ARGUMENTO

Como viver sem desconhecido diante de nós?
os homens de hoje em dia querem que o poema seja à imagem das suas vidas, com tão poucas considerações, tão pouco espaço, consumidas de intolerância.
Porque já não lhes é permitido agir supremamente, nessa preocupação fatal com a auto-destruição através dos seus semelhantes, porque a sua riqueza inerte os refreia e os amarra, os homens de hoje em dia, debilitado o instinto, perde, muito embora se conservem vivos, a própria poeira do seu nome nascido do chamamento do porvir e da angústia da retenção, o poema, elevando-se do seu poço de lama e de estrelas, testemunhará, quase silenciosamente, que nada havia nele que não existisse verdadeiramente noutro sítio, neste rebelde e solitário mundo de contradições.

René Char, in "Furor e mistério" relógio d'água, 2000
trad. Margarida Vale de Gato

MEMÓRIA, A INIMIGA

Não voltarei a colar os pedaços da memória.
O céu estalado dos puzzles não ressuscita a magia.
Aquilo de que me lembrei, só atraves de novas e suscitadas saudades me deu alguma vez impressão de vida. E assim, mais tristes e mais infelizes entre todos os homens me pareciam os que nasceram dotados com as melhores memórias. Não triunfam sobre a morte mas, cada transubstanciação que tentam, em vez de de lhes prolongar o passado mata-lhes o presente com a mais inexorável das fatalidades. Vítimas da sua insuficiência, prosseguem condenados a nada ver do novo espectáculo que desprezam, fiados numa dócil esperança de recomeços que ninguém, de resto, saberia conseguir que os satisfizessem.
Quanto a mim, tudo o que aprendi, tudo o que vi só contribuirá para o meu tédio e o meu nojo se um novo estado qualquer me não causar o esquecimento dos pormenores anteriores. Visto isso, como baptizar de inimiga uma memória obstinada a recordar?

René Crevel, in "O meu corpo e eu" hiena, 1995
trad. Luís Matos Costa

LER ROMANCES

Nem todos os livros se lêem do mesmo modo. Os romances por exemplo, existem para serem devorados. Lê-los é uma volúpia da assimilação. Não se trata de empatia. O leitor não se coloca no lugar do herói, mas assimila os que lhe acontece. O relato vivo disso é a forma de apresentação apetitosa que traz à mesa um prato suculento. É certo que também há alimentos crus da experiência — tal como há alimentos crus para o estômago—, concretamente: as experiências que nos passam pela própria pele. Mas a arte do romance, como a arte da cozinha, só começa para lá dos alimentos crus. E quantas substancias suculentas não existem que são intragáveis em estado cru! E quantas experiências que são aconselháveis em estado de leitura, mas não de vivência! Fazem proveito a muito boa gente que morreria se passasse por elas in natura. Em suma: se existe uma musa do romance — a décima —, o seu emblema é o da fada da cozinha. Tira o mundo do seu estado cru, para lhe preparar pratos comestíveis e extrair dele o seu gosto. Se tiver de ser, pode ler-se o jornal à refeição. Mas nunca um romance. São tarefas necessárias, mas que entram em conflito.

Walter Benjamin, in "Imagens de pensamento" assírio & alvim, 2004
trad. João Barrento

NÃO ENTRES DOCILMENTE NESSA NOITE SERENA

Não entreis docilmente nessa noite serena,
porque a velhice deveria arder e delirar no termo do dia;
odeia, odeia a luz que começa a morrer.

No fim, ainda que os sábios aceitem as trevas,
porque se esgotou o raio nas suas palavras, eles
não entram docilmente nessa noite serena.

Homens bons que clamaram, ao passar a última onda, como podia
o brilho das suas frágeis acções ter dançado na baia verde,
odiai, odiai a luz que começa a morrer.

E os loucos que colheram e cantaram o voo do sol
e aprenderam, muito tarde, como o feriram no seu caminho,
não entram docilmente nessa noite serena.

Junto da morte, homens graves que vedes com um olhar que cega
quanto os olhos cegos fulgiriam como meteoros e seriam alegres,
odiai, odiai a luz que começa a morrer.

