SIDI AMAR NO INVERNO

Penso que nunca vi o teu rosto
Num dia de chuva, quando as sombrias artérias do céu
Pulsam junto às árvores, e no teu coração
A água corre. Nunca te vi chorar
Com o monólogo da noite, com a tua mente resistindo ao silêncio.

Chegará o dia em que as linhas do céu
Se desprenderão das torres
E em que tu, que tremes pela noite
Partirás para os lugares sombrios ao lado de um desconhecido.


Paul Bowles, in "Poemas" assírio & alvim, 2008
trad. José Agostinho Baptista

O MAR

Antes que o sonho (ou o terror) tecesse
Mitologias e cosmogonias,
Antes que o tempo se cunhasse em dias,
O mar, o sempre mar, já estava e era.
Quem é o mar? Quem é aquele violento
E antigo ser que rói os pilares
Da terra e é um e muitos mares
E abismo e esplendor e acaso e vento?
Quem para ele olhar vê-o pela primeira vez,
Sempre. Com o assombro que as coisas
Elementares deixam, as belas
Tardes, a lua,o fogo de uma fogueira.
Quem é o mar, quem sou eu? Sabê-lo-ei no dia
Que se segue à agonia.


Jorge Luis Borges, in "O mar na poesia da América Latina" assírio & alvim, 1999
trad. José Agostinho Baptista

uma boa notícia...


Na história que dá o título ao livro, um homem vulgar decide-se a escalar clandestinamente a parede da Baliverna, um velho mosteiro degradado e transformado em refúgio de vagabundos e bandidos. Essa acção imponderada é punida com a derrocada de todo o edifício, provocando o terror do castigo subsequente. Em «Encontro com Einstein», descobrimos que é o próprio Diabo quem secretamente incentiva as descobertas científicas do génio. Em histórias como «Rigoletto», ou «A Máquina» são os próprios objectos, as máquinas modernas, que em confronto com o mundo dos mitos e da natureza, assumem uma personalidade autónoma que incarna todos os aspectos negativos do Homem: vaidade, inveja e crueldade. Assim é o terceiro volume de contos publicado pelo autor (depois de «Os sete mensageiros» e «Pânico no Scala»), «A derrocada da Baliverna», é apontado pelo público e pela crítica como um dos livros mais conseguidos na carreira de Dino Buzzati.

Dino Buzzati "A derrocada da Baliverna" cavalo de ferro, 2008
trad. Margarida Periquito

«(…)
Choravas sempre no cinema, disse-lhe eu. Davas pequenas pancadinhas junto aos olhos para sacares as lágrimas.
A forma como conduzias o eléctrico rapidamente pôs termo a tudo isso!
Não, tu choravas quase todas as semanas.
Posso contar-te uma coisa? Não sei se já tinhas reparado no elevador de Santa Justa, ali em baixo? É propriedade da companhia que gere os eléctricos de Lisboa. É um elevador que efectivamente não leva a lado algum. Põe as pessoas lá em cima para verem as vistas a partir da plataforma e depois trá-las novamente para baixo. Então um um filme pode fazer a mesma coisa, John. Põe-te lá em cima e traz-te depois para baixo, para o mesmo lugar. Esta é uma das razões por que as pessoas choram no cinema.
Eu pensava…
Não penses! Há tantas razões para se chorar no cinema quantas as pessoas a comprarem bilhetes.
(…)»

John Berger, in "Aqui nos encontramos" civilização, 2007

Hans Zimmer



Tony Scott [ True Romance ] 1993

George Tipton



Terrece Malick [ Badlands ] 1973

CAMINHO

que rua é esta que nos separa
ao longo da qual seguro a mão dos meus pensamentos
uma flor está escrita na ponta de cada dedo
e o fim da rua é uma flor que caminha comigo

Tristan Tzara, in "Qual é a minha ou a tua língua?" assírio & alvim, 2008
trad. Jorge Sousa Braga

