Menos teu ventre,
tudo é confuso.
Menos teu ventre,
tudo é futuro
fugaz, passado
baldio, turvo.
Menos teu ventre,
tudo é oculto.
Menos teu ventre,
tudo inseguro,
tudo já último
um pó sem mundo.
Menos teu ventre
tudo é escuro.
Menos teu ventre
claro e profundo.


Miguel Hernández, in "Rosa do mundo" assírio & alvim, 2001
trad. José Bento


Disponível on-line, o novo blogue da Assírio & Alvim.

http://www.assirioealvim.blogspot.com/

Com novidades e actualizações frequentes sobre a editora, os livros, os autores e as iniciativas.

«Perante o mundo, o indiferente não é nem ignorante nem hostil. A tua intenção não é redescobrir as sãs alegrias do analfabetismo, mas, lendo, não conceder algum privilégio às tuas leituras. A tua intenção não é andares nu, é estares vestido sem que isso implique necessariamente requinte ou desleixo; a tua intenção não é deixares-te morrer de fome, mas apenas alimentar-te. Não que queiras exactamente levar a cabo essas acções com toda a inocência, porque a inocência é um termo muito forte: somente, simplesmente, se é que esse «simplesmente» pode ter algum sentido, deixá-las num terreno neutro, evidente, desprovido de qualquer valor, e não, de forma nenhuma, funcional, porque o funcional é o pior dos valores, o mais subtil, o mais comprometedor, mas patente, factual, irredutível; que não haja mais nada a dizer senão: lês, estás vestido, comes, dormes, andas, que sejam acções, gestos, mas não provas, não moedas de troca: o teu vestuário, a tua comida, as tuas leituras deixarão de falar por ti, deixarás de te armar em esperto com eles. Não lhes confiarás a esgotante, a impossível, a mortal tarefa de te representarem.»

Georges Perec, in "O homem que dorme" presença, 1991
trad. Maria Jorge Vilar de Figueiredo

«Continua a afectar-me. Permitam-me que lhes diga que desde sempre a literatura real, a verdadeira, se desenvolveu serenamente até alcançar a categoria de duradoura. A dos donos das toupeiras (...), pelo contrário, é toda aparência, pois praticam-na animais que se fazem passar por escritores e cuja literatura corre a galope através da barulheira e dos gritos dos que a praticam, e apresenta todos os anos milhares de obras no mercado, embora ao cabo dos anos nos interroguemos onde estão e que foi feito do seu renome tão rápido e barulhento; é, pois uma literatura passageira, ao contrário da real, que é permanente, embora nos tempos que correm a real tenha de fazer um esforço cada vez mais duro para resistir à investida dos donos das toupeiras.»

Enrique Vila-Matas, in "O mal de Montano" teorema, 2004
trad. Jorge Fallorca

The Slits



É O QUE É, É O CAFÉ!

Bem sei que muito estratego tem ganho batalhas à mesa do Café, que um número inacreditável de políticos corta e dá à mesa do Café, que ambiciosos projectos literários, plásticos, cinematográficos se têm arquitectado (e gorado) à mesa do Café, mas…
… Eu gosto da Mesa do Café! Salazar não gostava, dizia que o penalizava ver a mocidade queimar o tempo no Café em vez de ir para os Estádios («Ó Mocidade, vai para os Estádios!», não incitava o poeta?) e o seu azar ao café chegava a tal ponto que, quando anulou a semana inglesa de certos sectores da Previdência já, nessa altura (há trinta anos), beneficiavam, declarou que era melhor trabalhar ao sábado de tarde do que ir para os Cafés conspirar. Ele lá sabia…
Curiosamente, gente progressista também ataca o lugar-comum que é o Café. Porque se dará desse pacato ponto de encontro só uma imagem negativa? Quando se quer significar que um revolucionário não é revolucionário, diz-se que é «… de Café». Com os poetas, os pintores, os cineastas, a mesma coisa. Eu penso que há nisto uma grande incompreensão e uma absurda exigência. O Café é o Café e não pode ser mais do que o Café. Não é universidade, academia, clube, quartel-general, sede partidária, campo de trabalho, areópago. É o Café, é o que é! Precursor das mesas redondas (não das monologas somadas uns aos outros), inventor das tertúlias em que velhos e novos, consagrados e desconhecidos convivem democraticamente em torno da democrática bica, o Café viu nascer, a par de muitos faznadões (e o que é, em termos de civilização, um faznadão?), gente que se avantajou nas Artes, nas Letras, na Politica, etc. Quem não recorda os Cafés que, por esse mundo, foram xícara para tantas mexidelas nas referidas Artes, nas supracitadas Letras, ma mencionada Politica? Ora, ora, inimigos do Café! Olhem que ele não esteriliza mais do que qualquer outro lugar de paleio e convívio onde o espelhismo, como é de regra, também faz a sua aparição. E reparem que, no Café, o repentismo crítico, com toda a sua verve, com toda a sua falta de respeito, está sempre à espreita de espelhos para estilhaçar…
Ao Café, pois, e que saiam duas bicas («com laços, Snr. Pina!») para a mesa do canto, que é a dos sisudos!

