CASAMENTO: Cerimónia na qual duas pessoas passam a ser uma, uma passa a ser nada e nada passa a ser sustentável.

Ambrose Bierce, in "dicionário do diabo" tinta da china, 2006
trad. Rui Lopes

brevemente...


George Steiner «A Poesia do Pensamento – do Helenismo a Celan» relógio d'água, 2012
trad. Miguel Serras Pereira

uma boa notícia...


«A primeira crise de esterilidade literária de Jean Genet (1910-1986) - sete anos vazios entre "Le Journal du Voleur" (1949) e a peça de teatro "Le Balcon" (1956) - sucede a um período fértil, medido por outros sete anos. De facto, a um poema feito no cárcere em 1942 - "Le Condamné à Mort" - primeiro anúncio de um grande poeta e de um magnífico transtorno de valores morais desde logo mitificado com a história de uma aposta entre reclusos que lhe estaria na origem, seguiu-se em 1944 o romance "Notre-Dame-des-Fleurs" (para o qual teve Cocteau de «inventar» uma editora situada em Monte Carlo, anónima, "aux dépens d?un amateur"), e depois "Miracle de la Rose" em 1946, "Querelle de Brest" e "Pompes Funèbres" em 1947, e ainda "Poèmes" em 1948 e "Journal du Voleur" em 1949, quase tudo o que, somado ao seu futuro teatro, nos faz arriscar uma palavra assustadora - génio - para não explicar de todo que aprendizagem (feita onde?, com quem?, para quê?) levou àquela escrita que uma faca, empunhada por um filho de pai incógnito e com uma memória magoada por acusações de roubo, assistências públicas e casas de correcção - obrigada a sonhar-se com delinquências vagabundas em marselhas e barcelonas - riscava com luxo para ferir a literatura e pô-la ao serviço de uma recusa de tudo o que afectasse positivamente a moral burguesa. Com estas histórias de exemplo em subversão pôde perceber-se que "uma função da arte" - viria ele próprio a dizê-lo assim, textualmente - "é substituir a fé religiosa pela eficácia da beleza"; e que esta beleza deve ter, pelo menos, "a força de um poema, quer dizer, de um crime"; e que aos seus livros tecidos com magnificênciaverbal ("a minha vitória é verbal", avisaria também, "e devo-a à sumptuosidade das palavras") caberia o papel de servir aquela beleza, e servi-la tão bem que ficassem irrecusáveis de sedução os espelhos onde ela se reflecte, e mesmo que a imagem reflectida confrontasse uma inversão ética do próprio leitor.»

Aníbal Fernandes

Jean Genet "No sentido da noite" sistema solar, 2012
trad. Aníbal Fernandes

6 de julho...


Enric González apaixonou-se por Londres muito antes de a conhecer. Munido de um plano de singular inconsistência, decidiu ir para Inglaterra viver do ar. E conseguiu. Por sorte, pôde viver também de um salário de jornalista, o qual melhorou consideravelmente o seu sustento. O jornalismo e algumas circunstâncias inesperadas permitiram‑lhe conhecer dezenas de personagens fascinantes e os lugares mais recônditos de uma cidade maravilhosa: do palácio de Buckingham e do Parlamento às vielas de Whitechapel, aos antigos estádios de futebol ou aos túneis subterrâneos. Este livro é um guia pessoal para descobrir o espírito londrino. Quando foi escrito o seu autor estava já noutro país e isso implica uma certa dose de nostalgia, pudicamente coberta de ironia. Houve outras cidades depois, e outras paixões, mas não há amor como o primeiro. E não há cidade como Londres.

Enric González "Histórias de Londres" tinta da china, 2012
trad. Carlos Vaz Marques

E SE DEPOIS DE TANTAS PALAVRAS

E se depois de tantas palavras,
não sobrevive a palavra!
Se depois das asas dos pássaros,
não sobrevive o pássaro parado!
Mais valeria, na verdade,
que coma tudo e acabemos!

