imagem de Margo Selski


MÃE

Mãe! Vem ouvir a minha cabeça a contar histórias ricas que ainda não viajei!
Traz tinta encarnada para escrever estas coisas!
Tinta cor de sangue verdadeiro, encarnado!
Eu ainda não fiz viagens
E a minha cabeça não se lembra senão de viagens!
Eu vou viajar.
Tenho sede! Eu prometo saber viajar.
Quando voltar é para subir os degraus da tua casa, um por um.
Eu vou aprender de cor os degraus da nossa casa.
Depois venho sentar-me a teu lado.
Tu a coseres e eu a contar-te as minhas viagens, aquelas que eu viajei, tão parecidas com as que não viajei, escritas ambas com as mesmas palavras.
Mãe! Ata as tuas mãos às minhas e dá um nó-cego muito apertado!
Eu quero ser qualquer coisa da nossa casa.
Eu também quero ter um feitio, um feitio que sirva exatamente para a nossa casa, como a mesa. Como a mesa.
Mãe! Passa a tua mão pela minha cabeça!
Quando passas a tua mão na minha cabeça é tudo tão verdade!

Almada Negreiros(1893-1970)
fotograma de "un chien andalou" Luis Buñuel 1929

" felizmente, algures entre o acaso e o mistério repousa a imaginação, a única coisa que protege a nossa liberdade, apesar do facto de as pessoas continuarem a tentar reduzi-la ou eliminá-la no seu todo "

Luis Buñuel

Não deixeis um grande amor

Aos poucos apercebi-me do modo
desolado incerto quase eventual
com que morava em minha casa

assim ele habitou cidades
desprovidas
ou os portos levantinos a que
se ligava apenas por saber
que nada ali o esperava

assim se reteve nos campos
dos ciganos sem nunca conseguir
ser um deles:
nas suas rixas insanas
nas danças de navalhas
na arte de domar a dor
chegou a ser o melhor
mas era ainda a criança perdida
que protesta inocência
dentro do escuro

não será por muito tempo
assim eu pensava
e pelas falésias já a solidão
dele vinha

não será por muito tempo
assim eu pensava
mas ele sorria e uma a uma
as evidências negava

por isso vos digo
não deixeis o vosso grande amor
refém dos mal-entendidos
do mundo.

José Tolentino Mendonça in. "longe não sabia"
imagem de lorenzo mattotti

A noite abre meus olhos

José Tolentino Mendonça nasceu no Machico, ilha da Madeira, em 1965, formou-se em Teologia na Universidade Católica de Lisboa com uma dissertação sobre a poesia de Ruy Belo. Terminou o seu mestrado em Estudos Bíblicos no Pontifício Instituto Bíblico, em Roma. Foi ordenado Padre em 1990, tendo sido capelão e professor na Universidade Católica de Lisboa. Além de poeta, José Tolentino Mendonça é também ensaísta e tradutor. Estreou-se na poesia com o livro Os Dias Contados, publicado em 1990, ao qual se seguiram outros, Longe Não Sabia (Presença, 1997), Baldios (assírio & alvim, 1999), De Igual para Igual (assírio & alvim, 2001), e o mais recente A Estrada Branca (assírio & alvim, 2005). Para além de livros de poemas e dos ensaios As Estratégias do Desejo: Um Discurso Bíblico sobre a Sexualidade (cotovia, 1994) e A construção de Jesus (assírio & alvim, 2004) é igualmente autor de uma tradução do Cântico dos Cânticos (cotovia,1997) e de peças teatrais, das quais é exemplo Perdoar Helena (assírio & alvim, 2005), levada à cena pelos Artistas Unidos. Em 2006 a editora assírio & alvim edita a sua poesia reunida, "A noite abre meus olhos", uma obra obrigatória para aqueles que não conhecem ou pouco conhecem da obra do autor.

André Breton


Há uma tendência de cozinheiros entre aqueles que pensam.
Nenhuma mistura é vedada. Se colocarmos sal e açúcar sobre o mesmo pão, o pão poderá hesitar de gosto, e poderá hesitar de conceito sobre si mesmo, e poderá hesitar ainda em frente ao espelho, mas hesitar não é morrer, e ser duplo não é ser zero, e ser estranho não é só o cadáver que o é. Nenhuma grandeza se inicia com a soma de duas coisas iguais. Eis.

Gonçalo M. Tavares in. " biblioteca " campo das letras
fotografia de Ralph Gibson

A Bicicleta

O meu marido
saiu de casa no dia
25 de Janeiro. Levava uma bicicleta
a pedais, caixa de ferramenta de pedreiro,
vestia calças azuis de zuarte, camisa verde,
blusão cinzento, tipo militar, e calçava
botas de borracha e tinha chapéu cinzento
e levava na bicicleta um saco com uma manta
e uma pele de ovelha, um fogão a petróleo
e uma panela de esmalte azul.
Como não tive mais notícias, espero o pior.