P.S. – Ah, é verdade! Entre dois cafés, trabalhem…

Alexandre O’Neill, in “Já cá não está quem falou” assírio & alvim, 2008


foto de Fernando Lemos [ melhor cachimbo que chapéu ] 1949

Anna Karina







Jean-Luc Godard [ Vivre sa vie ] 1962

«Relógio imbecil, caminha infame! Os teus ponteiros negros como asa de corvo estacionam em cada minuto interminável. Sinto ímpetos de te atirar para longe, de te pisar. Irónico mordaz, impassível inimigo dos que sofrem, não tens piedade! Quando nos vês felizes, armas-te em leviano, os teus minutos voam… És perverso infesto do demónio!»

Teresa Wilms Montt

DISTRIBUIÇÃO DO TEMPO

Cada vez são mais os que crêem menos
Nas coisas que preencheram as nossas vidas,
Os mais altos, os incontestáveis valores de Platão ou Goethe,
O verbo, a pomba sobre a arca da História,
A sobrevivência da obra, a descendência e as heranças.

Nem por isso caem do céu do neófito
Na ciência que expõe máquinas na lua;
Na verdade, tanto faz que o doutor Barnard
Faça transplantes do coração
Era preferível mil vezes que a felicidade de cada um
Fosse o exacto, o necessário reflexo da vida
Até que o coração insubstituível pudesse dizer simplesmente basta.

Cada vez são mais os que crêem menos
Na utilização do humanismo
Para o nirvana estereofónico
De mandarins e estetas.

Sem que isto queira significar
Que quando houver um instante de inspiração
Não se leia Rilke, Verlaine ou Platão,
Ou se escute os nítidos clarins,
Ou se vislumbre os trémulos anjos
De Angélico.

Julio Cortázar, in "rosa dos mundos" assírio & alvim, 2001
trad. Jorge Henrique Bastos

Heavy Trash...


«As histórias que compõem «O herói das mulheres» são, de uma forma ou de outra, narrações de vidas de pessoas que se sentem inconformadas com o destino que lhes calhou em sorte: um estudante que tem de se preparar para um exame e encontra um enigmático e aventureiro contrabandista, o empregado de um sanatório perdido nas pampas que descobre que a dor dos doentes pode ser usada para produzir energia eléctrica, um jovem aldeão que sempre sonhou ver uma cidade de perto ou um homem que escapa do suicídio iminente porque aceita uma proposta de dormir durante cem anos.
Com uma escrita elegante e uma imaginação singular, Adolfo Bioy Casares criou em «O herói das mulheres» uma galeria de personagens inesquecíveis.»

Adolfo Bioy Casares "O héroi das mulheres" cavalo de ferro, 2008
trad. David Machado

O ÚLTIMO POEMA

Sonhei tanto contigo,
caminhei tanto contigo, falei tanto,
amei tanto a tua sombra
que já não me resta nada de ti.
Só me resta ser uma sombra entre as sombras,
ser cem vezes mais sombra que a sombra,
ser a sombra que virá e voltará a vir
na tua vida ensolarada.

Robert Desnos, in "qual é a minha ou a tua língua?" assírio & alvim, 2008
trad. Jorge Sousa Braga

«Deus era, é, nunca há-de ser mais do que o Imóvel.
Deus é o Imóvel porque ocupa todo o tempo e todo o espaço e não tem, por isto, que mover-se num e noutro.
É aquele que não tem tesão nenhum e convence os entesoados mais feros a deixar de tê-lo.
Pelo êxtase de sentir que somos feitos à imagem do Imóvel, quem não renuncia a pés e patas, ao que lhe põe num sobressalto o entrepatas?
Saber de vez naquilo em que ficamos, como ficamos, onde ficamos, é a fé.
E a fé é a fé de vez.
Quanto ao corpo, que importa o que nele sai ou se esforça para receber ou chegar a outros seres.
A carne não passa de receptáculo do eterno princípio da alma.»

