«Sim, quem, como Artaud, morreu jovem em 1948,
quem, como eu, nasceu no mesmo ano,
tem o culto,
senão do Eu,
da carne, "no sentido sensível da palavra; as coisas só nos tocam quando nos afectam a carne, quando com ela coincidem e a abalam".
Credo in unum deum. O deus único é a sombra do tirano reflectida nos céus.
Não há trindade senão quando Deus vê o cu com um jogo de dois espelhos. Cremos que a ressurreição da carne se dará tão-somente nos domínios do espelho, do nitrato de prata e do celulóide.
Cremos na encarnação: se o espermatozóide se não espelhasse
nas águas do mar (madre), escassas esperanças teria de vida
e de espermanência. Vita venturi speculi.
Est modus in rebus.
Habent sua fata libelli.
Por isso é que, poeta, Antonin
Artaud não se ficava pela escrita; dava-se
também em espectáculo: via-se (vinha-se) no Espelho do seu Duplo:
Paris et notre parterre (Voltaire) (plateia efémera, espelho obscuro como o teu reflexo nas portas do metro de palhavã aos anjos),
até ao dia em que, não se reconhecendo nos remoinhos de tal
pântano, buscou asilo nas águas solitárias do
Láudanum. Faciamus experimentum in anima vili.»

Manuel João Gomes, in "Almanaque dos Espelhos"& etc, 1980

2 comentários:

fallorca disse...

Você tem uma memória do caraças, oh Miguel!

miguel. disse...

ainda estou fresco de memória, aliás, tenho trabalhado com ela… antes destes últimos quatro anos de livreiro onde se fundem os livros que vendo com os que leio e os que gostava de vender e os que jamais irei ler juntam-se outros seis de "rapaz do clube de video" onde não faltavam nomes de filmes, actores e realizadores, aliás o meu maior medo será mesmo começar a perder a memória, umas vezes até falta, o que até sabe bem… mas outras fico assustado…