O meu coração nasceu nu,
logo em fraldas embalado.
Só mais tarde usou
poemas em vez de roupas.
Tal como a camisa que punha
levava sobre o corpo
a poesia que lera.

Vivi meio século assim
até que, sem uma palavra, nos encontrámos.

A minha camisa nas costas da cadeira
diz-me que hoje percebi
quantos anos
a decorar poemas
esperei por ti.


John Berger, in "E os nossos rostos, meu amor, fugazes como fotografias" quasi, 2008
trad. Helder Moura Pereira

ilustr. Gerad Dubois

4 comentários:

Patrícia Coelho disse...

Poucas vezes li algo tão bonito.

L. disse...

depois de férias no coração político da europa, o regresso a lisboa, os regresso aos blogues...

lançamento do livro a 6 de julho

Anónimo disse...

Fiz alguma publicidade ao Blog. Ver http://ocafedosloucos.blogspot.com/

Ivo

menina limão disse...

Não gosto muito deste adjectivo, muito menos para aplicar a poemas, mas aqui é mesmo o mais indicado: lindo.