NOVAS IMPRESSÕES DE ÁFRICA

((((((Tais como: — a sombra, ao meio-dia, no mostrador solar,
Mostrando que o estômago reclama o seu manjar;
— Pois pelo gelo, negue-o ou não, o metro padrão;
— Desafiando a lama, da dobra de um calção;
— Uma folha de jornal no buraco da retrete;
— A bota esburacada cujo salto se derrete;
— O que, atento, um rabino desgrenha com a unha;
— A pilha de talheres que o lacaio na mesa punha;
— Pelo barbeiro rodadas, as quentes costas da cadeira;
— O metro que, ao despertar, um veterano hasteia;
— Julieta, na gala de Ejur, e Romeu
Por dois mimos crianças, feitos grátis pro Deo;
— O ferro que, em cena, um bravo quebra à mão;
— Um sacristão, salivando, indo à missa pelo pão;
— O espargo posto de lado, uma vez dada a dentada;
— Mortalmente ferido o verme, ao cair da enxada;
— Bengala a meio ferrão, quando há um falso alerta;
— A estante elevadíssima à musica fresca aberta;
— Quando um menino ao piano anda à roda no assento;
— O velho bloco-notas, outrora corpulento;
— A pausa que se faz depois da sopa comida;
— A mortalha do cigarro colocada sobre a ferida;
— O bafo deixando nódoa no espelho que entristece;
— Ao primeiro relâmpago, a vela de rizes estremece;
— Após lauto banquete, a mesa rearredondada;
— A arca onde, agressiva, sobe a água a ser estudada;
— Para o torvo hálito do fumador, a acendalha;
— O rabo aparado em sangue que ao totózinho calha;
— Quando a amestragem age, ocioso é o cinto;
— Se calha cair-lhe a cabeça, o amorfo extinto;
— O tubo aberto e chato que um aprendiz enrola;
— Se o botão cai de maduro o elástico encaracola;
— Quando a cama ganha ao berço, ao espaço algo acontece;
— O taráxaco que, por querer, bafo cruel fenece;
— Executadas as pontas, a bailarina esplendente;
— O acto interpretado pelo Dr. X, de um delinquente;
— Quando a mangueira cede à sede, o jacto em lança;
— O fio que pela aranha escalado se balança;
— Sobre um tapete verde, um homem primata;
— Um charuto reduzido a uma simples beata;
— O disco do sol em pleno céu de Neptuno;))))))

Raymond Roussel

in, André Breton "Antologia do Humor Negro" edições afrodite, 1973
trad. Luisa Neto Jorge




É ASSIM QUE COMEÇAM

É assim que começam. Pelos dois anos
trocam a ama pelo enigma das canções.
Gorcejam, assobiam, — e as palavras
surgem por volta dos três anos.

É assim que começam a entender.
E no ruído pior que uma turbina
parece que a mãe não é mãe,
que eles não são eles e a casa é outra.

Que fazer da terrível beleza
que se senta no banco lilás?
Realmente quer roubar crianças?
E assim nascem as suspeitas.

Assim amadurecem os receios. Aceitar
a estrela alta inatingível,
quando se é Fausto, quando se é visionário?
É assim que começam os ciganos.

É assim que se abrem, voando alto
sobre as cercas, onde estão as casas ausentes,
dos mares súbitos como suspiros.
É assim que nascerão os jambos.

Assim nas noites de Verão, de barriga
na areia, e a súplica: Seja!
Ameaçam a aurora com a tua pupila.
E até se atrevem a discutir o sol.

É assim que começam a viver de poesia.


Boris Pasternak, "Antologia da Poesia Soviética Russa - I" livros horizonte, 1983
trad. Manuel de Seabra

Lançamento...


Lançamento: Slavoj Žižek, Lacrimae Rerum - ensaios sobre Kieslowski, Hitchcock, Tarkowski e Lynch, orfeu negro, 2008


Sábado dia 28 de Junho / 21.30




C/ A presença do Autor
Apresentação de Pedro Mexia

ironias do destino…


John Kennedy Toole nasceu em Nova Orleães a 7 7 de Dezembro de 1937. Não existem muitos dados acerca da sua vida, aliás bem curta, pois suicidou-se aos 31 anos, a 26 de março de 1969. Sabe-se que não teve uma infância fácil, mas revelou ser um rapaz especialmente dotado — excelente aluno, talento para a musica e para a escrita. Teve bolsas de estudo para frequentar as universidades de Tulane e Colômbia. Tinha apenas 16 anos quando escreveu o seu primeiro livro — A Bíblia de Néon —, que apresentou, sem êxito, a um concurso literário. E, durante os dois anos de tropa, em Porto Rico, escreveu um segundo e último romance — Uma Conspiração de Estúpidos, terramar, 1998 —, muito mais elaborado. Mas não teve melhor sorte. Começou por submetê-lo à aprovação de uma das mais importantes editoras americanas, que o recusou. O mesmo destino por parte de outras sete. A frustração que lhe foi criada por tão longa série de insucessos tê-lo-á levado a optar pelo suicídio. Quem poderia dizer que Uma Conspiração de Estúpidos seria publicado em 1980, para receber, uma ano depois, o prémio Pulitzer? Ironias do destino. Do mesmo modo, não fora o êxito póstumo deste segundo romance, o primeiro — A Bíblia de Néon — jamais seria, provavelmente, publicado.

