[microgramas]



PRESENTEMENTE CUMPRIMENTO UMA RAPARIGA

Presentemente cumprimento uma rapariga, que vejo todos os dias, de forma muito singular, não inclinando a cabeça, mas sim levantando-a, tal como fazem os soldados na presença dos superiores. A rapariga já ficou bastante desconfiada. Que olhar sério lhe lanço sempre! Estremece, quando a cumprimento, foge como se tivesse receio. Só a ela dirijo este tipo de cumprimento orgulhoso, verdadeiramente grandioso. Que significa isto? Vou dizê-lo. Ela trabalha numa livraria, livraria editora, e através dela cumprimento a minha profissão. Cumprimento todas as obras intelectuais que se encontram na livraria dela e em todas as outras livrarias. Nunca ninguém cumprimentou de forma tão desafiadora, tão grandiosa. Ela mal se atreve a olhar-me, o meu cumprimento tornou-a muito tímida, mas isso não importa. Em todo o caso tive um efeito sobre ela, tal como os poetas têm um efeito sobre os leitores. Ela não me compreende bem, isso explica-se facilmente. Como é que ela pode pensar que com o meu cumprimento especial pretendo respeitar-me a mim próprio. Há cumprimentos muito irreflectidos, mas também os há muito conscientes! Será que atormento a rapariga? E se atormentar! Assim fica a saber uma vez na vida como é que se comportam os escritores que não se esquecem do seu valor.

Robert Walser


[in LER, livros & leitores nº62, primavera de 2004]
trad. Maria Ester Ramos

5 comentários:

Catarina disse...

Agora ponho-me à espreita, atenta a todos os cumprimentos. Nunca se sabe se andam grandes escritores por aí a atormentar raparigas tímidas por detrás de balcões de livrarias.

miguel. disse...

e faz muito bem, embora na maioria dos casos os autores que vão aparecendo fazem-se de simples clientes e perguntam pela sua própria obra …

:)

fallorca disse...

Dois formidáveis comentários, embora - quando entro num alfarrabista para catar livros meus que fui dando - seja incapaz de assumir o que procuro como uma profissão, ou que me apanhem como um profissional.

Catarina disse...

O problema é que, entrando no anonimato em livrarias, corre-se o risco de não se ter o melhor dos tratamentos (e ainda não encontrei a Llansol desaparecida, pffff). Uma chatice, não consigo impressionar escritores! :)

fallorca disse...

Fiufiufiu...