CADAVRE EXQUIS III [73]


A noite do último Inverno bem pode rodar à minha volta, ela não me há-de atingir: bem posso aproximar-me das três moças, nunca lhes hei-de falar, nunca lhes hei-de tocar.De súbito, senti tal pena e tal vergonha que fiquei numa grande perturbação.
De resto, as evasões, as autonegações e reformulações arbitrárias da memória histórica a que a culpabilidade nos impele são, de um modo geral, inconsistentes.
Nunca visitaria aquele cretino do Morrow nem por todo o dinheiro do mundo, mesmo que estivesse desesperado. Nesta altura a inglesa deita sobre a fossa cheia o seu corpo esguio e nu com um traseiro encantador; aflorada, assim, por formosos dedos brancos, a carne-mucosa daquele falso crânio calvo, um tanto sujo de merda na flor raiada do cume, ainda é mais inquietante de ver.
Um: a Biblioteca é tão enorme que toda a redução de origem humana se torna infinitésima. Agora que perdi tudo acho que ganhei o direito a isso.
Referi Villavieja del Oro e acrescentei que ali havia muitos poetas e alguns escritores famosos. Não reza, afia as lâminas. A Fera Amansada usa a metáfora do adestramento do falcão ao longo de toda a peça. Acreditava-se que cascos de cavalo carbonizados curavam constipações no prazo de dois dias, enquanto que os ossos ilíacos de um cavalo, quando colocados sobre o corpo de um epiléptico, ajudavam a prevenir os ataques.
Daniel Quintela disse:
É um absurdo, e não gostaria que você cometesse esse erro. Mesmo quando não se é crente, com muito mais razão quando se é hostil às religiões, como veremos em Nietzsche, não temos o direito de ignorá-las.
É preciso dizer ao comerciante que é um estojo para pôr rabos; - caudas - sim, rabos que são caudas e outros pequenos desenhos que me diverti a fazer com tinta vermelha, daí a necessidade de o ter, enviai-mo, peço-vos, porque na sua falta vejo-me obrigado a usar outra coisa, que danifica, rasga e faz quebrar os meus rabos, as tais caudas, e isso é bastante desagradável.
Quina penetrava nessas alcovas, nessas salas em que se prostravam mulheres que repousavam do cansaço da apresentação e do preconceito; e era como se a porta duma cela de loucas se abrisse na sua frente.
Com um ar impaciente, Jerry disse:
- Que querias que ele te dissesse?
E mostrou-lhe o pai das alturas e a sua alma, como ela tinha sido derramada em tudo [...] que era devorada por aqueles que devoram, absorvida por aqueles que absorvem. Depois quase que foram de encontro a uma árvore.
Catherine largou o dinheiro aos pés de Lucas.


Resultado do terceiro cadavre exquis no qual participaram 18 pessoas.
Obrigado a todos aqueles que participaram.

uma boa notícia...


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brevemente...


Slavoj Žižek "Lacrimae Rerum - ensaios sobre Kieslowski, Hitchcock, Tarkowski e Lynch" orfeu negro, 2008

no prelo...


Ana Teresa Pereira - O Fim de Lizzie - relógio d'água

Enrique Vila-Matas - Exploradores do Abismo - teorema

Jack Kerouac - Duluoz, O Vaidoso - relógio d'água

Júlio Cortázar - Rayuela: O Jogo do Mundo - cavalo de ferro

coisas para ver ou rever...



Wisit Sasanatieng [ Fah talai jone ] 2000

UMA FOLHA DE ERVA

Pedes-me um poema.
Ofereço-te uma folha de erva.
Dizes que não chega.
Pedes-me um poema.

Eu digo que esta folha de erva basta.
Vestiu-se de orvalho.
É mais imediata
do que alguma imagem minha.

Dizes que não é um poema.
É uma simples folha de erva e a erva
não é suficientemente boa.
Ofereço-te uma folha de erva.

Estás indignada.
Dizes que é fácil oferecer uma folha de erva.
Que é absurdo.
Qualquer um pode oferecer uma folha de erva.

Pedes-me um poema.
E então escrevo uma tragédia acerca
de como uma folha de erva
se torna cada vez mais difícil de oferecer

e de como quanto mais envelheces
uma folha de erva
se torna mais difícil de aceitar.


