«Como o universo inteiro andara de automóvel ou velocípede, a ocasião de pular de alegria aproveitará a muito poucos. Os raros peões indigentes que tiverem escapado a extermínios anteriores serão cuidadosamente esmagados e tudo seguirá, em fúria, para o duplo abismo que a odiosa mecanização invoca: o da imbecilidade dos homens e o da esterilidade das mulheres. As pessoas vão “divertir-se” em podridão e demência.»

Léon Bloy, in "Histórias desagradáveis" estampa, 1982
trad. Aníbal Fernandes
Jordi Paris, 1970

dia 16 de fevereiro nas livrarias...


Enrique Vila-Matas "Dublinesca" teorema, 2011
trad. Jorge Fallorca

«É esta luta de pessoas dentro da própria pessoa, somos dois em cada um de nós, este drama nunca se esclarece, é terrível, luta sempre no auge quando o amor bate à porta, quando se é dominada pelo campo imenso da febre amorosa, momentos dissecados, dobrados, gémeos, de exame filatélico.(…)»

Ruben A., in “Silêncio para 4” assírio & alvim, 1990

viagens...


Saul Bellow "Jerusalém ida e volta" tinta da china, 2011

brevemente na Ahab...


Julio Ramón Ribeyro "Prosas apátridas" ahab, 2011

dia 31 de Janeiro...

No seu estudo das obras de Charles Sealsfield, Leopold Kompert e Karl Emil Franzos, de Peter Altenberg, Franz Kafka, Hermann Broch e Joseph Roth, bem como de Jean Améry, Gerhard Roth e Peter Handke, W. G. Sebald analisa o complexo temático da pátria e do exílio que tão característico é da literatura austríaca dos séculos XIX e XX.

W. G. Sebald "Pátria Apátrida" teorema, 2011
Henri-Georges Clouzot [ Les Diaboliques ] 1955

Rêve Oublié

Neste meu hábito surpreendente de te trazer de costas
neste meu desejo irreflectido de te possuir num trampolim
nesta minha mania de te dar o que tu gostas
e depois esquecer-me irremediavelmente de ti

Agora na superfície da luz a procurar a sombra
agora encostado ao vidro a sonhar a terra
agora a oferecer-te um elefante com uma linda tromba
e depois matar-te e dar-te vida eterna

Continuar a dar tiros e modificar a posição dos astros
continuar a viver até cristalizar entre neve
continuar a contar a lenda duma princesa sueca
e depois fechar a porta para tremermos de medo

Contar a vida pelos dedos e perdê-los
contar um a um os teus cabelos e seguir a estrada
contar as ondas do mar e descobrir-lhes o brilho
e depois contar um a um os teus dedos de fada

Abrir-se a janela para entrarem estrelas
abrir-se a luz para entrarem olhos
abrir-se o tecto para cair um garfo no centro da sala
e depois ruidosa uma dentadura velha
E no CIMO disto tudo uma montanha de ouro

E no FIM disto tudo um Azul-de-Prata.


António Maria Lisboa, in "Poemas" assírio & alvim, 1995

Alex Gross, 2011

gato maltês (Janeiro 2011)...

«Balzac: dezoito anos de tumultuosa criação literária, três anos de doloroso declínio; uma imaginação que se levantou alto para os êxitos, e teve momentos menos gloriosos em alguns fracassos. Uma energia: vital e consumida naquela chama que está no incêndio de todas as paixões do mundo. O escritor Balzac, ele próprio construído como personagem de um possível e nunca escrito romance de Balzac.»

Honoré de Balzac "O Coronel Chabert" assírio & alvim, 2011
trad. Aníbal Fernandes


«Uma das mais célebres das seis novelas da recolha "Les Diaboliques". Escrita por volta de 1870, esta história de uma paixão adúltera começa num salão de armas e desenrola-se, de espada na mão, até ao crime. Romancista, poeta e jornalista, Barbey D'Aurevilly mostra nesta novela, mais do que em qualquer outra, o seu génio literário.»

Barbey D'Aurevilly "A felicidade no crime" assírio & alvim, 2011
trad. Aníbal Fernandes


«A minha obra favorita», anunciou em Julho de 1881 ao seu amigo William E. Henley. «É uma sonata fantástica sobre o mar e os naufrágios. [...] É a primeira e verdadeira tentativa de eu escrever uma história; uma coisa estranha, senhor, bastante minha apesar de lá ter um pouco do "Pirate" de Walter Scott; e como poderia acontecer de outro modo? Para o romanesco de tais lugares, ele dispunha daquilo que é a sua verdadeira raiz.»

Robert Louis Stevenson "Os folgazões" assírio & alvim, 2011
trad. Aníbal Fernandes


«O tema da Salomé bíblica seduzia-o, como seduziu muitos nomes das artes do final do século XIX orientalista e decadentista, mas pela vontade de lhe acrescentar uma venenosa dimensão necrófila. Salomé era a beleza maldita, a luxúria e a histeria, era o animal monstruoso, de uma sobre-humanidade indiferente a tudo o que não satisfizesse a sua sensualidade de mulher.»