Ter nascido para viver na nossa morte!
Levantar-se do céu rumo à terra
por seus próprios desastres
e espiar o momento de apagar com a sua sombra as suas trevas!
Mas valeria, francamente,
que comam tudo e tanto faz!…

E se depois de tanta história, sucumbirmos,
não já na eternidade,
mas dessas coisas simples, como estar
em casa ou pôr-se a matutar!
E se em seguida descobrirmos,
subitamente, que vivemos,
a avaliar pela altura dos astros,
pelo pente e as nódoas do lenço!
Mais valeria, na verdade,
que comam tudo, sem dúvida!

Dir-se-á que temos
num dos olhos muita pena
e também no outro muita pena
e nos dois, quando olham, muita pena…
Então… Claro!… Então… nem uma só palavra!


César Vallejo, in "Antologia Poética" relógio d'água, 1992
trad. José Bento

13 de Julho nas Livrarias...


Bruce Chatwin é um dos mais notáveis escritores britânicos dos nossos tempos, quer no romance, quer na literatura de viagem. Os seus livros tornaram-se clássicos contemporâneos e desafiam qualquer tipo de categorização: assimilam elementos de ficção, de ensaio, de reportagem, de história, de mexerico, e são inspirados ao mesmo tempo que espelham as suas incríveis viagens. Tragicamente, a sua voz narrativa foi interrompida no momento em que a encontrou. Um mês antes da sua morte, Chatwin lamentava-se: “Há tantas coisas que quero fazer.” “Bruce tinha acabado de começar” - diria o seu amigo Salman Rushdie - “Só vimos o primeiro ato.”
Chatwin deixou um conjunto de escritos de uma frescura avassaladora, que nos permitem regressar ao seu universo: um legado de cartas e postais que escreveu à família e aos amigos ao longo da sua curta vida. "Debaixo do Sol" revela mais de si do que ele quis mostrar nos seus livros: o seu património; as suas finanças; as suas ambições e preferências literárias; os seus gostos; o desassossego quanto à sua orientação sexual; a procura constante do lugar certo para viver – uma súmula vívida da variedade dos seus interesses e preocupações, um registo altamente revelador de um dos maiores e mais enigmáticos escritores do século XX.

Bruce Chatwin "Debaixo do sol" quetzal, 2012
Diane Arbus [ Susan Sontag ] 1965

"A princípio será o Sono. Animal profundamente adormecido, morna e tranquila massa misteriosamente isolada, area fechada e cheia de vida que transportas para o dia a minha história e o meu possível, ignoras-me, conservas-me, és a minha permanência inexprimível: o teu tesouro é o meu segredo."

Paul Valéry, in "Alfabeto" iuc, 2012
trad. Cristina RObalo Cordeiro

nova edição...


Galego da província de Ourense, Benito Prada vem para Portugal ganhar a vida, deixando para trás os seus trabalhos e paixões: a casa pobre, o pai afiador, as poucas letras aprendidas na Meiga de Ventosela. Sendo uma obra de ficção não deixa ainda assim de abordar acontecimentos e personagens históricas da primeira metade do século XX, como a visita de Franco à Universidade de Coimbra para receber o título de Doutor honoris causa em Direito. Um livro vibrante escrito num português sumptuoso.

Fernando Assis Pacheco "Trabalhos e paixões de Benito Prada" assírio & alvim, 2012

em junho...


Os contos de Julio Ramón Ribeyro são um espelho da sua vida e do mundo em que viveu. A palavra do mudo dá voz àqueles que foram excluídos do festim da vida: seres anónimos, discretos, condenados a uma existência mediana e rodeada de solidão. Através de uma escrita límpida e genuína, Ribeyro transmite as aspirações, os sonhos e as angústias dos seus protagonistas. O presente volume recolhe alguns do contos mais representativos do génio de Ribeyro, entre eles Sílvio no Roseiral e o autobiográfico Só para fumadores, dois exemplos do seu inconfundível universo literário. Segundo o escritor Alfredo Bryce Echenique, estes dois textos bastariam para situar o autor entre os maiores expoentes da narrativa breve contemporânea.

Julio Ramon Ribeyro "a palavra do mudo" ahab, 2012