MÁRIO CESARINY DE VASCONCELOS


Mário Cesariny de Vasconcelos (Lisboa, 1923) pintor e poeta, um dos mais importantes defensores do movimento surrealista em Portugal, encontrava-se doente há já vários anos, com uma doença do foro oncológico, hoje, a morte chegou-lhe de madrugada levando-o da sua casa, em Lisboa, aos 83 anos. Ficou-nos o vazio e a tristeza da sua partida, mas para traz ficou a herança, a imortalidade das suas palavras.

Adeus Mário.


YOU ARE WELCOME TO ELSINORE

Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício

Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição

Entre nós e as palavras, surdamente,
as mão e as paredes de Elsinore

E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmos só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar


Mário Cesariny in "Pena Capital"

Fotografia de Susana Paiva

2 comentários:

cosal disse...

É verdade meu caro Miguel,o Mário morreu,coisa esperada,mas por muitos pouco admitida,pelo menos para já...se isso é coisa que se possa admitir.
Não vale de muito tecer loas ao Mário que nunca foi do género de as aceitar...palavras,vão ser ditas em nome da pátria e da "cultura" da pátria...e da pátria que os viu nascer.

deixo como singela homenagem a este GRANDE,se me permitir,uma passagem de uma entrevista que deu a Miguel Gonçalves Mendes,vertida em livro "Autografia" pela Assírio...

...Olha,tenho saudades de voar!Ah isso tenho,porque eu,não sei desde quando,mas quase de miúdo,até aí aos cinquenta anos,eu todas as noites já adormecia a sorrir de gozo,porque eu sonhava SEMPRE que voava,e era uma coisa tão boa,tão boa,tão boa,uuuiiii!E depois não tinha...que dizer,não havia...paisagem,era o espaço puro,não se via nada.Maravilha...

Anónimo disse...

Adeus Mário, Adeus Cézar
Adeus poeta-gato-branco à janela de prédios bastante altos...
Tiveste uma vida gorda: plena de pecados e outras coisas afins;
escreveste como ninguém; pintaste como ninguém; fumaste até ao fim os três maços diários; partiste durante o sono, provavelmente durante um sonho; que grande vida; que grande morte.