Brian Patten, in "Qual é a minha ou a tua língua?" assírio & alvim, 2008
org. Jorge Sousa Braga

«… se afinal são os futebolistas e os cavalos que têm génio, então só nos resta o uso que se lhe der para podermos salvar a nossa singularidade, razão pela qual [Ulrich] decidiu tirar férias da vida por um ano para descobrir qual o uso mais adequado que poderia fazer das suas capacidades.»

Robert Musil, in "O Homem sem Qualidades" (vol. I cap. 13) dom quixote, 2008
trad. João Barrento

PASSAGEM DOS SONHOS

Inclinada ou deitada sobre o braço esquerdo
é uma mulher-montanha ou uma montanha-mulher
da cintura para cima vê-se o corpo nu
no seio do lado direito há uma ferida-cratera violácea
ela diz: aqui é luz
depois movendo a mão direita
assinala outro sítio que não é bem o seio esquerdo
julgo que ainda é o seio direito
e diz: aqui é sombra
(não é bem sombra o que ela diz
seria antes o lugar de uma cor
que não sei porquê se opõe à luz)
depois desce lentamente com um dedo espalmado
na direcção do sexo
a unha ao deslizar abre um sulco-ranhura
semelhante a uma fenda aberta na terra
já não se vê carne mas uma planície
com no meio a fenda separadora
descendo mais a mão desaparece entre sedas
que revelam-ocultam outro corpo montanha

Mário Cesariny, in "19 Projectos de Prémio Aldonso Ortigão Seguidos de Poemas de Londres" quadrante, 1971

fotografia de Fernando Lemos

para outro que não tu…



«Era um homem ruivo que não tinha olhos nem orelhas. Também não tinha cabelo, pelo que só convencionalmente se podia chamar de ruivo.
Não podia falar, porque não tinha boca. Também não tinha nariz.
Nem sequer tinha mãos, nem pernas. Não tinha ventre, não tinha costas, não tinha coluna vertebral nem quaisquer entranhas. Não tinha nada! Por isso não se compreende de quem se trata.
É melhor não falarmos mais nele.»

Daniil Harms, in "A velha e outras histórias" assírio & alvim, 2007

ilustração de Jean-François Martin

El Perro del Mar


[God Knows (You gotta give to get)]

do «ÚLTIMO CADERNO»

Duas horas em breve!
De certeza que estás deitada;
Não tenho pressa.
Podia mandar-te um relâmpago como se fosse um telegrama.
Mas para quê acordar-te,
atormentar-te?

Como se diz:
o incidente está encerrado.
A barca do amor quebrou-se
de encontro ao quotidiano.
Estamos quites os dois.
Para quê desfolhar o inventário
dos males, das feridas recíprocas?

Duas horas em breve!
De certeza que estás deitada;
a Via Láctea corre
como se fosse um rio de prata.

Vê que silêncio no mundo:
a noite impõe ao céu
a servidão de tantas tantas estrelas.


Vladimir Maiakovski, in "Qual é a minha ou a tua língua?" assírio & alvim, 2008
org. Jorge Sousa Braga

Yuka Yamaguchi

self-portrait

there you are!

all i can see

chicken fight

my proxy

new heartbeat

www.plastiquemonkey.com/

Cristo morreu há mil e tantos anos;
foi descido da cruz, logo enterrado:
mas até aqui de pedir não têm cessado
para o sepulcro dele os franciscanos.

Tornou Cristo a surgir entre os humanos,
subiu da terra aos céus, lá está sentado,
e ainda à saúde dele sepultado,
bebem (o saco o paga) estes maganos.

E cuida quem lhes dá a sua esmola,
que eles a gastam em função tão pia?
Quanto vos enganais; oh gente tola!

O altar mor com dois cotos se alumia;
e o frade com a puta que o consola,
gasta de noite o que lhe dais de dia.


