«Nikolai Gogol, o mais estranho poeta prosador que jamais produziu a Rússia, morreu numa quinta-feira de manhã, um pouco antes das oito horas, em 4 de Março de 1852, em Moscovo. Tinha quase quarenta e três anos, uma idade razoavelmente madura, considerando o tempo de vida ridiculamente curto que em geral coube a outros grandes escritores russos desta geração miraculosa. O esgotamento físico total resultante duma greve da fome voluntária (com a qual a sua melancolia mórbida tentara opor-se aos desígnios do Diabo) culminou numa anemia aguda do cérebro (associada, provavelmente, a uma gastroenterite devida à inanição) e o tratamento de purgas e sangrias vigorosas a que foi submetido apressou a morte dum organismo já gravemente diminuído pelas sequelas da malária e da má alimentação. Os dois médicos, duma energia diabólica, e que insistiam em tratá-lo como se fosse um simples lunático, para grande alarme dos seus mais inteligentes mas menos activos confrades, queriam debelar a insanidade do paciente antes de tentar remendar o que ainda lhe restasse de saúde corporal. Uns quinze anos antes, Puchkin, com uma bala nas entranhas, recebera cuidados médicos que seriam bons para uma criança com prisão de ventre. Os praticantes de medicina geral alemães e franceses de segunda categoria ainda dominavam a cena, pois a esplêndida escola dos grandes médicos russos ainda estava a formar-se.»


Vladimir Nabokov, in "Nikolai Gogol" assírio & alvim, 2007

1 comentário:

menina limão disse...

!!! não lhe faltou nenhuma desgraça...