John Kennedy Toole "A Bíblia de Néon" terramar, 1992
trad. Ana Barradas

Albert Cossery, Cairo 1913/ Paris 2008



«um idiota preguiçoso continua sempre a ser um idiota! E um preguiçoso inteligente é alguém que reflectiu acerca do mundo em que vive, não se trata, pois, de preguiça. É tempo de reflexão. E quanto mais preguiçoso fores, mais tempo tens para reflectir. E é por isso que, no oriente, isso se designa por filosofia oriental... A maior parte das pessoas tem tempo. Quanto mais se desce para sul, mais encontramos profetas, magos, pessoas que reflectiram sobre o mundo.»

F. Scott Fitzgerald




David Fincher [ The Curious Case of Benjamin Button ] 2008

PARA MAIS DO QUE EU

Sou aquele que busca
Um caminho.
Para tudo o que é mais
Do que
Metabolismo
Circulação sanguínea
Alimentação
Decomposição das células.

Sou aquele que busca
Um caminho
Que é mais largo
Do que eu.

Não demasiado estreito
Não a via-de-um-homem-só.
Mas tampouco
A poeirenta estrada
Mil vezes percorrida.

Sou aquele que busca
Um caminho.
Um caminho
Para mais
Do que eu.


Günter Kunert, in "90 poemas" apáginastantas, 1983
trad. ttvv


A PREGUIÇA


«A alma adora nadar.

Para nadar deitamo-nos de barriga. A alma desencaixa-se, e lá vai. Lá vai a nadar. (Se a sua alma partir quando você estiver de pé, ou sentado, ou de joelhos dobrados, ou de cotovelos dobrados, em cada posição diferente do corpo a alma partirá num andamento e numa forma diferentes; explicarei isso mais tarde.)

Fala-se muita vez em voar. Não é isso. O que é preciso é nadar. E a alma nada como as serpentes e as enguias, nunca de outra forma.

Uma data de pessoas têm, assim, uma alma que adora nadar. Chamam-lhes vulgarmente preguiçosas. Quando a alma sai do corpo pela barriga, para nadar, opera-se uma tal libertação de não sei quê, um abandono, um prazer, uma descontracção tão íntima.

A alma vai nadar para o vão da escada, ou para a rua consoante a timidez ou a audácia do homem, pois mantém sempre um fio entre ele e ela, e se esse fio se rompesse (às vezes é muito frágil, mas seria precisa uma força terrível para romper o fio), seria um desastre para ambos (para ela e para ele).

Quando, portanto, se encontra ocupada a nadar ao longe, por esse simples fio que liga o homem à alma escoam-se volumes e volumes duma espécie de matéria espiritual, uma espécie de lama, assim como o mercúrio, ou como um gás — prazer sem fim.

É por isso que o preguiçoso é incorrigível. Nunca mudará. É por isso também que a preguiça é a mãe de todos os vícios. Pois, quem há mais egoísta do que a preguiça?

Ela tem bases que o orgulho não tem.

Mas as pessoas encarniçam-se contra os preguiçosos.

Quando estão deitados, batem-lhes, despejam-lhes água fria na cabeça, e eles devem puxar rapidamente pela alma. Olham-nos então com aquele olhar de ódio, que bem conhecemos, e se observa sobretudos nas crianças.»


Henri Michaux,in "As Minhas Propriedades" fenda, 1998

trad. José Carlos González

Travis a Louie










www.travislouie.com

DUAS VIDAS


Vivemos duas vidas — uma com os olhos abertos e uma com os olhos fechados. Com os olhos abertos percebemos o universo exterior. Com os olhos fechados exploramos o cosmos interior. Passo o dia todo com os olhos fechados a tropeçar em pessoas e coisas. É por isso que já não guio.


A CULPA


Não podemos amar uma pessoa que nos faz sempre sentir culpados.


DESENCANTO


Saio de manhã de casa para tomar um expresso no Canova. Olho pela janela e observo as pessoas que passam numa ou noutra direcção. É a mesma rua que conheço há quarenta anos. Mas a pureza já não existe. Ninguém é autêntico. Já ninguém sonha.


CALVÍCIE


A única vantagem de se ficar careca é que nos vemos livres da caspa tirando-lhe o seu esconderijo.


JULGAR OS OUTROS


Se sou cruel como autor de sátiras, pelo menos não sou hipócrita: nunca julgo o que farão os outros. Nunca censuro o que os outros fazem, à maneira de um polícia ou de um padre. Nunca me preocupo com tentativas de analisar ou de resolver os meus medos e as minhas neuroses, como um filosofo ou um psiquiatra. Se fizesse, deixaria de ter motivos para fazer um filme. A realização é a minha única e exclusiva cura, uma terapia de celulóide que me mantém de boa saúde.

VIDA

O efémero , como eu costumo dizer sempre, é uma parte constante da condição humana. Somos simples turistas numa terra chamada vida.


