CONVERSA À MESA

Morremos de vez, é certo.
Por isso, a vida é uma coisa,
de que acontece, ou não, gostar.

Mas, sendo assim, porque me acontece
gostar do mato vermelho,
da erva cinzenta e do céu verde cinza ?

E mais ? mas, vermelho,
cinzento, verde, porquê, especialmente ?
Não foi isso que eu disse :

Não esses especialmente. Apenas esses.
Gostamos do que acontece gostarmos.
Gostamos da maneira como o vermelho cresce.

Não tem importância.
Acontecer gostar é uma das maneiras
que as coisas têm de acontecer.


Wallace Stevens

imagem de Stefano Ricci


Kim Ki-Duk , realizador Sul Coreano, teve a sua primeira apresentação em Portugal em 2001, com " O bordel do lago" (2000), filme seleccionado para o Fantasporto, onde a temática sexual é a base do filme, mais tarde deslumbrou-nos com o poderoso "Primavera, Verão, Outono, Inverno, Primavera" (2003), ninguém fica imune ao poder das estações nem ao seu ciclo anual de nascimento, crescimento, e envelhecimento, nem mesmo dois monges que partilham um mosteiro flutuante num lago rodeado de montanhas. Em 2005 estreia nas nossas salas "Ferro 3" (2004), o silêncio de um solitário e a sua estranha forma de vida, uma mulher vitimada pelo marido. A solidão de um e a tristeza do outro será substituída pela alegria de uma forma muito secreta. O seu 12º filme,"o arco" 2005, conta-nos a história de um homem de 60 anos e de uma jovem de 16 que vivem a bordo de um barco de pesca em pleno oceano, longe do mundo. A jovem está-lhe prometida assim que completar os seus 17 anos, mas tudo irá mudar com o surgir de uma nova personagem, um jovem estudante. A sua estreia para França está prevista já para o mês de Dezembro, para Portugal ainda não há datas.
Vermeer [a rapariga do brinco pérola] 1665/66

Svjetlan Junakovic [a ovelha do brinco pérola] 19..



Tríptico

«Transforma-se o amador na coisa amada», com seu
feroz sorriso, os dentes,
as mãos que relampejam no escuro. Traz ruído
e silêncio. Traz o barulho das ondas frias
e das ardentes pedras que tem dentro de si.
E cobre esse ruído rudimentar com o assombrado
silêncio da sua última vida.
O amador transforma-se de instante para instante,
e sente-se o espírito imortal do amor
criando a carne em extremas atmosferas, acima
de todas as coisas mortas.


Transforma-se o amador. Corre pelas formas dentro.
E a coisa amada é uma baía estanque.
É o espaço de um castiçal,
a coluna vertebral e o espírito
das mulheres sentadas.
Transforma-se em noite extintora.
Porque o amador é tudo, e a coisa amada
é uma cortina
onde o vento do amador bate no alto da janela
aberta. O amador entra
por todas as janelas abertas. Ele bate, bate, bate.
O amador é um martelo que esmaga.
Que transforma a coisa amada.


Ele entra pelos ouvidos, e depois a mulher
que escuta
fica com aquele grito para sempre na cabeça
a arder como o primeiro dia do verão. Ela ouve
e vai-se transformando, enquanto dorme, naquele grito
do amador.
Depois acorda, e vai, e dá-se ao amador,
dá-lhe o grito dele.
E o amador e a coisa amada são um único grito
anterior de amor.


E gritam e batem. Ele bate-lhe com o seu espírito
de amador. E ela é batida, e bate-lhe
com o seu espírito de amada.
Então o mundo transforma-se neste ruído áspero
do amor. Enquanto em cima
o silêncio do amador e da amada alimentam
o imprevisto silêncio do mundo e do amor.


Herberto Helder
Alberto Giacometti [ Jean Genet ] 1954/55


O vento que rola um coração no pátio dos recreios, um anjo que soluça preso numa árvore, o pilar de céu que o mármore retorce, abrem portas de emergência à minha noite.

