viagens…


Inspirado pela paixão do seu filho pela banda desenhada e pelos filmes de animação japoneses, Peter Carey decide organizar uma viagem ao Japão com Charley, de 12 anos.
Os dois peregrinos vão explorar personagens, num roteiro difícil de adivinhar. Procurando entender os significados mais profundos da manga e do anime, irão também tentar desvendar, muitas vezes com efeitos caricatos, o sentido do "verdadeiro Japão".
De Manhattan até Tóquio, do Comodoro Perry até Godzilla, do teatro Kabuki até à obsessão pelos robôs, O Japão é Um Lugar Estranho eterniza as memórias de uma viagem pessoal, rica e divertida, onde se explora o contraste entre duas culturas radicalmente diferentes, mas também uma relação comovente entre pai e filho.

«Estava com o meu filho de doze anos no clube de vídeo, quando ele alugou O Verão do Kikujiro, um filme japonês com um tipo muito duro e um miúdo, onde a encantadora personagem do rufia cheio de tiques é representada pelo actor Beat Takeshi. Como poderia eu saber naquela altura aonde aquilo nos iria levar?
Nas semanas seguintes, Charley alugou O Verão do Kikujiro várias vezes e, embora estivesse com ele quando isso aconteceu, eu não fazia a mais pequena ideia do modo como ele viria a ser profundamente afectado pelo filme até ao dia em que ele me disse, calmamente, en passant: «Quando for grande vou viver para Tóquio».»


Peter Carey "O Japão é um lugar estranho" tinta da china, 2009
trad. Carlos Vaz Marques

FAZ FALTA SER CEGO

Faz falta ser cego,
ter como metidas nos olhos raspaduras de vidros,
cal viva,
areia a ferver,
para não ver a luz que salta em nossos actos,
que ilumina por dentro a nossa língua,
a nossa palavra quotidiana.

Faz falta querer morrer sem lápide de glória e alegria,
sem participação nos hinos futuros,
sem lembrança nos homens que julguem o passado sombrio da Terra.

Faz falta querer já na vida ser passado,
obstáculo sangrento,
coisa morta, esquecimento seco.


Rafael Alberti, in " Antologia da Poesia Espanhola Contemporânea" assírio & alvim, 1985
trad. José Bento

«(...) — Verifica-se que a reflexão, no seio do mundo orgânico, é inversamente proporcional à graça: quanto mais fraca aquela é, mais esta irradia e domina. O mesmo se dá com duas curvas que, passando de ambos os lados de um ponto, se cortam no infinito; ou com a imagem de um espelho côncavo que repentinamente se faz real depois de ter atingido o infinito; também assim a graça ressurge depois do conhecimento atravessar, digamos, um infinito; e da mais pura forma ela se mostra, quer no corpo humano desprovido de consciência, quer no corpo que tenha uma, infinita, querendo eu dizer no fantoche articulado ou em Deus.
— Dessa forma — respondi um tanto perplexo — seria necessário voltarmos a provar o fruto do conhecimento para recuperarmos o estado de inocência.
— Com certeza absoluta — respondeu — E será esse o derradeiro capítulo da história do mundo.»

Heinrich Von Kleist, in "As Marionetas" hiena, 1988
trad. Luís Bruhein e Aníbal Fernandes

HEINRICH VON KLEIST

Desceu do cavalo apressado com mais pressa do que o cavalo e antes d o seu pé tocar no chão já as suas mãos tocavam no chão, rebolou, pois, como fazem os ginastas, e quando tinha a cabeça virada para a terra arrancou uma flor que no momento em que a sua cabeça estava já virada para o céu foi oferecida a uma mulher que o esperava há três horas. Para um homem tão rápido a agir, só uma mulher muito paciente.
Entenderam-se. Foram felizes para sempre. Mas o para sempre do cavalheiro Kleist era rapidíssimo. Quase nada. Muito.