E de longe, meu pai, peço-te que nessa altura sombria
venhas beijar ou amaldiçoar-me com as tuas cruéis lágrimas.
Não entres docilmente nessa noite serena.
Odeia, odeia luz que começa a morrer.


Dylan Thomas, in "A mão ao assinar este papel" assírio & alvim, 1998
trad. Fernando Guimarães

leitura recomendada...


HISTÓRIA UNIVERSAL DA DESTRUIÇÃO DOS LIVROS é um relato lúcido e devastador do crime perpetuado contra a memória da humanidade que descansa nos livros. Desde a antiguidade grega até ao mundo islâmico, desde os códices pré-hispânicos perdidos no fogo durante a época colonial ou a destruição nazi de milhares de livros judaicos até às situações actuais de censura em países como Cuba e China.

Outro cenário: Bagdad jaz em ruínas, as chamas devoraram as suas antigas bibliotecas, os seus museus foram reduzidos a escombros, os saques sucedem-se dia e noite perante a indiferença dos soldados que foram destacados para guardar essa cidade milenária. Perante esta paisagem desoladora, o autor interroga-se sobre a razão de ser deste empenho em assassinar a memória escrita, justamente no lugar onde surgiu pela primeira vez o livro como objecto e ferramenta. Para encontrar uma resposta, Fernando Báez recorre a diversos momentos da história, cuja desafortunada pedra de toque tem sido a destruição dos livros, sempre em nome de diversas consignas: raciais, sexuais, culturais ou políticas.


Fernando Báez "História universal da destruição dos livros" texto, 2009
trad. Maria da Luz Veloso

Richard Lerner [ What Happened to Kerouac? ] 1986

escutar...

Pumajaw [ favourites ] 2009

AH, DIZ-ME A VERDADE ACERCA DO AMOR

Há quem diga que o amor é um rapazinho,
E quem diga que ele é um pássaro;
Há quem diga que faz o mundo girar,
E quem diga que é um absurdo,
E quando perguntei ao meu vizinho,
Que tinha ar de quem sabia,
A sua mulher zangou-se mesmo muito,
E disse que isso não servia para nada.

Será parecido com uns pijamas,
Ou com o presunto num hotel de abstinência?
O seu odor faz lembrar o dos lamas,
Ou tem um cheiro agradável?
É áspero ao tacto como uma sebe espinhosa
Ou é fofo como um edredão de penas?
É cortante ou muito polido nos seus bordos?
Ah, diz-me a verdade acerca do amor.

Os nossos livros de história fazem-lhe referências
Em curtas notas crípticas,
É um assunto de conversa muito vulgar
Nos transatlânticos;
Descobri que o assunto era mencionado
Em relatos de suicidas,
E até o vi escrevinhado
Nas costas dos guias ferroviários.

Uiva como um cão de Alsácia esfomeado,
Ou ribomba como uma banda militar?
Poderá alguém fazer uma imitação perfeita
Com um serrote ou um Steinway de concerto?
O seu canto é estrondoso nas festas?
Ou gosta apenas de música clássica?
Interrompe-se quando queremos estar sossegados?
Ah! diz-me a verdade acerca do amor.

Espreitei a casa de verão,
E não estava lá,
Tentei o Tamisa em Maidenhead
E o ar tonificante de Brighton,
Não sei o que cantava o melro,
Ou o que a tulipa dizia;
Mas não estava na capoeira,
Nem debaixo da cama.

Fará esgares extraordinários?
Enjoa sempre num baloiço?
Passa todo o seu tempo nas corridas?
Ou a tocar violino em pedaços de cordel?
Tem ideias próprias sobre o dinheiro?
Pensa ser o patriotismo suficiente?
As suas histórias são vulgares mas divertidas?
Ah, diz-me a verdade acerca do amor.

Chega sem avisar no instante
Em que meto o dedo no nariz?
Virá bater-me à porta de manhã,
Ou pisar-me os pés no autocarro?
Virá como uma súbita mudança de tempo?
O seu acolhimento será rude ou delicado?
Virá alterar toda a minha vida?
Ah, diz-me a verdade acerca do amor.


W.H. Auden, in "Diz-me a verdade acerca do amor" relógio d'água, 1994
trad. Maria de Lourdes Guimarães
fotografia de Cecil Beaton