Alexandre O'Neill in. "As horas já de números vestidas"

ZAROFF o jogo mais perigoso

Irving Pichel/Ernest B. Schoedsack - 1932

A ilha começa por definir-se como espaço de um poder absoluto que leva o leitor a a memórias do romantismo negro, aos dráculas e às suas variantes dispersas por toda a imaginação gótica. Rainsford terá de fugir ao "minotauro" num labirinto sufocante de vegetação tropical; como Teseu, usará a astúcia, a coragem, debater-se-á numa treva de impossibilidades até reencontrar a luz.
No centro de tudo isto levanta-se o corpo de pedra do castelo, espaço priviligiado da subversão. Nesta ventura de castelo e selva, Zaroff acede ao prazer construindo uma expectativa de crime, com avanços e recuos prolonga o momento crucial do êxtase da posse. E com esta prática ilustra em ficção o que George Bataille teoriza sobre o erotismo: " o erotismo é o crime solitário que apenas nos salva pela euforia de uma ilusão, já que em definitivo, também chegamos ao seu grau máximo pelo anátema da solidão."
Uma história de Richard Connell várias vezes adaptada ao cinema ( The most dangerous game - 1932 , a mais assumida de todas), e que uma outra vez viveu na rádio com as vozes de Orson Welles e Joseph Cotten; que construiu um reconhecido símbolo do erotismo sádico citado por Rolland Villeneuve, Léo Malet , Albert Manguel, Ado Kirou, entre outros, e amado - como prolongamento das imaginações do marquês de Sade - pelos surrealistas franceses.

Richard Connell "Zaroff (o jogo mais perigoso)" assírio & alvim

" As gentes comuns têm um profundo respeito pelos especialistas de todo o género. Ignoram que a razão pela qual se faz profissão de uma coisa não é o amor dessa coisa mas do que se lucra com ela - e quem ensina alguma coisa raramente a conhece a fundo; pois se a estudasse como deveria, em geral não lhe restaria tempo para ensiná-la. "

Arthur Schopenhauer in. "a arte de ter sempre razão" frenesi

fui ali mas volto já...

imagem de Greg Mably

muito brevemente...

Philippe Garrel [ Os Amantes Regulares ] 2005

Chega finalmente às nossas salas o mais recente filme de Philippe Garrel, com Louis Garrel no papel de François um jovem que completa os seus 20 anos num Maio de 1968, tempo de revoltas estudantis em França. Os dias, as noites de Maio em Paris. Há cargas policiais sobre as barricadas construídas pelos jovens. É aí que pela primeira vez vislumbra Lilie (Clotilde Hesme), muito bela: perseguição nos telhados, é encurralado mas consegue escapar às malhas da polícia de choque. De manhã, sente que viveu uma guerra civil. François e os seus amigos estão no apartamento de Antoine, rapaz burguês muito rico, depois de ter herdado de um pai que morreu muito novo. François escreve, é um poeta não publicado, com os seus amigos, artistas e estudantes. São uma dezena, têm entre 20 e 25 anos: fumar haxixe, a descoberta do ópio, mudar a vida, as discotecas, as miúdas... Lilie reaparece uma noite. O desejo de revolução é forte. Mais forte ainda o amor que vai nascer entre François e Lilie. Maio de 68 - o ano de 69 - Paris, a Europa, a juventude, tentações e perigos, tudo se mexe muito, ou demasiado rápido. A vida de um grupo -o seu fim- a revolução que se apaga... E o primeiro grande amor a morrer...

e porque hoje é dia 20...

Um documentário em 17 movimentos, em que os testemunhos e a guitarra definem o génio, a bravura e a modéstia de Carlos Paredes.
Em “Movimentos Perpétuos – Tributo a Carlos Paredes” estabelece-se um diálogo entre uma guitarra e uma câmara de Super8, numa estética que evoca a memória dos velhos filmes de família, plena de intimidade, revelada na partilha de pequenas histórias da vida.

premiado em três categorias no festival indie lisboa:

prémio melhor longa metragem-portuguesa
prémio melhor fotografia para filme português
prémio do público para longa-metragem

movimentos perpétuos - cine tributo a carlos paredes, um filme de edgar pêra

Aparece

Aparece pura gema feminina
Como uma jovem solitária
No meio dos seus vestidos nus
Como uma jovem nua
No meio das mãos que a imploram
Eu te saúdo

Anseio por uma chama nua
Anseio p'lo que ela esclarece
Surge meu jovem espectro
Nos teus braços uma ilha desconhecida
Tomará a forma do teu corpo
Minha bem aparecida

Uma ilha e o mar decresce
O espaço teria um leve arrepio apenas
Para nós dois um único horizonte
Acredita em mim revela-te assedia o meu olhar
Dá vida a todos os meus sonhos
Abre os olhos.