Um nobre pássaro que agoniza e o travo da cinza, a memória de um olho adormecido na parede e este doloroso punho que ameaça o firmamento, desce-me o teu rosto à palma da minha mão.

(...)

Diz-me que desgosto doido te faz explodir nos olhos esse desespero tão forte que uma dor bravia e desvairada aparece, apesar do gelo que choras, a enfeitar-te a boca redonda com um sorriso de luto ?

(...).


Jean Genet in "O condenado à morte" hiena editora (1986)

MÁRIO CESARINY DE VASCONCELOS


Mário Cesariny de Vasconcelos (Lisboa, 1923) pintor e poeta, um dos mais importantes defensores do movimento surrealista em Portugal, encontrava-se doente há já vários anos, com uma doença do foro oncológico, hoje, a morte chegou-lhe de madrugada levando-o da sua casa, em Lisboa, aos 83 anos. Ficou-nos o vazio e a tristeza da sua partida, mas para traz ficou a herança, a imortalidade das suas palavras.

Adeus Mário.


YOU ARE WELCOME TO ELSINORE

Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício

Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição

Entre nós e as palavras, surdamente,
as mão e as paredes de Elsinore

E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmos só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar


Mário Cesariny in "Pena Capital"

Fotografia de Susana Paiva
Fernando Lemos [ a realidade pelo telhado ] 1949



Antes aquele relógio
luminoso
antes aquela nudez infinita
mármore do nosso medo

antes aquela música enraivecida
e sem dono

antes aquela dor de ambos
a soletrar os gestos bastantes
antes o abismo quebrando
a janela

antes

que esta manhã derramada
castigo implacável

antes

que surpreender os mortos e nada
ter com que os assustar


Fernando Lemos

Fenda, 90º e os Surrealistas...

Joan Miró [ portrait ] 1950


Antonin Artaud
— O teatro e o seu duplo (reedição), fenda

Luís Buñuel
— O último suspiro, fenda

Joan Miró
— Esta é a cor dos meus sonhos, 90º


Há vidas que duram um instante :
o nascimento.

Há vidas que duram dois instantes :
o nascimento e a morte.

Há vidas que duram três instantes :
o nascimento, a morte e uma flor.


Roberto Juaroz in "Poesia Vertical"

definição.










eterónimo



do Gr. héteros, outros + ónyma, ónoma, nome

adj.,
diz-se das palavras diferentes que exprimem a mesma coisa;

diz-se do autor que assina uma obra literária com um nome que não o seu;

diz-se dessa obra;
s. m.,
nome imaginário com que um autor assina a sua obra, atribuindo a esse autor imaginário características individuais diferentes das do verdadeiro autor, ou seja, criando um outro eu.

Enrique Vila-Matas, escritor Espanhol nascido em Barcelona em 1948



Antonio Tabucchi, escritor Italiano nascido em Pisa em 1943


[ "Todos conhecemos os bartlebys, esses seres nos quais habita uma profunda negação do mundo" — afirma Enrique Vila-Matas, heterónimo de António Tabucchi e grande perseguidor do síndroma de Bartleby na literatura. ]

Golgona Anghel

in "eis-me acordado muito tempo depois de mim uma biografia de Al Berto" ed Quasi



A terra, embora não nos seja mãe,
é para sempre inolvidada,
no mar a água é doce, ternamente
gelada, a água não é salgada.

No fundo, a areia é mais branca que giz,
o ar embriaga mais que vinho quente,
o corpo cor-de-rosa dos pinheiros
é único na hora do poente.

O poente, esse, é tal que não vejo
nos salgados turbilhões etéreos
se é fim do dia ou do mundo, outra vez
dentro de mim mistério dos mistérios.