RELÓGIOS


Toda a gente sabe que o tempo é a morte, que a morte se esconde nos relógios. Apesar de tudo, se impusermos um outro tempo, que é alimentado pelo relógio da imaginação, podemos rejeitar a sua lei. Aí, livres da foice do triste ceifeiro, aprendemos que a dor é conhecimento e que todo o conhecimento é dor.


CINEMA E LITERATURA


Toda a obra de arte vive no meio em que foi concebida e através da qual se exprime a si própria. Adaptar um romance ao cinema significa transpor situações romanescas para outro meio que tem ritmos e uma cadência particulares. O cinema não precisa da literatura. É certo que existem excepções magnificas como a Morte em Veneza do Visconti, mas nesse caso, o realizador criou uma outra dimensão relativamente ao romance de Mann. Pegou numa obra-prima para criar outra obra-prima utilizando a fantasia mágica da linguagem cinematográfica, mas de um modo tão essencial que resulta em pura alquimia.


OS POETAS


O dinheiro está em toda a parte, mas a poesia também. O que falta são os poetas, Os produtores dizem que são poetas, é verdade, porque acreditam que têm um público. Eu faço o que faço porque é só isso que sei fazer. É como se tivesse sido feito, mais ou menos penosamente, mais ou menos felizmente, para ser realizador. A vida real não me interessa.


A FIDELIDADE


É mais fácil ser-se fiel a um restaurante do que a uma mulher.


O DECLÍNIO DO CINEMA


Sou muito pessimista porque creio que o público já não tem simpatia pelo grande ecrã. Mas não quero continuar a repetir as razões que seriam a causa da desafeição do público: a televisão, o medo de sair à noite, as repugnantes condições do cinema em Itália. O público perdeu o hábito de ir ver um filme porque o cinema perdeu o seu fascínio, o carisma hipnótico, a autoridade que outrora teve. A autoridade que outrora teve para todos nós — a de um sonho que sonhámos de olhos abertos — desapareceu. Será ainda possível que 1000 pessoas possam reunir-se às escuras e fazer a experiência do sonho dirigido por um único indivíduo?


O OUTRO EU


Às vezes, ao rever por acaso, porque nunca volto a ver os meus filmes, mas tem-me acontecido ou ver uma fotografia tirada de um filme meu, ou ver na televisão uma passagem de um deles— o Casanova, o Satyricon —, muitas vezes tem ocorrido espontaneamente a pergunta: Mas como é possível que um rapar de Rimini tenha realmente… Mas como é que eu fiz para impor a minha vontade a milhares de pessoas, para levar a cabo isto tudo? Fica-me um sentimento de estupor. Por isso devo imaginar, com relativa humildade naturalmente, que no momento em que me torno um cineasta, sou evadido por um habitante obscuro, um habitante que não conheço, que toma as rédeas da barraca na mão, que dirige tudo por mim enquanto eu ponho à sua disposição simplesmente a minha voz, o meu sentido artesanal, as minhas tentativas de sedução, ou de plágio ou de autoridade, mas na realidade ele é um outro, um outro com quem convivo, mas que não conheço de maneira directa, que não conheço senão, assim, é isso, por ouvir falar. Algumas vezes quando leio as críticas dos meus filmes, acabo por saber algumas deste outro.



Federico Fellini, in "sou um grande mentiroso, uma conversa com Damian Pettigrew" fim de século, 2008

trad. Miguel Serras Pereira


O meu coração nasceu nu,
logo em fraldas embalado.
Só mais tarde usou
poemas em vez de roupas.
Tal como a camisa que punha
levava sobre o corpo
a poesia que lera.

Vivi meio século assim
até que, sem uma palavra, nos encontrámos.

A minha camisa nas costas da cadeira
diz-me que hoje percebi
quantos anos
a decorar poemas
esperei por ti.


John Berger, in "E os nossos rostos, meu amor, fugazes como fotografias" quasi, 2008
trad. Helder Moura Pereira

