& estorias...


2ª edição [1987]

Excepção única à regra da & etc não fazer reedições.

Razão: dado o facto de o folheto original, colecção Contramargem, ter sido apreendido pelas polícias Judiciária e de Segurança Pública à ordem do Ministério Público, seguido de processo instaurado ao editor por crime de abuso de liberdade de imprensa (isto em 1982, seis anos volvidos sobre a liberdade instaurada a 25 de Abril), decide o editor, em pleno decurso do processo, voltar ao objecto do crime - desta vez com caricatura de Francisco Valença, versando o polémico Bispo de Beja, na capinha da reedição. 
Processo arquivado sem água-vai ao editor, regados a gasolina e sujeitos a Auto-da-Fé no pátio do Tribunal da Boa-Hora os exemplares “apreendidos”, não sofreu a reedição qualquer medida persecutória. Tudo bons rapazes na justiça à portuguesa!
Texto por: Victor Silva Tavares


Uma vez que sou portador de um dos exemplares que se safou às ditas autoridades, e creio que aqui o texto não irá arder nem tão pouco chegar às mãos de tais Ministérios, partilho convosco algumas passagens desta que é talvez uma das minhas melhores aquisições literárias, dado o seu valor histórico e creio que monetário, uma vez que esta edição custou na altura a mera quantia de 50 escudos... (obrigado pai!!).


1ª edição [1980]


Lisboa, 23 de Abril 1910

ao Sr. Ministro

A respeito da imunda e tórpida questão
do prelado bejense, eis a minha opinião
que, por ser racional, é digna de registo:

Alvitro que se faça exame patológico
na pessoa do chefe episcopal de Beja,
acusado de ser passivo anagógico
mais sórdido e mais vil de toda a lusa Igreja.
Melhor do que ninguém um médico é que deve
constatar se é verdade o que diz o Ançã:
desnudará o bispo
e analisá-lo-á como a ciência prescreve
assim como se faz a qualquer barregã.
Se ele o ânus tiver infundibuliforme,
se tiver abertura involuntária, enorme,
do orificium ani e incontinência alvina
tal como a que se viu na orgia cesarina
aos cinédios de Roma; e se mostrar a ausência
de pregas radiais e a degenerescência
do esfíncter, por atónico e relasso,
é, certo, um pederasta, um nojento devasso
que deve entrar na mesma história depravada
do Lacerda de Melo e o Marquês de Valada;
e, então, deve ir vaguear nas capitais, de noite,
e olvidando a mitra, o báculo, a exegese,
que busque o boulevard escuso onde se acoite;
frequente os urinóis e deixe a diocese.
É o caminho. Só um mas o contraria:
poder ir surpreendê-lo a policia praguenta
em flagrante delito homossexual;
e isso, nem o sonhar. Que escândalo seria,
que náuseas, santo Deus!, que conjuntura odienta
o bispo a figurar num processo imoral
punido pelo artigo
390
do Código Penal!?...

Se, pois, lhe não sorrir a vida no mictório,
nos bancos dos jardins, na crápula nocturna,
que vá para a Alemanha, ao purificatório
correctivo da ciência — o encerro em sanatório
onde o tornem normal, numa cura diuturna—.

(...)

Rogo-lhe aceite o alvitre, a bem da sanidade.


Sem mais, sou de V. etc.,

HOMEM-PESSOA


in "O Bispo de Beja" & etc (1980)

3 comentários:

cosal disse...

Caro Miguel,
Na vida...os prazeres a fruir são imensos....torna-se até obsceno inumerár alguns.
Na minha vida...partilho este desabafo consigo...o único prazer maior que tive e tenho...foi e
é esse de ter filhos lindos...
Só depois vão surgindo...os livros...os charutos...o bom vinho...e já agora...o eterno feminino...sempre...entre outras novidades...como por exemplo o rapé,o canapé e o pé de cabra...


Cumprimentos

magarça disse...

Vou procurá-lo.

Anónimo disse...

Olá...

Também sou dono de um destes exemplares mas tenho grande curiosidade de saber quem é o autor por trás deste nome... Alguém sabe?? Obrigada.