Anna Akhmátova


imagem de Greg Spalenka
[ o acossado ] 1959

Realização: Jean-Luc Godard
Argumento: François Truffaut

Edward Hopper [ automat ] 1927



A VOZ

Amar era o mais alto fim
e o canto o meu maior intento.
Porém o amor
para sempre me negaste
e a minha bela voz
para sempre emudeceste.
Quem me dará
o que tu me retiras ?
Quem me concede
o que tu me destróis ?
Que estranha permuta
em mim se efectua !
Troca-se o Tudo
pelo nada maior.
(...).


Ana Hatherly in "a Dama e o Cavaleiro"

ASCENÇÃO DOS HIPOPÓTAMOS


Herberto Helder [ poema experimental ] 1966


VEM UMA MUDANÇA NO TEMPO DO CORAÇÃO

Vem uma mudança no tempo do coração
secar a sua seiva, e um brilho que nos fere
vibra no interior glacial do túmulo.
Transforma-se na cidade das veias
a noite em dia, e movem-se ali os vermes
sob o reflexo solar do próprio sangue.

Vem uma mudança ocultar nos olhos
os ossos da cegueira, e então o ventre
mergulha na morte como o aparecimento da vida.

A escuridão no tempo dos olhos
encontra-se com a luz; a profundidade do mar
rompe sobre uma terra sem arestas.
A semente, que gera dos flancos um bosque
vem dividir o seu fruto, e cada metade
derrama-se lentamente no vento adormecido.

O tempo ao percorrer a nossa carne e os ossos
fica húmido e seco; o que desperta e o que morre
junto dos olhos são como dois espíritos.

Vem uma mudança no tempo do mundo
transformar um espírito no outro, e cada criança
na sua mãe amolda-se sob uma dupla sombra.
Assim é arrastada a lua em direcção ao sol,
da pele são removidas as andrajosas vestes,
e o coração abandona-se à morte.


Dylan Thomas

imagem de Greg Spalenka

Santa-Rita Pintor [ cabeça ] 1912


"Outro português atingido pelo Não foi Guilherme Augusto Cau da Costa de Santa-Rita. O "poeta cujo senso da cor é um dos mais intensos entre os homens de letras", no dizer de Fernando Pessoa, incorporou o titulo "Pintor" ao seu nome próprio e ficou por esta alcunha conhecido. Ora Santa-Rita Pintor, "inimigo íntimo" de Sá-Carneiro e "Adivinhão Latino" como também lhe chamavam, é o estranho pintor das colagens cubitas que povoaram a revista Portugal Futurista e o numero 2 da revista Orpheu em reproduções ancoradas a títulos complexíssimos. Mas o que faz dele um elo da excentricidade é o facto de ser o célebre autor de uma obra
quimérica, invisível, reduzida a cinzas e isso no caso de admitirmos que tenha existido alguma vez, e que, como reza a lenda, tenha sido queimada a seu pedido expresso pelos parentes, após a sua morte."

Golgona Anghel, Lisboa 2006

"Deixou Santa-Rita, como pintor, alguma obra de peso, um considerável quadro, [...] a famosa máquina pictural, em suma, de horroroso estilo pompier, que tanto repugnava à sua apurada estesia e para cuja execução o Estado o pensionava ? Não, amigos."

Carlos Parreira, Lisboa 1919


in "eis-me acordado muito tempo depois de mim, uma biografia de Al Berto"


Pois a resposta a ambos é que sim, em 1919 poderia até ser um mito, em 2006 é um facto, o que mostra o fraco trabalho da autora ao pesquisar para aquilo que é suposto ser uma biografia de um dos Grandes nomes da poesia em Portugal, esta e muitas outras falhas, deixaram-me um pouco desiludido com o tão aguardado e mencionado trabalho da autora e que por ironia do destino até tem um prefácio da escritora Agustina Bessa-Luís. Enfim, contudo não quero desaconselhar a compra do livro, apenas mencionar que soube a pouco...

& estorias...


2ª edição [1987]

Excepção única à regra da & etc não fazer reedições.