Francisco Manuel do Nascimento, in "Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica" frenesi/antígona, 1999

ilustração de William Cheselden

NOTÍCIA ACRÓSTICA

Os quartos são feitos para regressar a eles
Depois de o tempo passar.
Pandemónio, vozes silenciosas apenas um instante
De choque. O sal queima,
O medo jaz como seda sob a luz do sol.
As sombras vivem para cegar a criança.
De agora em diante a casa nunca estará vazia;
Mesmo o hóspede exangue contará
Os amanheceres de chuva antes da sua partida.
Algures significa andar uma milha ou mais para Este.

Apesar do que se diz noutros lugares,
Um desesperado crepúsculo traz uma outra paz.
Veias mais longas,
Um anfitrião coxo,
Servem para cativar.
A alquimia acabou com o cobalto.
Hoje em dia os herejes são estrangulados.
Evidência: a compulsividade é o destino
E qualquer vento contra cheira a Deus.
Rio abaixo está o caminho; concordas? Aguenta.


Paul Bowles, in “Poemas” assírio & alvim, 2008
trad. José Agostinho Baptista


Eu ontem vi-te…
Andava a luz
Do teu olhar,
Que me seduz
A divagar
Em torno de mim.
E então pedi-te,
Não que me olhasses,
Mas que afastasses,
Um poucochinho,
Do meu caminho,
Um tal fulgor
De medo, amor,
Que me cegasse,
Me deslumbrasse,
Fulgor assim.

Ângelo de Lima, in "poesias completas" assírio & alvim, 2003

ilustr. de Esao

Leitura recomendada...



(DOENÇA)

Quando perdeu o braço direito, começou a escrever com a mão esquerda. Quando perdeu o braço esquerdo, começou a escrever com o pé direito. Quando perdeu a perna direita, começou a escrever com o pé esquerdo. Quando perdeu a segunda perna, não escreveu mais.
Como soldado, tinha sido um mártir. Mas com 105 centímetros, nunca passaria de um escritor menor.

Fernando Dinis


O PRIMEIRO AMOR

Com o passar dos anos, o ursinho de peluche foi trocado por um lego, o lego foi trocado por um livro, o livro foi trocado por uma consola, a consola foi trocada pelo primeiro amor, o primeiro amor foi trocado por uma mulher, a mulher foi trocada pelos filhos, os filhos foram trocados pelo trabalho, o trabalho foi trocado pela solidão, a solidão foi trocada pelo ursinho de peluche. Um homem regressa sempre ao seu primeiro amor.

Henrique Manuel Bento Fialho


DIVISÃO

Ergue-se o machado nas mãos do carrasco. Vai descer, o machado, sobre o pescoço do condenado. Um, dois segundos e a cabeça seguirá a sua vida, deixando o corpo para trás. Por mais racional que seja, o cérebro humano, nesta situação, é sempre iludido pela aparência de liberdade: alguns segundos de consciência depois da mutilação são a camuflagem do facto de a vida ter acabado. O machado atinge o ponto superior e começa a descida. Um pensamento: e agora? Uma dúvida: onde acaba a vida? O homem não consegue ver o machado na mão do carrasco, não sabe quando o seu corpo se dividirá em dois (nota: o corpo de um homem não foi feito para ter duas parte autónomas), não pode contar o tempo até à sua morte. Resta-lhe a imaginação: onde está o machado neste momento? A imaginação por si só nunca tem medo.
Pelo contrário, é no enorme vazio entre a imaginação e a realidade que reside o medo.

João Carlos Silva


UM DESERTO NO DESERTO

Pegou no comando da televisão. Nada. Chuva. Na cozinha, de frigorifico aberto, reparou que não tinha comida para encher o estômago que já havia horas estava em sinal de alerta. Deitou-se. A cama, outrora habitada por fortes tempestades nocturnas, parecia um deserto. Deitado no meio da cama, sentia que poderia percorrer um quilómetro para a esquerda e outro para a direita. Na rua, não havia ninguém que lhe interessasse. Não tinha família, não tinha mulher, não tinha filhos, não tinha amigos.
Nos últimos tempos, começara a sentir um forte aperto no estômago. Não um daqueles que indiciam um novo amor. Um aperto de pânico, de desespero, de querer morrer. Se aquela vida pequena, vazia e desinteressante, igual a tantas outras, nunca lhe dissera nada, naquele momento, menos lhe dizia.
Tentou ligar o rádio. Zero. Procurou uma tesoura. Cortou as unhas dos pés. Tomou banho. Queria ser um suicida higiénico.