ilustr. Gerad Dubois

PREFÁCIO

Annemarie Schwarzenbach foi, durante meio século, um dos segredos mais bem guardados da literatura europeia. Não que lhe tenham faltado encómios e a atenção de escritores ilustres, Roger Martin Du Gard referiu-se ao seu «belo rosto de anjo inconsolável»; Thomas Mann (cujos filhos foram, a certa altura, os amigos mais chegados de Annemarie) descreveu-a como um «anjo devastado»; Carson McCullers, que lhe dedicou o romance Reflexos nuns Olhos de Oiro, confessou: «assim que a vi soube que o seu rosto me perseguiria para toda a vida». É verdade que lhe é mais salientada a imagem perturbante, de uma beleza andrógina e icónica, do que a força literária. Nem poderia ser de outro modo, provavelmente. A obra de Annemarie Schwarzenbach — nascida em Zurique, em 1908 — é, em grande medida, trágicamente póstuma. Só no final dos anos oitenta do XX se iniciou o processo de redescoberta de uma figura que encarna, de forma ímpar, um certo mal-estar europeu. Foi esse mal-estar que tornou Annemarie Schwarzenbach uma viajante incansável. Portugal seria um dos seus pontos de passagem e era o destino que tinha escolhido para se fixar, como repórter, em plena II Guerra Mundial, na altura em que uma queda de bicicleta a vitimou, aos 34 anos. Seria, no entanto, o Médio Oriente o cenário que ela havia de eleger como território privilegiado para uma deambulação angustiada, em busca de qualquer coisa que não saberá nunca definir com exactidão. A dependência da morfina e uma identidade sexual em confronto como seu tempo e com as normas sociais vigentes na alta sociedade suíça, onde nasceu, talvez ajudem a compreender o grito de permanente aflição que — recorrendo ao subterfúgio da segunda pessoa do singular para falar de si própria — a leva a exclamar, neste livro: «quando começaste a respirar, não foi ar que inspiraste, mas solidão». Morte na Pérsia, livro escrito na primeira metade dos anos 30 mas que se manteria inédito até 1995, é um relato de viagens como nenhum outro. Annemarie parte para tentar escapar à ascensão alarmante do nazismo na Europa mas também à família, à infelicidade amorosa e à sua própria depressão. Empreende assim uma viagem (como acontecerá nas que há-de fazer ao Afeganistão, por exemplo) em que se depara com a impossibilidade radical de fugir de si mesma. É isso que a levará a escrever: «Atrás de mim, na parede que deixava ouvir tudo, o medo escondia-se numa brecha escura.» As paisagens persas adquirem as tonalidades da melancolia e da angústia da escritora, numa associação entre o sujeito e o mundo que o rodeia que talvez só tenha paralelo nos versos célebres de Verlaine (Il pleure dasn mom coeur / Comme il pleut sur la ville), encontrando na chuva sobre a cidade o eco do seu próprio choro. É esta viagem, simultaneamente por estrada e pelos atalhos mais recônditos da alma humana, que faz de Morte na Pérsia um livro comovente.

Carlos Vaz Marques

Annemarie Schwarzenbach "Morte na Pérsia" tinta da china, 2008
trad. Isabel Castro Silva


ANNEMARIE SCHWARZENBACH nasceu em Zurique, em 1908, numa família próspera e aristocrática. Cresceu numa propriedade rural da família, regularmente visitada pela elite cultural da época. Estudou História na Sorbonne. Viveu em Berlim, cidade das artes de vanguarda, e foi aqui que se envolveu com o mundo artístico da literatura, do cinema e da música. Foi também em Berlim que encontrou espaço para exprimir a sua identidade homossexual. Activamente empenhada contra o nazismo, concebeu uma revista anti-fascista, dirigida por Klaus Mann, para a qual contribuíram alguns dos mais brilhantes pensadores e escritores da época: Hemingway, Eistein, Brecht, Cocteau.
É depois deste período que Schwarzenbach se lança às grandes viagens de muitos meses, nomeadamente ao Médio Oriente, em expedições arqueológicas: Turquia, Damasco, Jerusalém, Bagdade, Teerão. Em 1935, após uma desintoxicação de morfina e de uma tentativa de suicídio, casou-se com um diplomata francês. Entre 1936 e 1937 viajou pelos Estados Unidos, país imerso na Grande Depressão, onde faz várias reportagens fotográficas. Travou conhecimento com Carson McCullers, que viria a dedicar-lhe um romance (Reflexos nuns Olhos de Oiro, estudios cor, 1959). Voltaria de novo ao Oriente: Afeganistão, Índia.
Passou por Lisboa, onde conheceu António Ferro.
Ao longo de todos estes anos publicou diversos livros e artigos sempre na iminência de escrever a sua grande obra. Fez uma última grande viagem ao Congo Belga, antes de morrer tragicamente, com 34 anos, em consequência de uma queda de bicicleta.



CHUVA OBLÍQUA 

     

I


Atravessa esta paisagem o meu sonho dum porto infinito
E a cor das flores é transparente de as velas de grandes navios
Que largam do cais arrastando nas águas por sombra
Os vultos ao sol daquelas árvores antigas...


O porto que sonho é sombrio e pálido
E esta paisagem é cheia de sol deste lado...
Mas no meu espírito o sol deste dia é porto sombrio
E os navios que saem do porto são estas árvores ao sol...


Liberto em duplo, abandonei-me da paisagem abaixo...
O vulto do cais é a estrada nítida e calma
Que se levanta e se ergue como um muro,

E os navios passam por dentro dos troncos das árvores
Com uma horizontalidade vertical,
E deixam cair amarras na água pelas folhas uma a uma dentro...