Razão: dado o facto de o folheto original, colecção Contramargem, ter sido apreendido pelas polícias Judiciária e de Segurança Pública à ordem do Ministério Público, seguido de processo instaurado ao editor por crime de abuso de liberdade de imprensa (isto em 1982, seis anos volvidos sobre a liberdade instaurada a 25 de Abril), decide o editor, em pleno decurso do processo, voltar ao objecto do crime - desta vez com caricatura de Francisco Valença, versando o polémico Bispo de Beja, na capinha da reedição. 
Processo arquivado sem água-vai ao editor, regados a gasolina e sujeitos a Auto-da-Fé no pátio do Tribunal da Boa-Hora os exemplares “apreendidos”, não sofreu a reedição qualquer medida persecutória. Tudo bons rapazes na justiça à portuguesa!
Texto por: Victor Silva Tavares


Uma vez que sou portador de um dos exemplares que se safou às ditas autoridades, e creio que aqui o texto não irá arder nem tão pouco chegar às mãos de tais Ministérios, partilho convosco algumas passagens desta que é talvez uma das minhas melhores aquisições literárias, dado o seu valor histórico e creio que monetário, uma vez que esta edição custou na altura a mera quantia de 50 escudos... (obrigado pai!!).


1ª edição [1980]


Lisboa, 23 de Abril 1910

ao Sr. Ministro

A respeito da imunda e tórpida questão
do prelado bejense, eis a minha opinião
que, por ser racional, é digna de registo:

Alvitro que se faça exame patológico
na pessoa do chefe episcopal de Beja,
acusado de ser passivo anagógico
mais sórdido e mais vil de toda a lusa Igreja.
Melhor do que ninguém um médico é que deve
constatar se é verdade o que diz o Ançã:
desnudará o bispo
e analisá-lo-á como a ciência prescreve
assim como se faz a qualquer barregã.
Se ele o ânus tiver infundibuliforme,
se tiver abertura involuntária, enorme,
do orificium ani e incontinência alvina
tal como a que se viu na orgia cesarina
aos cinédios de Roma; e se mostrar a ausência
de pregas radiais e a degenerescência
do esfíncter, por atónico e relasso,
é, certo, um pederasta, um nojento devasso
que deve entrar na mesma história depravada
do Lacerda de Melo e o Marquês de Valada;
e, então, deve ir vaguear nas capitais, de noite,
e olvidando a mitra, o báculo, a exegese,
que busque o boulevard escuso onde se acoite;
frequente os urinóis e deixe a diocese.
É o caminho. Só um mas o contraria:
poder ir surpreendê-lo a policia praguenta
em flagrante delito homossexual;
e isso, nem o sonhar. Que escândalo seria,
que náuseas, santo Deus!, que conjuntura odienta
o bispo a figurar num processo imoral
punido pelo artigo
390
do Código Penal!?...

Se, pois, lhe não sorrir a vida no mictório,
nos bancos dos jardins, na crápula nocturna,
que vá para a Alemanha, ao purificatório
correctivo da ciência — o encerro em sanatório
onde o tornem normal, numa cura diuturna—.

(...)

Rogo-lhe aceite o alvitre, a bem da sanidade.


Sem mais, sou de V. etc.,

HOMEM-PESSOA


in "O Bispo de Beja" & etc (1980)

"No sábado à noite convidaram-me para uma festa na casa de um colega de trabalho. Éramos cerca de trinta técnicos entre os vinte e os quarenta anos. De um momento para o outro uma idiota começou a despir-se. Desfez-se da t-shirt, tirou o soutien, em seguida tirou a saia, ao mesmo tempo que fazia poses incríveis. Pavoneou-se um pouco em cuecas e em seguida começou a vestir-se tendo percebido que não havia mais nada para mostrar. No entanto é o tipo de rapariga que não se deita com qualquer um. O que sublinha o seu comportamento absurdo."
E assim começa o primeiro parágrafo daquele que é o primeiro romance de Michel Houellebecq, Extensão do domínio da luta, escrito em 1994 e agora editado para o nosso português pelas edições Quasi. Baseado no caos da vida contemporânea, o livro aborda o tema da subjectividade do indevido numa sociedade dominada pelo poder monetário, onde a banalidade dos materiais supera e preenche a falta das relações humanas, e onde o capitalismo e a pobreza existencial são o pano de fundo neste romance-ensaio que Houellebecq faz questão de baptizar como um romance da aprendizagem do desgosto.
Escrito com uma faca nos dentes, aliás, como o autor bem gosta de o fazer, não se poupando à provocação e à ironia, por vezes sendo mesmo excessivo, um livro obrigatório.