Paulo Rodrigues Ferreira


EXCESSO DE POESIA

Ia todos os dias à biblioteca e todos os dias era o primeiro a chegar. Pedia um livro de poesia e sentava-se de frente para a entrada, lendo e fantasiando. Sempre que a porta se abria, descolava disfarçadamente os olhos dum poema e observava quem entrava. Andou nisto anos a fio, entre versos, rimas e sonhos, procurando a mulher da sua vida. Quando a encontrou perdeu-a em poucos minutos.
Na realidade, não teve prosa para ela.

Fernando Gomes


in "primeira antologia de micro-ficção portuguesa" exodus, 2008
selecção e organização de Rui Costa e André Sebastião

QUERIA SER ACONTECIMENTO

Queria ser acontecimento. Imaginava-me partitura. Era desajeitado. A caveira que, mau grado meu, substituía a maçã que amiúde levava aos lábios, só eu a via. Punha-me a um canto para mordê-la correctamente. Dado que não é possível andar a passear nem pretender fazer o amor com um fruto semelhante entre os dentes, decidi, quando tinha fome, dar-lhe o nome de maçã. E já não me incomodou mais. Só mais tarde me apareceu o objecto que me embaraçava em forma gotejante, mas sempre ambígua, de poesia.

René Char


AS REALIDADES
(fábula)

Era uma vez uma realidade
com as suas ovelhas de lã real
a filha do rei passou por ali
E as ovelhas baliam que linda que está
a re a re a realidade.

Na noite era uma vez
uma realidade que sofria de insónia
Então chegava a madrinha fada
e realmente levava-a pela mão
a re a re a realidade.

No trono havia uma vez,
um velho rei que se aborrecia
e pela noite perdia o seu manto
e por rainha puseram-lhe ao lado
a re a re a realidade.

CAUDA: dade dade a reali
dade dade a realidade
A real a real
idade idade dá a reali
ali
a re a realidade
era uma vez a REALIDADE.

Louis Aragon


MEMÓRIA

Apenas um minuto
E já voltei
De tudo o que passou nada guardei
Um ponto
O céu mais amplo
E no último momento
A lanterna que passa
O passo que se ouve
Detém-se alguém entre tudo o que vai
Deixa-se andar o mundo
E o que está lá dentro
As luzes dançam
E a sombra estende-se
Já não há espaço
Olhando para a frente
Numa gaiola onde salta um animal vivo
O peito e os braços repetiam o gesto
Uma mulher ria
Voltando a cabeça
E aquele que chegava tinha-nos confundido
Nenhum dos três se conhecia
E nós éramos já
Um mundo cheio de esperança

Pierre Reverdy


NOCTURNO DAS VACILAÇÕES FAMILIARES

Há noites que terminam numa estação! Há estações que terminam na noite! Quantos carris não atravessámos de noite! Tenho o corpo dorido dos ângulos salientes do vagão, à noite; dói-me ainda o deltóide. Quando esperávamos a irmã mais velha ou o papá, aquilo acabava sempre de maneira que seria melhor não contar: com o par de sapatos regado pela farinha do pão. Mas tenho, numa estação, um irmão antipático: chega sempre no último momento (tem lá as suas ideias); e então é preciso abrir uma mala que o criado não trouxe ainda; e, quando chega à bilheteira, não sabe ainda para que estação deve dirigir os vagões: hesita entre Nogent-sur-Marne e Ponts-de-Cé e outras localidades. A mala está aqui, aberta. Não comprou ainda o bilhete e as lanternas a gás debalde procuram transformar a noite em dia e o dia em noite. Há noites que terminam numa estação e estações que terminam na noite. Ah, maldita hesitação, foste tu que me perdeste e bem longe das vossas salas de espera, ó estações!