Gonçalo M. Tavares, in "Biblioteca" campo das letras, 2004

Iluminações descontínuas
Surrealismo actual


A Exposição que se apresenta – Exposição de Surrealismo actual “Iluminações Descontinuas – pretende ser a expressão múltipla da continuidade do Movimento Histórico criado por Breton e constituído em torno da sua pessoa, e em relação com ele a partir de diversos pontos do planeta até à sua morte em 1966. Ela tem em linha de conta a dissolução do Grupo de Paris em Outubro de 1969 por alguns dos seus membros constituintes, sem desprezar as contribuições internacionais historicamente convergentes com o Movimento Phases de Edouard Jaguer (1924-2006), cobra ou os Automatistas canadianos. Trata-se antes de uma expressão múltipla, incessante, dinâmica e continuadora do Movimento Histórico criado por Breton, com contribuições a uma realidade possível (à margem do historicismo), conservando as linhas de força essenciais da poesia, do amor e da liberdade nas suas diversas formas de expressão ainda que tendem nas múltiplas praticas do acaso objectivo e do automatismo, da revolta e da busca do maravilhoso.

Patente na Sala de Exposições Temporárias Manuel Gambôa, no Convento de S. José, em Lagoa, de 17 de Janeiro a 28 de Fevereiro de 2009.


Realização: Cristina Sampaio
Argumento: João Paulo Cotrim
Animação: Ana Nunes
Som: José Condeixa

BATATAS. PESCOÇO. SALSA. ETC.

à mesa do restaurante a facilidade da revolução com granadas nos pratos. o Fagundes exaltou-se e empurrou a roupa: todo sujo de nomes decorado de sustos. alguém gritou: a sopa está acesa e o estilo do universo não presta. o povo que diga. o povo que meta. entretanto
o Juca empernava com a Micas por baixo da mesa e bebia mais nuvens com cornos no copo. talvez mais manteiga. talvez mais pimenta. a Micas que diga. a Micas que meta. talvez mais salada. talvez mais armas. depois ela ardia uma sacana na testa.
a fome era muita. a revolução incerta. e repetimos as batatas e a maldade da metralhadora muito quente na travessa. e a gente insistia. o povo que diga. o povo que meta. então
pedimos uma guerrilha com azeitonas e cegas luas em lata. acerta altura
comi um país na ponta do garfo. porra era fácil e havia o direito! mas não quis mais santos decapitados nem assombros de vacas. em seguida
contei o meu tempero da revolução à malta. e pus o paraíso no pescoço cortado para não me sujar no retrato.
o povo que diga. o povo que meta.

E HAVIA OS BOIS DA BATALHA DE ALJUBEARROTA COM A MÃE SATISFACTA À JANELA MORTA E O GAJO PATRIÓTICU SEMPRE A DESPIR A NOIVA SANTA. CLARO QUE TAMBÉM A MALTA COM OUTRA BANDEIRA DA PÁ!TRIA E O GRI GRI DO ASPIRADOR A CATAGRUAR A GRETA.

pronto: fiquei eterno de camisa e suspeito de salsa.


António Aragão, in "PÁTRIA. COUVES. DEUS. ETC." & etc, 1982

escutar...


Andrew Bird [ Noble Beast ] fat possum, 2009

SE O HOMEM PUDESSE DIZER

Se o homem pudesse dizer o que ama,
se o homem pudesse levantar ao seu o seu amor
Como nuvem na luz;
Se, quais muros que se derrubam,
Para saudar a verdade erguida entre eles,
Pudesse derrubar o seu corpo, deixando só a verdade do seu amor,
A verdade de si mesmo.
Que não se chama glória, fortuna ou ambição,
Mas amor ou desejo,
Eu seria o que imaginava;
O que com sua língua, seus olhos, suas mãos
Proclama ante os homens a verdade ignorada,
A verdade do seu amor verdadeiro.

Liberdade não conheço senão a liberdade de estar preso a alguém
Cujo nome não posso ouvir sem calafrios;
Alguém por quem me esqueço desta existência mesquinha,
Por quem o dia e a noite são para mim o que ele queira,
E meu corpo e espirito flutuam em seu corpo e espirito
Como troncos perdidos que o mar afoga ou ergue
Livremente, com a liberdade do amor,
A única liberdade que me exalta,
A única liberdade por que morro.