p.s. não recomendado a senhoras(es) mais sensíveis :)

Michel Houellebecq "extensão do domínio da luta" ed. quasi
tradução de Paula Lourenço


se um dia a juventude voltasse
na pele das serpentes atravessaria toda a memória
com a língua em teus cabelos dormiria no sossego
da noite transformada em pássaro de lume cortante
como a navalha de vidro que nos sinaliza a vida

sulcaria com as unhas o medo de te perder... eu
veleiro sem madrugadas nem promessas nem riqueza
apenas um vazio sem dimensão nas algibeiras
porque só aquele que nada possui e tudo partilhou
pode devassar a noite doutros corpos inocentes
sem se ferir no esplendor breve do amor

depois... mudaria de nome de casa de cidade de rio
de noite visitaria amigos que pouco dormem e têm gatos
mas aconteça o que tem de acontecer
não estou triste não tenho projectos nem ambições
guardo a fera que segrega a insónia e solta os ventos
espalho a saliva das visões pela demorada noite
onde deambula a melancolia lunar do corpo

mas se a juventude viesse novamente do fundo de mim
com suas raízes de escamas em forma de coração
e me chegasse à boca a sombra do rosto esquecido
pegaria sem hesitações no leme do frágil barco... eu
humilde e cansado piloto
que só de te sonhar morro de aflição.


"Acreditava que a sua obra se podia reduzir a um único texto. Aquele."

in "Eis-me acordado muito tempo depois de mim, uma biografia de Al Berto" edições quasi

Fotografia de Paulo Nozolino: Lisboa, Escadinhas do Duque, 1984 (colecção da Frenesi)

"O poeta não tem outro remédio senão ser revolucionário ou não ser poeta, pois deve lançar-se a todo o movimento no desconhecido; o passo por ele dado ontem não o dispensa do passo a dar amanhã porque é preciso recomeçar tudo de novo todos os dias, e aquilo que ele adquiriu durante o sono desfez-se já em poeira ao acordar. Para ele não existe qualquer lugar como chefe de família, apenas o risco e a aventura indefinidamente renovados. Somente a este preço pode dizer-se poeta e pretender um lugar legítimo à ponta mais extrema do movimento cultural, aí onde não há louvores nem medalhas a receber, mas sim bater-se com todas as suas forças para derrubar as barreiras sempre renascentes do hábito e da rotina.
Hoje ele só pode ser maldito. Essa maldição que a sociedade actual lhe lança assinala a sua posição revolucionária; mas sairá do seu esconderijo forçado para se pôr à cabeça da sociedade logo que ela, sacudida de alto a baixo, haja reconhecido a origem humana comum à poesia e à ciência, e o poeta, com a colaboração activa e passiva de todos, criará os exaltantes e maravilhosos mitos que lançarão o mundo inteiro no assalto ao desconhecido."

Benjamim Péret in "a ovelha galante" & etc (1993)

Francis Bacon [ sand dune ] 1983


"onde está a vida do homem que escreve, a vida da laranja, a vida do poema - a vida, sem mais nada - estará aqui ?
fora das muralhas da cidade ?
no interior do meu corpo ?
ou muito longe de mim - onde não possuo outra razão...
e me suicido na tentativa de me transformar em poema e poder, enfim, circular livremente."

Al berto