Max Jacob


in Franco Fortini "o movimento surrealista" presença, 1980
tradução António Ramos Rosa

Hannah Höch






OS BÊBADOS

O ruído da morte está neste bar desolado
Onde a tranquilidade se senta inclinada sobre a sua oração
E a musica abriga o sonho do amante
Mas quando moeda alguma compra este fundo desespero
Nesta casa tão solitária e de todos os destinos o mais solitário
Onde nenhuma música eléctrica destrói o bater
Dos corações duas vezes quebrados mas agora reunidos
Pelo cirurgião da paz no perónio da desgraça
Penetra mais profundamente do que os trompetes
O movimento da mente que aí faz a sua teia
Onde as desordens são simples como o túmulo
E a aranha da vida se senta, dormindo.


SENTAMO-NOS OCIOSAMENTE BÊBADOS E LOUCOS A EDITAR

Ideias de liberdade estão ligadas à bebida
O nosso ideal contém uma taberna
Onde um homem se pode sentar e conversar ou apenas pensar
Sem qualquer medo do dragão nocturno,
Ou então outra taberna onde ele surge.
Não há letreiros com não se fia ou não há crédito
E abstraindo a ilimitadas cervejas
Sentamo-nos ociosamente bêbados a editar
Panfletos de um país realmente melhor onde um homem
Pode beber um vinho mais fino, ah, um vinho por destilar,
Que intoxica subtilmente sem dor,
Tecendo a visão de uma estalagem inassimilável
Onde podemos beber eternamente,
Com a porta aberta, e o vento a soprar.


Malcolm Lowry, in "As cantinas e outros poemas do álcool e do mar" assírio & alvim, 2008
trad. José Agostinho Baptista

une femme est une femme


TU T'LAISSES ALLER

C'est drôl' c'que t'es drôle à r'garder
T'es là, t'attends, tu fais la tête
Et moi j'ai envie d'rigoler
C'est l'alcool qui monte en ma t^te
Tout l'alcool que j'ai pris ce soir
Afin d'y puiser le courage
De t'avouer que j'en ai marr'
De toi et de tes commérages
De ton corps qui me laisse sage
Et qui m'enlève tout espoir

J'en ai assez faut bien qu'j'te l'dise
Tu m'exaspèr's, tu m'tyrannises
Je subis ton sal'caractèr'
Sans oser dir' que t'exagèr's
Oui t'exagèr's, tu l'sais maint'nant
Parfois je voudrais t'étrangler
Dieu que t'as changé en cinq ans
Tu l'laisses aller, Tu l'laisses aller

Ah ! tu es belle à regarder
Tes bas tombant sur tes chaussures
Et ton vieux peignoir mal fermé
Et tes bigoudis quelle allure
Je me demande chaque jour
Comment as-tu fait pour me plaire
Comment ai-j' pu te faire la cour
Et t'aliéner ma vie entière
Comm' ça tu ressembles à ta mère
Qu'a rien pour inspirer l'amour

D'vant mes amis quell' catastroph'
Tu m'contredis, tu m'apostrophes
Avec ton venin et ta hargne
Tu ferais battre des montagnes
Ah ! j'ai décroché le gros lot
Le jour où je t'ai rencontrée
Si tu t'taisais, ce s'rait trop beau
Tu l'laisses aller, Tu l'laisses aller

Tu es un'brute et un tyran
Tu n'as pas de cœur et pas d'âme
Pourtant je pense bien souvent
Que malgré tout tu es ma femme
Si tu voulais faire un effort
Tout pourrait reprendre sa place
Pour maigrir fais un peu de sport
arranges-toi devant ta glace
Accroche un sourire à ta face
Maquille ton cœur et ton corps

Au lieu d'penser que j'te déteste
Et de me fuir comme la peste
Essaie de te montrer gentille
Redeviens la petite fille
Qui m'a donné tant de bonheur
Et parfois comm' par le passé
J'aim'rais que tout contre mon cœur
Tu l'laisses aller, Tu l'laisses aller