Tu justificas minha existência:
Se não te conheço, não vivi jamais;
Se morro sem conhecer-te, não morro, porque não vivi nunca.


Luis Cernuda, in "Antologia da Poesia espanhola contemporanea" assírio & alvim, 1985
trad. José Bento

Entre as pessoas que exercem profissões humildes, entre o instalador de tochas, o encantador de bócios, o apagador de ruídos, por encanto pessoal e da sua ocupação sobressai o Pastor de Água.
O Pastor de Água assobia a uma fonte, e lá sai ela do leito para ir atrás dele. Vai atrás dele e engrossa com a passagem de outras águas.
Às vezes o pastor prefere manter o riacho tal qual é, de pequenas dimensões, só colectando aqui e além o necessário para não se extinguir, tendo cuidado, sobretudo, quando passa por terrenos arenosos.
Vi um destes pastores — eu não o largava, fascinado — que a si próprio e só com um ribeiro de nada, com um fio de água tão largo como uma meda de palha, deu o prazer de atravessar um grande e taciturno rio. Como as águas se não misturavam, apanhou na outra margem o seu ribeiro intacto.
Proeza que não é para o primeiro ribeirador que apareça. As águas iriam num instante misturar-se e ele teria de procurar noutro lado uma nova fonte.
De qualquer modo, uma corrente de rio necessariamente terá de sumir-se mas sobrará quanto baste para dar banho a um pastor ou encher um fosso vazio.
Mas que ele não demore pois, muito enfraquecida, ela está prestes a morrer. É uma água «passada».


Não é assim tão raro encontrar-se um velho de há seiscentos anos, o que aliás causa uma impressão bastante desfavorável.
Se por má sorte ou maldade lhe dermos um encontrão, é de mais para as suas forças de reacção e cai desfeito em pó, pó fino e de muito leve mau cheiro; só continuava vivo por uma derradeira brasa de vontade. É grande espanto encontra-se alguém acabado de morrer.
Para falar a verdade só vi um, a quem se davam quatrocentos anos bem contados, e apenas lá cheguei duas horas depois do acidente, quando já estava tão confuso e a pouco reduzido o que apanharam dele , que mal chegava para encher um alforge, pondo de parte os ossos do tórax. Só os pulmões e o coração se mantinham moles. Aliás, um supervelho que respirava onde mais ninguém encontraria ar. Mas desde há muito renunciara à digestão, contentando-se com banhos leves exteriores, alimentares.


O Estômago (a provincia-estômago) foi usada contra inimigos chegados do oeste. Mais do que invasores propriamente ditos, parece que eram indígenas das montanhas hoje desaparecidos.
Ao descerem à planície, estes homens das montanhas tiveram que atravessar um ribeiro. Ficaram com os pés digeridos. Mais adiante aguentaram uma chuvada muito forte que logo se atirou a eles e roeu as carnes e roupas.
Toda a região à sua frente se transformou em estômago: é esta a verdade.
O ar húmido devorava-os. A pele ia-se em grandes bocados e a carne, por baixo, depressa desaparecia. Até o pó que levantavam estava contra eles. Misturado com o suor, atacava-os. Comidos, não por uma lepra mas cruéis sucos de Estômago, quase todos pereceram.


Henri Michaux, in "No País da Magia" hiena, 1987
trad. Aníbal Fernandes


não chamem logo as funerárias,
cortem-me as veias dos pulsos pra que me saibam bem morto,
medo? só que o sangue vibre ainda na garganta
e qualquer mão e meia me encha de terra a boca,
sei de quem se tenha erguido, de pura respiração, do fundo da madeira,
saibro, roupa, gôtas de orvalho ou cêra,
ornatos, espadanas, lágrimas,
últimas musicas,
não é como no escuro o trigo que ressuscita,
sei sim de quem despedaçou as tábuas e ficou entre caos e nada com o sangue alvoraçado nos braços e nas têmporas,
que se não pare nunca entre as matérias intransponíveis,
cortem-me cerce o sangue fresco,
que a terra me não côma vivo,

[excerto]

Herberto Helder, in “Ofício cantante – poesia completa” assírio & alvim, 2009

escutar...