Não sei quem me sonho...
Súbito toda a água do mar do porto é transparente
e vejo no fundo, como uma estampa enorme que lá estivesse desdobrada,

Esta paisagem toda, renque de árvore, estrada a arder em aquele porto,

E a sombra duma nau mais antiga que o porto que passa
Entre o meu sonho do porto e o meu ver esta paisagem
E chega ao pé de mim, e entra por mim dentro,
E passa para o outro lado da minha alma...

    

(…)


VI


O maestro sacode a batuta,
E lânguida e triste a música rompe...


Lembra-me a minha infância, aquele dia
Em que eu brincava ao pé de um muro de quintal
Atirando-lhe com uma bola que tinha dum lado
O deslizar dum cão verde, e do outro lado
Um cavalo azul a correr com um jockey amarelo...


Prossegue a música, e eis na minha infância
De repente entre mim e o maestro, muro branco,
Vai e vem a bola, ora um cão verde,
Ora um cavalo azul com um jockey amarelo...


Todo o teatro é o meu quintal, a minha infância
Está em todos os lugares, e a bola vem a tocar música,
Uma música triste e vaga que passeia no meu quintal
Vestida de cão tornando-se jockey amarelo...
(Tão rápida gira a bola entre mim e os músicos...)


Atiro-a de encontro à minha infância e ela 
Atravessa o teatro todo que está aos meus pés
A brincar com um jockey amarelo e um cão verde
E um cavalo azul que aparece por cima do muro
Do meu quintal... E a música atira com bolas
À minha infância... E o muro do quintal é feito de gestos
De batuta e rotações confusas de cães verdes
E cavalos azuis e jockeys amarelos...

Todo o teatro é um muro branco de música
Por onde um cão verde corre atrás de minha saudade
Da minha infância, cavalo azul com um jockey amarelo...


E dum lado para o outro, da direita para a esquerda,
Donde há arvores e entre os ramos ao pé da copa
Com orquestras a tocar música,
Para onde há filas de bolas na loja onde comprei
E o homem da loja sorri entre as memórias da minha infância...


E a música cessa como um muro que desaba,
A bola rola pelo despenhadeiro dos meus sonhos interrompidos,
E do alto dum cavalo azul, o maestro, jockey amarelo tornando-se preto,

Agradece, pousando a batuta em cima da fuga dum muro,
E curva-se, sorrindo, com uma bola branca em cima da cabeça, 
Bola branca que lhe desaparece pelas costas abaixo...



Fernando Pessoa, in "O surrealismo na poesia portuguesa" frenesi, 2002

org. Natália Correia


«De diversos modos referência inevitável dos surrealistas, seu confessado precursor, o Pessoa plural, como temos que o aceitar, sondador também ele das zonas rarefeitas e abissais, mas por via da divisão e da multiplicação, não podia deixar de constituir um desafio para os seguidores portugueses de Breton, na sua aspiração à unidade tendo de defrontar-se com um «escândalo», com um «monstro», ao mesmo tempo motivo de fascínio e de edipiana rejeição — figura tutelar que, afinal, terá ajudado a abrir, quiçá com um esfíngico sorriso do Além-túmulo, os caminhos da convulsiva aventura surrealista entre nós.»


Fernando J. B. Martinho, in "Pessoa e os surrealistas" hiena, 1988


OBSTÁCULO

Falaram-me dum restaurante de luxo onde há as mais diversas iguarias. Há lá suportes de pratos com música, garrafas de dois gargalos, copos de pé e uma magnifica porta de entrada.
— As portas mais magnificas são essas em que por detrás se lê: "Abram em nome da lei".
— Prefiro, a esses dramas, o voo silencioso das abetardas e a tragédia familiar: o filho que parte para as colónias, a mãe que chora e a irmãzinha que pensa no colar que o irmão lhe há-de trazer. Quanto ao pai, regozija-se sem o mostrar, pois pensa que o filho acaba de se deparar com uma boa situação.
— Fui protegido, desde a mais tenra idade, por um animal doméstico, e no entanto sempre preferi uma daquelas historietas de antanho ao bafo quente da sua língua junto às minhas bochechas.
— Pode-se beber este licor verde com a ponta dos beiços, mas é mais conveniente encomendar um tónico.
— Os forçados esforçam-se imenso a fim de manterem a seriedade. Não lhes fale desses raptos sobrenaturais; a rapariguinha ainda trás o cabelo pelas costas.
— Por conseguinte, só há, para favorecer as evasões, esses carros cinzentos. Todos os dias, pelo meio-dia, alguém se escapa.
— Que ele tenha cuidado com essas escadas que são atiradas horizontalmente sobre as avenidas e que são, todas elas, de todos os. Agarre-a!
— Ele ri-se. Ora veja, aqui tem você um indivíduo que se aproxima de nós a correr.
Nem um só grito sairá dos nossos lábios. Ele corre mais depressa que as palavras.