Charles Aznavour

ESTE TÓQUIO

Paz, guerra, religião,
Revolução, não servem de nada.
Estas sementes de horror no ágil
Polegar e cérebrozinho avarento
Que aprendeu a apanhar bananas
Com um pau.
Os milhões de nós inúteis
Uns para os outros ou para o mundo
Ou para nós próprios, os sofredores do real
Ou da mente — este mundo
Não passa de um sonho? ou a vida humana
Um pesadelo enxertado em solidez
De planeta — mental, mental,
Tremor de sol — louva
O mal, despreza a liberdade com De Sade
Ou o mais alto dantesco esplendor do Deus
Ou Luz infinita ou Vida ou Amor
Ou simples anjo de ouropel no
Céu de candy dos pobres —
Divindade mental ou beleza, todos,
Platão, Aquinas, Buda,
Dionísio da Cruz, todas
As dores ou prazeres infernos ou
O que em razão ou carne
Lógica, visão, música, ou
Concocção de todas as faculdades
& pensamento tende — tende — para isto:
Este vistoso apartamento dos ricos.
O conforto dos E.U. Por si mesmo.
As duas raparigas tímidas e trémulas
Que se acariciavam em espectáculo
Por mil yen à nossa frente homens
— Num quarto gelado — para comprar à família
Uma refeição. Este baldio de
Arame sujidade carris chapas de estanho blocos
Bebés, estudantes, velhos corruptos.
Vivemos
No encontro do sol e da terra.
Vivemos — vivemos — e todas as nossas vidas
Levaram a isto, a esta cidade,
Que em breve é o mundo, esta
Impotência onde o amor do homem
Ou o ódio do homem a ninguém
Importa, ama se queres ou
Contempla ou escreve ou ensina
Mas sabe no teu tutano humano tu
Que lês, que tudo o que pisas
É terramoto podridão e matéria mental
Trémula, liberdade é um vazio,
Paz guerra religião revolução
Não servem de nada.

Gary Snyder, in "Antologia da novíssima poesia norte americana" futura, 1973
trad. Manuel Seabra

Martin Schmidt [ Georg wächst ] 2007

BICICLETA

Lá vai a bicicleta do poeta em direcção
ao símbolo, por um dia de verão
exemplar. De pulmões às costas e bico
no ar, o poeta pernalta dá à pata
nos pedais. Uma grande memória, os sinais
dos dias sobrenaturais e a história
secreta da bicicleta. O símbolo é simples.
Os êmbolos do coração ao ritmo dos pedais —
lá vai o poeta em direcção aos seus
sinais. Dá à pata
como os outros animais.

O sol é branco, as flores legítimas, o amor
confuso. A vida é para sempre tenebrosa.
Entre as rimas e o suor, aparece e des
aparece uma rosa. No dia de verão,
violenta, a fantasia esquece. Entre
o nascimento e a morte, o movimento da rosa floresce
sabiamente. E a bicicleta ultrapassa
o milagre. O poeta aperta o volante e derrapa
no instante da graça.

De pulmões às costas, a vida é para sempre
tenebrosa. A pata do poeta
mal ousa agora pedalar. No meio do ar
distrai-se a flor perdida. A vida é curta.
Puta de vida subdesenvolvida.
O bico do poeta corre os pontos cardeais.
O sol é branco, o campo plano, a morte
certa. Não há sombra de sinais.
E o poeta dá à pata como os outros animais.

Se a noite cai agora sobre a rosa passada,
e o dia de verão se recolhe
ao seu nada, e a única direcção é a própria noite
achada? De pulmões às costas, a vida
é tenebrosa. Morte é transfiguração,
pela imagem de uma rosa. E o poeta pernalta
de rosa interior dá à pata nos pedais
da confusão do amor.
Pela noite secreta dos caminhos iguais,
o poeta dá à pata como os outros animais.

Se o sul é para trás e o norte é para o lado,
é para sempre a morte.
Agarrado ao volante e pulmões às costas
como um pneu furado,
o poeta pedala o coração transfigurado.
Na memória mais antiga a direcção da morte
é a mesma do amor. E o poeta,
afinal mais mortal do que os outros animais,
dá à pata nos pedais para um verão interior.


