PAUSA

Parecia-me que este dia
sem ti
devia ser inquieto,
escuro. Em vez disso está repleto
de uma estranha doçura, que aumenta
com o passar das horas –
quase como a terra
após um aguaceiro,
que fica sozinha no silêncio a beber
a água caída
e pouco a pouco
nas veias mais profundas se sente
penetrada.

A alegria que ontem foi angústia,
tempestade –
regressa agora em rápidas
golfadas ao coração,
como um mar amansado:
à luz suave do sol reaparecido brilham,
inocentes dádivas,
as conchas que a onda
deixou sobre a praia.

Antonia Pozzi, in "Morte de uma estação" averno, 2012
trad. Inês Dias

a chegar...


No princípio Lembro-me: estava ao colo de alguém. Havia um terreiro, uma casa ao fundo, ou no meio, isolada. Nem ár- vores, nem arbustos, só um corvo esgravatava, na terra ver- melha, como um borrão saltitante.E o sol. Meio-dia, talvez. Porque a luz vinha de todos os lados, e na casa não se distin- guia um refúgio, uma sombra: desenho trémulo, sem protu- berâncias nem reentrâncias que, de vez em quando, um golpe de vento parecia arrastar. — É ali. A minha chegada são estas palavras, com a sua clareza, ditas por ninguém. Voz sem corpo que soava um pouco atrás de mim, voz sem nome, sem sexo. Voz que afastava as coisas. Que me começou a perseguir, que me continuou a perseguir, que ainda me persegue. Voz que estará, no instante da minha morte, a dizer-me: — é ali. Eu tinha nove meses e não deveria lembrar-me. Mas lembro-me. Com a exactidão desfocada dos que não sa- bem morrer. O mundo começava com uma chegada, que era uma partida. Com uma viagem. É ali: lugar a que mais tarde viria a dar um nome. Um lugar que começou a crescer, até não haver lugar algum. Ou só a indiferença de todos os lugares:

Rui Nunes, in "Barro" relógio d'água, 2012

Alejandro Zambra


Cristián Jiménez [ Bonsái ] 2011

«No final ela morre e ele fica sozinho, embora na realidade tivesse ficado sozinho vários anos antes da morte dela, de Emília. Digamos que ela chama-se ou chamava-se Emília e que ele chama-se, chamava-se e continua a chamar-se Júlio. Júlio e Emília. No final Emília morre e Júlio não morre. O resto é literatura:»

Alejandro Zambra, in "Bonsái" teorema, 2008
trad. Jorge Fallorca

nova edição a 11 de maio

Guillermo Cabrera Infante "três tristes tigres" quetzal, 2012
trad. Salvato Telles de Menezes


TERESINHA

Aquele que amei tive de deixar no sítio
mesmo onde nunca soube perdoar:
aí persiste observando o rancor
que lhe impede a respiração da pele
até ao dia em que se desfará —
pedaços de lepra contra a consciência.
Pratico com ele a indiferença, exigente
solução de diluir o que não irá mudar.

Aquele que instintivamente toquei
não deu mais satisfações;
imagino-o absorto numa oficina
com um escopro ou um compasso
descrevendo a solidão, satisfeito consigo.
ou no convívio de terceiras pessoas.
Por ele, sem que que tenha esquecido,
disciplinei o corpo a emudecer.

Aquele a quem um instante quis chegar
não fica, antecipa partidas, vai
e volta, vai mais vezes do que volta;
retira as esperanças, logo não desilude:
quando vem traz o coração aberto
e os braços um tanto ocupados.
Admito com ele ter suspendido
a fraqueza em virtude do acanho.

Aquele a quem não pedi nada
e que invoco às manhãs,
aparece todavia pelas tarde com notícias
e tempo, que estende em desafogo aparente,
às vezes na cama demora quanto quer
e deixa os lábios no meu ombro.
Trato com ele a justiça que suscita
o que reconhecemos e não nos interroga.


Margarida Vale de Gato, in "Mulher ao mar" mariposa azual, 2010
fotog. Ingmar Bergman [ Sommaren med Monika ] 1953