
com uma flecha na fantasia.
A sua água era antiga. Estava
tão morto que vivia unicamente.
Dentro dele batiam as portas, e ele corria
pelas portas dentro, de dia, de noite.
Passava para todos os corpos.
Como em alegria, batia nos olhos das ervas
que fixam estas coisas puras.
Renascia.


Herberto Helder, in "A faca não corta o fogo" assírio & alvim, 2008

gentilmente retirado daqui


Engoli
água. Profundamente: - a água estancada no ar.
Uma estrela materna.
E estou aqui devorado pelo meu soluço,
leve da minha cara.
O copo feito estrela. A água com tanta força
no copo. Tenho as unhas negras.
Agarro nesse copo, bebo por essa estrela.
Sou inocente, vago, fremente, potente,
tumefacto.
A iluminação que a água parada faz em mim
das mãos à boca.
Entro nos sítios amplos.
- O poder de reluzir em mim um alimento
ignoto; a cara
se a roça a mão sombria, acima
da camisa inchada pelo sangue,
abaixo do cabelo enxuto à lua. Engoli
água. A mãe e a criança demoníaca
estavam sentados na pedra vermelha.
Engoli
água profunda.

Herberto Helder, in "A faca não corta o fogo" assírio & alvim, 2008