Herberto Helder, in "Poesia Toda" assírio & alvim, 1981

imag. Mario Sironi [ il ciclista ] 1919

ROMANCE

Ricardo era um rapaz com imaginação.
Com o dinheiro que o pai lhe deu, em vez de ir ao cinema, comprou uma cautela da lotaria.
Premiada!
Entrou numa sociedade por quotas para exploração de um bordel.
Comprou automóvel e meteu mulher, uma viuva deliciosa, surpreendida em flagrante.
Foi-lhe trespassada uma casa de penhores (por tuta e meia visto que o ex-proprietário tinha coração e ia dando com o negócio em patanas).
Pôde em breve ser director dum banco.
Arrematou um barco, dado que os armadores abriram falência.
O barco teve filhos e ele passou a ser avô de uma prole flutuante.
Um domingo em que não tinha mais que fazer foi ao Brasil e comprou uma roça, com coronel e tudo.
Quando voltou despediu a viuva deliciosa que entretanto o atraiçoara.
Uma tarde comprou a estátua em frente à sua casa e destruiu-a porque era nua e a imoralidade incomodava-o.
Vendeu o bordel (valorizadíssimo por causa dos melhoramentos) e a casa de penhores que lhe davam muito trabalho e comprou uma mina.
Os netos transportavam o carvão e o carvão enchia os netos.
Comprou quatro pistolas e dois homens para guarda-costas.
Quando comprou os homens e as pistolas lembrou-se de que podia ter uma fábrica de armamento e teve.
Uma manhã levantou-se com ideias de fazer mais qualquer coisa de histórico, talvez comprar o Canal de Suez ou mesmo toda a Ásia-Menor.
Mas, como já se previa, perdeu a imaginação.
Foi então que lhe ergueram a estátua vestida em frente da casa, onde estava a outra, nua.

Carlos Wallenstein, in “cinco histórias sem classificação especial” contraponto, 1953


A INVENÇÃO DOS DESCOBRIMENTOS
(fragmento histórico)


Toda a gente sabe que foi o infante D. Henrique que inventou os descobrimentos. Está na História e parece que foi a uma sexta-feira.

Muito bem.

Mas o que geralmente não é conhecido é a contribuição preponderante que Avelino Benevides SAGRES deu a tal acontecimento.

Passamos a explicar.

Avelino Benevides SAGRES, além de ser fabricante de cerveja, era também professor primário. Se prestarmos a devida atenção ao encadeamento lógico de tais profissões, fica clara a imagem da invenção dos descobrimentos.

Assim, foi que o pai de D. Henrique o levou à escola do senhor SAGRES, era ele ainda infante, para aprender a ler e, se possível, também a escrever.

O senhor SAGRES tinha a escola instalada com fino gosto e com excelente WC, onde costumava mijar. Coisas. Daí o local ter ficado conhecido, mais tarde, por Ponta de (ou do) SAGRES.

A escola de SAGRES era toda coberta, para proteger devidamente o fabrico da cerveja. No entanto, tinha uma desvantagem: não se via nada lá dentro e, por isso, o senhor SAGRES só fabricava cerveja preta.

Ora tendo que ensinar a ler, e talvez a escrever, ao infante D. Henrique, ficou altamente preocupado com a falta de luz. Que fazer? Foi quando o menino, com brilhante inteligência que já então lhe era peculiar, subiu ao telhado e, com o cabo de uma vassoura, partiu várias telhas para descobrir o telhado em alguns lugares. Estavam inventados os descobrimentos.

O infante D. Henrique aprendeu a ler e a escrever, como todos sabem pela História. Além disso, o senhor SAGRES poude passar a fabricar também cerveja branca, o que só trouxe benefícios ao país.

Foi a uma sexta-feira, como já dissemos.

É por isso que O COISO sai às sextas-feiras.


Mário-Henrique Leiria

uma boa notícia...


Thomas Mann, Der Zauberberg (a montanha mágica)

A IDENTIDADE DOS CONTRÁRIOS

Sonho que sou louco, e na minha loucura
Sou mais sensato que num sonho
Ou acordado, com medo que me tenham por louco
Meus companheiros de sonho.

Meu bom senso é diária loucura,
Para um mundo em vigília que atribui
Mais vigília e atenção mais funda
À razão do que a razão possui.

Sonho é minha vida diária, cada dia
Simula e dissimula até loucura
E razão serem ambas semelhantes,
E eu ajo enquanto sonho.

No sonho, o bom senso e a loucura,
Na loucura, o sonho e o dia a dia
Ligados, entre si todos semelhantes:
Sonhando ou acordado, sou louco e sou sensato.