André Breton e Philippe Soupault
[dadaphone (nº7), Paris, Março de 1920]

in "Pravda 2" fenda, 1983

Chuck Palahniuk


Clark Gregg [ Choke ] 2008

Bohumil Hrabal


Jiri Menzel [ I Served the King of England ] 2008

Quando eu era criança
brincava sozinho
num canto do pátio
da escola.

Eu odiava bonecas e
odiava jogos, os animais
eram inamistosos e os pássaros
levantavam voo e fugiam.

Se alguém me procurava
escondia-me atrás de uma
árvore e gritava «Eu sou
um órfão».

E agora aqui estou, o
centro de toda a beleza!
escrevendo estes poemas!
Quem diria!


Frank O'Hara, in "vinte e cinco poemas à hora do almoço" assírio & alvim, 1995
trad. José Alberto Oliveira

perdidos & achados



Art Linson [ Where the Buffalo Roam ] 1980

MCA, 1980

EU NÃO QUERIA ENGANAR-ME

Eu não queria enganar-me, porém
trago uma ansiedade no coração confuso.
Porque é que eu passo por ser um charlatão,
porque é que eu passo por ser um escandaloso?

Nem biltre fui nem ladrão de estrada,
nem fuzilei inocentes na prisão.
Sou apenas um pobre boémio
que sorri a todos os que encontra.

Eu sou um moscovita folgazão e vadio.
Por todo o bairro de Tverskáia
pelas ruelas todos os cães
conhecem o meu andar ligeiro.

Todos os cavalos roídos
baixam a cabeça quando me encontram.
Sou um bom amigo dos animais,
cada verso meu cura-lhes a alma.

Vou de chapéu alto mas não para as mulheres,
não bate forte o meu coração por tormentos tolos —
para acalmar a sua tristeza ele prefere
dar às éguas o oiro das searas.

Entre os homens amizades não tenho,
e resigno-me a um reino diferente.
Estou pronto a pôr a minha melhor gravata
ao pescoço de qualquer vadio.

Agora já não quero sofrer mais.
É tempo de lavar o coração confuso.
E é por isso que passo por charlatão,
e é por isso que passo por escandaloso.


Serguéi Iessénine, in "Antologia da Poesia Soviética Russa I" livros horizonte, 1983
trad. Manuel de Seabra

«(…). Também conheço os prédios. Quando vou pela rua, cada um deles como quem me ultrapassa a correr para se virar e olhar para mim, com as janelas bem abertas, e só lhe falta dizer: «Bom dia, como está? Eu também estou bem, graças a Deus, em Maio vão acrescentar-me um andar» Ou: «Então, como passa? Quanto a mim, amanhã vou para obras.» Ou: «Por pouco não ardi todo, apanhei cá um susto», e assim por diante. Entre eles, tenho os meus favoritos, tenho os meus amigos íntimos também; um deles planeia tratar-se, neste Verão, num arquitecto qualquer. Vou todos os dias visitá-lo, expressamente, não lhe faça ainda pior o tratamento, Deus o guarde!…(…).»

Fiódor Dostoiévski, in "Noites Brancas" assírio & alvim, 2001
trad. Nina Guerra e Filipe Guerra

Para os mais novos...

Acaba de ser recentemente editado pela Kalandraka o álbum infantil "Discurso do Urso", escrito por Julio Cortázar e maravilhosamente ilustrado por Emilio Urberuaga.

MISTICISMO

Apetecia-me ser de seda e chagas, como os santos,
Que brocassem de oiro a dobra do vestido,
E me coroassem de mitras e me espetassem de flechas,
Que me dessem, as mulheres os seus cordões, por promessa,
E mos roubassem, os ladrões, por profanação,
E me retocassem, por ano, o roxo das feridas apetecíveis,
Que o santeiro endoidecesse e me doirasse os cabelos e o sexo,
E que os povos, depois, proclamassem o milagre.

Andar em cima do andor a exibir as pústulas e o luxo
Até que um ricaço mandasse pôr em rubis
O meu sangue de esmalte luzidio…
Estar, assim, no pensamento das velhas,
Na cama, com as viúvas,
E nos olhos de todas as mulheres, como um deslumbramento…

Como eu queria ter um padre de escola para me fazer o sermão da festa!
E, findo o incêndio da igreja, depois da propaganda subversiva,
Ficar numa cova de esterco a reluzir os olhos de porcelana
Aliviado do oiro e liberto das feridas
Por causa dos rubis para vender em leilão!