Paul Éluard in. "últimos poemas de amor" relógio d'água

cidade de vidro

cidade de vidro, o primeiro conto daquele que é considerado o melhor livro de Paul Auster, a trilogia de Nova Iorque, foi recentemente adaptado para o formato de novela gráfica, ou seja banda desenhada, e chega agora ao nosso mercado pelas mãos da asa editores. O trabalho gráfico e a adaptação ficaram ao cuidado de Paul Karasik e de David Mazzucchelli com a orientação de Art Spiegelman (MAUS) e Paul Auster. Esta obra viria a ser traduzida para diversas línguas e foi nomeada pelo Comics Journal como um dos 100 melhores “comics” do século. Um livro a não perder.

queria morrer contigo

imagem de Alex Gozblau


queria morrer contigo
não queria morrer de ti

prendi o amor nos meus braços
mas uma chuva de areia negra
cospe o meu sangue onde o coração

queria morrer contigo
contra o corpo limite do dia
arder praias onde o tempo acabava
começar Deus onde era o fim
não queria morrer de ti

a noite toda tem a espessura da perda
a boca beija o batimento da terra
o medo abraça-me

e ainda é tão tarde para que morramos os dois

Pedro Sena-Lino in. "zona de perda livro de albas"



O OLHAR

o teu problema não é o problema.
o teu problema é a parte do problema para onde
tu olhas.

O OLHAR OUTRA VEZ

o mesmo para a solução.
a tua solução é a parte da solução para onde
tu olhas.

OS OLHOS

só olhando para todos os lados ao mesmo tempo
poderás ver o problema, isto é : a solução.
assim não vês nada.
ou melhor: vês o que os teus olhos querem ver.
isto é: vês os teus olhos.

Gonçalo M. Tavares in. "breves notas sobre ciência" relógio d'água
imagem de Gérard Dubois


Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.

Fernando Pessoa

Yuko Shimizu


wind-up woman in the wind


gelato with gender


fluffy fascination

escutar...


Herbert [ scale ] k7 2006


Hoje deitei-me ao lado da minha solidão

Hoje deitei-me ao lado da minha solidão.
O seu corpo perfeito, linha a linha
derramava-se no meu, e eu sentia
nele o pulsar do meu próprio coração.

Moreno, era a forma das pedras e das luas.
Dentro de mim alguma coisa ardia:
o mistério das palavras maduras
ou o medo de perder quem me perdia.

Hoje deitei-me ao lado da minha solidão
e longamente bebi os horizontes.
E longamente fiquei até sentir
o meu sangue jorrar nas próprias fontes.

Eugénio de Andrade in. "As mãos e os frutos"

piratarias...


Leitura de histórias, vilanias e piratarias,
por Sandro william Junqueira

Fnac Guia
5ªfeira, 3 de Agosto às 21h30

bom fim-de-semana...

imagem de Alex Gozblau


CASA BRANCA

Casa branca em frente ao mar enorme,
Com o teu jardim de areia e flores marinhas
E o teu silêncio intacto em que dorme
O milagre das coisas que eram minhas.

A ti eu voltarei após o incerto
Calor de tantos gestos recebidos
Passados os tumultos e o deserto
Beijados os fantasmas, percorridos
Os murmúrios da terra indefinida.

Em ti renascerei num mundo meu
E a redenção virá nas tuas linhas
Onde nenhuma coisa se perdeu
Do milagre das coisas que eram minhas.


Sophia de Mello Breyner Andresen
imagem de Christian Northeast


Reconhecimento à Loucura

Já alguém sentiu a loucura
vestir de repente o nosso corpo?
Já.
E tomar a forma dos objectos?
Sim.
E acender relâmpagos no pensamento?
Também.
E às vezes parecer ser o fim?
Exactamente.
Como o cavalo do soneto de Ângelo de Lima?
Tal e qual.
E depois mostrar-nos o que há-de vir
muito melhor do que está?
E dar-nos a cheirar uma cor
que nos faz seguir viagem
sem paragem
nem resignação?
E sentirmo-nos empurrados pelos rins
na aula de descer abismos
e fazer dos abismos descidas de recreio
e covas de encher novidade?
E de uns fazer gigantes
e de outros alienados?
E fazer frente ao impossível
atrevidamente
e ganhar-Ihe, e ganhar-Ihe
a ponto do impossível ficar possível?
E quando tudo parece perfeito
poder-se ir ainda mais além?
E isto de desencantar vidas
aos que julgam que a vida é só uma?
E isto de haver sempre ainda mais uma maneira pra tudo?

Tu Só, loucura, és capaz de transformar
o mundo tantas vezes quantas sejam as necessárias para olhos individuais
Só tu és capaz de fazer que tenham razão
tantas razões que hão-de viver juntas.
Tudo, excepto tu, é rotina peganhenta.
Só tu tens asas para dar
a quem tas vier buscar.


José de Almada Negreiros "Poemas" assírio & alvim
imagem de Craig LaRotonda


Terror de te amar num sítio
tão frágil como o mundo.
Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa

Sophia de Mello Breyner Andresen

e já que a Francisca falou nisso...
O novo filme de Terry Zwigoff chama-se Art School Confidential, e é mais uma vez baseado no universo de Daniel Clowes, tal como já tinha sido Ghost World (2001). A estreia ainda não tem data marcada para as nossas salas, resta-nos pois esperar. E por falar em esperar, para quando uma edição Portuguesa de "Crumb" 1994, o fabuloso documentário sobre Robert Crumb ??

no Gira...

Desmond Dekker [black and dekker] stiff records 1993