Edouard Roditi, in "As Magias" hiena, 1987
trad. Herberto Helder

ilust. Gerard Dubois

Lori Field

do you like my hat?

saints, warriors, tigers, lovers, flowers

raggedy ann and andy

drowned

i really cannot sleep

birdbrain

www.lorifieldfineart.com

My Life In The Bush Of Ghosts


Brian Eno & David Byrne [ Mea Culpa ]

um dia encontrarás o amor onde ele não te encontra mais

subirás as escadas fantasmas da posse
as frases murmuradas contra o sol
e o doce ranger dos corpos vai cortar-te os dias

passarás pelo fogo das palavras mentidas
pelos versos densamente habitados pelos teus gestos
a ausência de ti mesmo calará os teus passos
como se entrasses no amor
por uma porta assassinada
verás os selos do coração
um a um desfeitos pelo clarão
verás o teu nome medido em sílabas de pânico
correndo do medo para a luz

pássaros de bruma trarão noites inteiras
o sabor cru dos peitos esmagados pela ausência
o som a fogo interior de tão imaginado
e andarás na memória como numa dor intrusa

com as duas mãos do desejo tocarás no fim
tão frio como se o impossível te tivesse os braços
presos aonde foste mais que um corpo
e o seu peso inteiro em sonho

ouvirás o som das multidões do sangue
os sítios perdidos de tão tidos
as noites que doeram por se abraçar

e quando ouvires as palavras suspensas
que guardam o coração do tempo
tão reais como se o sangue as dependesse
quando caminhares na dor como no chão
estarás de pé na morte onde te vejo

na cal viva das paredes dos ossos
o teu abraço chegará a mim
como um rio acordado e frio
e mãe a angústia vai separar-te de mim

nesse dia perdido em todos os minutos do mundo
em que todas as coisas sejam renovadamente mortas
encontrarei o amor onde ele não me encontre mais


Pedro Sena-Lino, in "zona de perda" objecto cardíaco, 2006

ilust. Andrea Heimer

[literatura juvenil] sugestão...


A Joaninha decide tomar a sua primeira grande decisão: NÃO FAZER 7 ANOS e continuar a ser pequenina. Decisão que irá trazer-lhe muitos dissabores...

Joaninha, a menina que não queria ser gente foi escrito pela jornalista do Expresso Ana Cristina Leonardo e ilustrado pelo fotógrafo Álvaro Rosendo, está editado na gradiva e chega este mês às Livrarias.

from sweden with love…



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[microgramas]



PRESENTEMENTE CUMPRIMENTO UMA RAPARIGA

Presentemente cumprimento uma rapariga, que vejo todos os dias, de forma muito singular, não inclinando a cabeça, mas sim levantando-a, tal como fazem os soldados na presença dos superiores. A rapariga já ficou bastante desconfiada. Que olhar sério lhe lanço sempre! Estremece, quando a cumprimento, foge como se tivesse receio. Só a ela dirijo este tipo de cumprimento orgulhoso, verdadeiramente grandioso. Que significa isto? Vou dizê-lo. Ela trabalha numa livraria, livraria editora, e através dela cumprimento a minha profissão. Cumprimento todas as obras intelectuais que se encontram na livraria dela e em todas as outras livrarias. Nunca ninguém cumprimentou de forma tão desafiadora, tão grandiosa. Ela mal se atreve a olhar-me, o meu cumprimento tornou-a muito tímida, mas isso não importa. Em todo o caso tive um efeito sobre ela, tal como os poetas têm um efeito sobre os leitores. Ela não me compreende bem, isso explica-se facilmente. Como é que ela pode pensar que com o meu cumprimento especial pretendo respeitar-me a mim próprio. Há cumprimentos muito irreflectidos, mas também os há muito conscientes! Será que atormento a rapariga? E se atormentar! Assim fica a saber uma vez na vida como é que se comportam os escritores que não se esquecem do seu valor.

Robert Walser


[in LER, livros & leitores nº62, primavera de 2004]
trad. Maria Ester Ramos

CADAVRE EXQUIS III


de novo o desafio ...

— abrir o último livro que leu, ou que está a ler na página 73

— copiar a última frase completa

— "postar" aqui

... depois é só esperar o resultado


cadavre exquis I & II aqui

Britta Phillips & Dean Wareham