António Pedro, in “Antologia Poética” angelus novus, 1998
Foto Fernando Lemos [ sonhos altos ] 1949

É hoje inaugurada a exposição «Correspondências», na Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva.
Em exposição, estará a correspondência trocada entre o casal de artistas Vieira da Silva / Arpad Szenes e Mário Cesariny.
A exposição poderá ser vista até 4 de Outubro.

uma boa notícia...




Alex Gibney [Gonzo: The Life and Work of Dr. Hunter S. Thompson] 2008

no prelo [ assírio & alvim ]


Mário-Henrique Leiria, Poesia 1939-1972

Jean Cocteau, O Livro Branco

Erri de Luca, Caroços de Azeitona

Guillaume Apollinaire, O Heresiarca & C.ª,

Paul Bowles, Lá por Cima do Mundo

César Aira, Aventuras de um Pintor Viajante

David Malouf, Recordando a Babilónia

Jules Renard, O Pendura

Jorge Edwards, O Inútil da Familia

Gershom Scholen, Walter Benjamin e o seu Anjo / Giorgio Agamben, Walter Benjamin e o Demoníaco

A EXPLICAÇÃO DAS METÁFORAS

Longe do tempo e do espaço um homem se perdeu
Fino como um cabelo, vasto como a aurora.
Narinas espumantes, olhos esgazeados,
Com as mãos estendidas a tactear o cenário.

— Que, aliás, não existe — objectar-me-ão.
Pois que significação tem esta metáfora
«Fino como um cabelo, vasto como a aurora»?
E essas narinas fora das três dimensões?

Se falo do tempo, é porque não é ainda.
Se falo dum sítio, esse lugar sumiu-se.
Se falo dum homem, em breve morrerá.
Se falo do tempo, o tempo terminou.

Se falo do espaço, um deus vem destruí-lo,
Se falo dos anos, é para aniquilar,
Se oiço o silêncio, um deus põe-se a mugir
E os seus gritos repetidos incomodam-me.

Estes deuses são demónios: rastejam pelo espaço
Finos como um cabelo, amplos como a aurora,
Narinas espumantes, a baba pelas faces
E as mãos estendidas a tactear um cenário.

— Que, aliás, não existe — objectar-me-ão.
Pois que significação tem esta metáfora
«Fino como um cabelo, vasto como a aurora»?
E estas faces fora das três dimensões?

Se falo dos deuses, é porque cobrem o mar
Com o seu peso infinito e o voo imortal.
Se falo dos deuses, é porque povoam os ares,
Se falo dos deuses, é porque são perpétuos.

Se falo dos deuses, é porque vivem sobre sob a terra,
Insuflando no solo seu hálito vivaz,
Se falo dos deuses é porque eles chocam o ferro,
Amassam o carvão, distilam o zenabre.

Deuses ou demónios? Enchem o tempo todo
Fino como um cabelo, amplo como a aurora?
Os olhos estalados, narinas espumantes,
E as mãos estendidas a tactear um cenário.

— Que, aliás, não existe — objectar-me-ão.
Pois que significação tem esta metáfora
«Fino como um cabelo, vasto como a aurora»?
E porquê estas mãos fora das três dimensões?

Sãos demónio, sim. Um desce, o outro sobe.
A cada noite, um dia, a cada monte um vale.
A um dia uma noite, à árvore sua sombra.
Um nome a cada ser, a todo o bem seu mal.

Sim, são reflexos, imagens negativas,
Agitando-se em figuras imóveis,
Lançando-se no vácuo em viva multidão
E formando um duplo para cada verdade.

Mas o homem — um deus, um demónio — perdeu-se
Fino como um cabelo, vasto como a aurora,
Narinas espumantes, olhos esgazeados,
As mãos estendidas a tactear um cenário.


Raymond Queneau, in
Franco Fortini "O Movimento Surrealista" presença, 1980
trad. António Ramos Rosa

«A tolice não é o meu forte. Vi muitos indivíduos; visitei várias nações; tomei parte em cometimentos vários de que não gostei; quase todos os dias comi; e de mulheres também tenho que contar. Revejo agora umas centenas de caras, dois ou três espectáculos, e talvez a substância de vinte livros. Não retive o melhor nem o pior destas coisas: ficou como pôde.
Esta aritmética poupa-me o espanto de envelhecer. Poderia igualmente contar os vitoriosos momentos do meu espírito, imaginá-los juntos e e isolados, a formarem uma vida feliz… No entanto estou em crer que me julguei sempre bem julgado. Raramente me perdi de vista; detestei-me, adorei-me; — depois envelhecemos juntos.»

Paul Valéry, in "O Senhor Teste" relógio d'água, 1985
trad. Aníbal Fernandes

Reza Abedini [ font poster ]

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