Edward Hopper [ New York Cinema ] 1939


CINEMA

No meu olhar,
de gosto,
ritmo,
aroma,
e seda,
com ele,
por mágica alameda
eu sonho ir ao espaço das visões,
que rolam como mundos,
numa sagrada musica visível,
onde eu me dispersaria...

Ó cinema, ó maravilha
em que eu me possuiria,
mas que apenas possuo
da sombra,
na minha solidão da multidão quieta,
entre as carícias do silêncio ao pensamento,
sem esforço levado
a sofrer, a sentir
o que de eterno há num momento!

Em ti, a vida
mais viva porquanto mais alada
em fantasias livre,
sem noites e sem dias,
brutal ou delicada
é síntese movendo-se
em transcendência de tristezas e alegrias,
numa calma final de nuvens macias como penas,
que tempestades não consomem,
de encontro ao metálico recorte
das projecções estéticas do homem!

Cinema!
mais que tudo, és
o que lá fora buscam almas inquietas!
Mais que tudo, nos dás
o sonho que das almas sobe
nas imagens dos poetas!


Edmundo de Bettencourt, in "Poemas" assírio & alvim, 1999

1 comentário:

menina limão disse...

hopper é fantástico. e por falar em cinema, vou ver a programação. estou a precisar.

beijo