FAZ FALTA SER CEGO

Faz falta ser cego,
ter como metidas nos olhos raspaduras de vidros,
cal viva,
areia a ferver,
para não ver a luz que salta em nossos actos,
que ilumina por dentro a nossa língua,
a nossa palavra quotidiana.

Faz falta querer morrer sem lápide de glória e alegria,
sem participação nos hinos futuros,
sem lembrança nos homens que julguem o passado sombrio da Terra.

Faz falta querer já na vida ser passado,
obstáculo sangrento,
coisa morta, esquecimento seco.


Rafael Alberti, in " Antologia da Poesia Espanhola Contemporânea" assírio & alvim, 1985
trad. José Bento

4 comentários:

bruno sousa villar disse...

Sem vaidade, na vida e na morte.

Mais que um poema, uma divisa de existência.

Grato pela partilha.

Texto-Al disse...

este poema dá que pensar. é daqueles que requer várias leituras.

abraço;)

margarete disse...

(acho que venho cá roubar esta mais loguito)

a.m. disse...

"Hace falta" deverá traduzir-se por "faz falta"?
Ou antes por "é preciso"?...
Logo um tradutor encartado (e inspirado, e inspirado) como José Bento!
Fica dito ('queda dicho')...