Betty Page — danger girl

«Aqui estou no meu quarto habitual, onde me parece ter estado sempre. Como tantas outras manhãs da minha vida, encontro-me em casa a escrever. Ressoa, vibrante, a música de Be My Baby, cantada por The Ronettes. Quando tinha dezassete anos era a minha canção favorita. De repente, ouço perfeitamente que alguém acaba de chegar ao patamar no elevador. Mas é estranho. Quem chegou não toca a nenhuma das quatro portas, nem se decide a abrir nenhuma delas. É como se tivesse ficado indeciso, aturdido ou simplesmente imóvel, ali. Vivo há tantos anos nesta casa que conrolo muito bem os sons que se possam ouvir perto da minha porta. Passam quase dois minutos até que, exactamente quando a canção termina, tocam à minha campainha. Abro. Vejo um homem mais ao menos da minha idade. É o estafeta de uma editora e veio para me entregar um livro. Dá-mo e assino um papel. “As Ronettes…”, sussurra o homem melancólico. “Põe-me bem disposto”, comento-lhe sem me mostrar surpreendido – embora o esteja – por ele conhecer The Ronettes. Sorrio, despeço-me, fecho a porta devagar, com a amabilidade do costume. Fico à escuta atrás da porta e noto que o homem não entra no elevador. É possível que tenha voltado a ficar imóvel no patamar. Seguramente deixou-se ficar encostado a uma parede, quebrado, desfeito de nostalgia e até a chorar, à espera que volte a pôr-lhe Be My Baby.
Quando via Marcel Duchamp a jogar xadrez no Café Melitón de Cadaqués, não sabia que aquele homem tinha largado a pintura e tinha convertido a sua vida numa obra de arte. Nessa altura eu tinha dezassete anos e só via um francês que jogava xadrez todos os dias. Foi uns anos mais tarde que vim a saber que tinha estado a ver um homem sabiamente libertado de todas as estúpidas amarras da arte. Não nego que há algum tempo que me tenta a ideia de me situar na estela duchampiana, mas creio que, para dar esse passo, precisaria de um escritor que fosse testemunha de tudo, que me seguisse e o narrasse, quer dizer, teria de contratar um escritor que contasse como abandonei a escrita, como me dediquei a converter a minha vida numa obra de arte, como deixei de escrever e não me senti nada mal. Duas possibilidades, perante isto: 1) ponho um anúncio e procuro um escritor que esteja disposto a contar o que fiz depois de ter abandonado a escrita; 2) escrevo-o eu mesmo: invento-me como um escritor contratado que segue os meus passos depois do abandono e escreve por mim um diário, onde piedosamente simula que não deixei a escrita.»

Enrique Vila-Matas, in "Diário Volúvel”
Jorge Fallorca em tradução para a Teorema
Via frenesi

Tocamo-nos um ao outro, e como? Por galopes de asa,
mesmo à distância sentimos a presença do outro.
Um poeta vive só, mas de vez em quando
surge quem o transporta ao encontro de que o transportou.

Rainer Maria Rilke, in "Correspondência a três" assírio & alvim, 2006
trad. Armando Silva Carvalho

— Sou entomologista. Colecciono borboletas.
— Claro — disse ela. — Lembro-me de dizerem isso no jornal. Agora faço parte da colecção.
— Como ela parecia achar engraçado, respondi que de certo modo.
— Não, não é de certo modo. Literalmente. Pregou-me neste quartinho e pode vir e regalar-se a ver-me.
— Não vejo as coisas de modo algum assim.
— Sabe que sou budista? Detesto tudo quanto tira a vida. Mesmo a vida de insectos.
— Comeu o frango — disse-lhe. Dessa vez apanhei-a.
— Mas desprezo-me por isso. Seria uma pessoa melhor se fosse vegetariana.
— Se me pedisse que deixasse de coleccionar borboletas, deixaria — disse-lhe. — Faria tudo quanto me pedisse.
— Excepto deixar-me voar daqui.
— Preferia não falar a esse respeito. Não nos conduz a nada.


John Fowles, in "O Coleccionador" caminho, 1989
trad. Fernanda Pinto Rodrigues