Oscar Wilde "Salomé" assírio & alvim, 2011
trad. Aníbal Fernandes

SEM TÍTULO E BASTANTE BREVE

Tenho o olhar preso aos ângulos escuros da casa
tento descobrir um cruzar de linhas misteriosas, e
com elas quero construir um templo em forma de ilha
ou de mãos disponíveis para o amor....

na verdade, estou derrubado
sobre a mesa em fórmica suja duma taberna verde,
não sei onde
procuro as aves recolhidas na tontura da noite
embriagado entrelaço os dedos
possuo os insectos duros como unhas dilacerando
os rostos brancos das casas abandonadas, á beira mar...

dizem que ao possuir tudo isto
poderia Ter sido um homem feliz, que tem por defeito
interrogar-se acerca da melancolia das mãos....
...esta memória lamina incansável

um cigarro
outro cigarro vai certamente acalmar-me
....que sei eu sobre as tempestades do sangue?
E da água?
no fundo, só amo o lodo escondido das ilhas...

amanheço dolorosamente, escrevo aquilo que posso
estou imóvel, a luz atravessa-me como um sismo
hoje, vou correr à velocidade da minha solidão


Al Berto, in "Degredo no Sul" assírio & alvim, 2007
foto. via assírio & alvim

blog da cotovia...


http://blogdacotovia.blogspot.com/
Edward Hopper [ Sun in an Empty Room ] 1963

em fevereiro...

Samanta Schweblin "Pássaros na boca" cavalo de ferro, 2011
trad. Sofia Castro Rodrigues e Virgílio Tenreiro Viseu


LIBERDADE

No limiar da tua porta
No soalho reluzente
Na caixa do teu piano
Escrevo o teu nome

No primeiro dos degraus
No segundo e nos outros
Na porta da tua casa
Escrevo o teu nome

Nas paredes do nosso quarto
No papel viperino
Na lareira de cinzas
Escrevo o teu nome

Na almofada nos lençóis
No colchão feito de lã
No travesseiro encardido
Escrevo o teu nome

No teu rosto que me estendes
Nas tuas narinas abertas
Em cada um dos seios agudos
Escrevo o teu nome

No teu ventre como um escudo
Nas tuas coxas afastadas
No teu mistério corrediço
Escrevo o teu nome

Vim na noite
Conspurcar tudo isso
Vim pelo teu nome
Para o escrever
Com esperma.


Boris Vian, in "Escritos pornográficos" guerra & paz, 2010
trad. Rita Sousa Lopes

PERDA

No poroso branco das lajes
da limpa escada de pedra
sobre o abismo feliz
das claridades eternas
cada passo
perde
lentamente
a esperança de ser o último

A obra sem peso
da minha paciência
corre sobre a terra
constrói o silêncio
onde tu te anuncias

No reflexo das horas
como uma imagem de vidro
onde só vejo
a luz do vento
eu sei que a cor do mundo
está perdida


Ernesto Sampaio, in "Feriados Nacionais" fenda, 1999
Phil Douglis [ Fez ] 2006


«Qualquer cidade natal traz no ventre um pouco de cinza. Fez encheu-me a boca de terra amarela e de poeira cinzenta. Uma fuligem de madeira e de carvão ficou-me depositada nos brônquios e tornou as minhas asas mais pesadas. Como amar aquela cidade que me pregou à terra e por muito tempo me velou o olhar? Como esquecer a tirania daquele amor cego, daqueles silêncios pesados e prolongados, daquelas ausências atormentadas? Quando ando por aquelas ruas, deixo os meus dedos na pedra e roço as mãos pelas paredes até as esfolar e lamber-lhes o sangue. (…).»

Tahar Ben Jelloun, in "O escrivão público" cavalo de ferro, 2005
trad. Maria do Rosário Mendes

brevemente...


«Ismael, um velhor professor reformado, e a sua mulher, Otília, vivem um quotidiano modesto e pacato numa povoação do interior chamada San Jose. Em cima de uma escada e enquanto apanha laranjas, Ismael gosta de espiar o quintal do vizinho - a razão é a esbelta Geraldina, a mulher do brasileiro, que tomas banhos de sol nua, enquanto este tange a guitarra e os miúdos - Eusebito, o filho, e Gracielita, a criada adolescente - brincam em redor. Este ambiente idílico da aldeia será em breve ensombrado pelo desaparecimento de alguns dos seus habitantes. E ao voltar de um passeio, Ismael descobrirá que os vizinhos foram raptados e tenta, em vão, encontrar a mulher.»

Evelio Rosero "Os exércitos" quetzal, 2011
trad. Margarida Amado Acosta

nova edição...


«Raymond Carver disse que era possível "escrever sobre lugares-comuns, sobre coisas e objectos usando lugares-comuns, mas também uma linguagem precisa, conferindo assim a estas coisas - uma cadeira, uma cortina, um garfo, uma pedra, um brinco de mulher - uma força e uma cintilação imensas". Em parte nenhuma é tão evidente esta alquimia, como em "Catedral".»

Raymond Carver "Catedral" quetzal, 2011
trad. João Tordo