René Crevel, in “Filhas do vento” & etc, 1984
trad. Aníbal Fernandes

O meu riso vai alto,
Mais alto que os chapéus dos cardeais
Mais alto que a esperança
Os meus seios riem quando o sol brilha,
Apesar dos meus fatos apesar do meu noivo.
Feia como sou, sou feliz.
Deus e os vampiros
Amam-me.

Joyce Mansour, in "A rosa do mundo" assírio & alvim, 2001
trad. Mário Cesariny

UMA CONVERSA

Num campo de trigo,
O homem está vestido com uma túnica de renda ocre manchada de vermelho.
O cavalo está nu. Pende-lhe da cauda uma caixa de fósforos donde saem as antenas de uma rã.
O homem está sentado numa almofada com desenhos verdes.
O cavalo montado no homem.
O homem: — Desprezámos o diamante verde?
O cavalo: — Creio que pela lei devíamos fazê-lo. Estando a lei diminuída, o meu espírito pede a redução das velas.
O homem: — Lembra-te, esperto, que o homem não tem o direito de satisfazer os empregados e que mesmo o telefone se recusa a pagar os impostos.
O cavalo: — Compreender é diminuir.
O homem: — Não, visto que ainda não tentámos a nossa sorte. Poderíamos fazê-lo, dado que é mais fácil.
O cavalo: — Não, não, não acredito nessas coisas concretas que devem, apesar da dignidade que possuem, esgotar a lenga-lenga. Canse-os, diga-lhes parvoíces que tirem a coragem, verá como eles nos seguem.
O homem — Para quê? Já não tenho bastantes chatices com que me ocupar, quanto mais o rabo de um milionário.
O cavalo: — O amor que amei sempre me apreciou!
O homem: — Sim, eu também.
O cavalo: — Somos os dois do mesmo naipe.


Gisèle Prassinos
trad. Isabel Hub Faria

foto. Man Ray [ Gisèle Prassinos lendo para André Breton, Paul Éluard, Mario Prassinos, Henri Parisot, René Char e Benjamim Péret ] 1934

in, "antologia do humor negro" afrodite, 1973
org. André Breton

Histórias...


«(...), numa noite de lua cheia saíram ambos de casa, levando ao pescoço as correntes enferrujadas e na alma os seus anos de privação; na montanha, atrás do chalé, meteram-se entre pinheiros de cabeça trémula e pedras pardas, esses dentes de siso de uma natureza a rir-se. Uma vez ali, obrigou-a a pôr-se de joelhos, bem agarrada pelos cabelos, abriu-lhe brutalmente as coxas e enfiou-lhe a língua no umbigo, vergando-a para trás, até a cabeça tocar no chão. Ficou muito tempo a limpar os demónios familiares do seu corpo; e por fim, impressionado pela nudez flácida da esposa submissa que parecia adormecida com a língua de fora, deitou-a na erva já mordida pela lua e saltou-lhe para cima sem ter o trabalho, sequer, de se despir. Ficou em cima dela, com os dentes enterrados nos pescoço ofegante e tenso, a chupar. Deu-lhe uma esfrega, cobriu-lhe o corpo com terra e escarrou uma bílis fresca nos seus olhos; apalpou-lhe a carne, febril, e com a raiva já murcha fez um sinal-da-cruz, dizendo: «Queira Deus que não voltem a ser gémeos».
A mãe não sentiu dor nenhuma. Jazia indolente no chão, com as pernas em arco inundadas de orvalho, lambidas pelos cães vadios da noite, com os seios a falarem baixinho e a cabeça a esvaziara-se aos poucos entre as gulosas gengivas do pai.
O homem levantou-se, cuspiu um dente e sulcou com duas unhadas as tetas tetas da mãe. «Vamos para casa, disse, que tenho os pés a doer».»

Joyce Mansour, in "Júlio César - história nociva-" hiena, 1987
trad. Aníbal Fernandes

COMO ME TRANSFORMEI EM CÃO

É ainda assim completamente insuportável!
Estou rabugento como tudo.
A minha rabugice não é conforme poderia ser a vossa:
apanharia qual um cão o rosto de testa lisa
da lua
e cobrindo-a de latidos.

Deve ser dos nervos…
Vou sair,
dar uma volta.
Mas na rua ninguém consegue acalmar-me.
Uma mulher grita-me qualquer coisa a propósito de uma boa tarde.
Há que responder:
eu conheço-a.
Quero fazê-lo,
mas sinto
que é impossível à maneira dos homens.

Que escândalo!
Estarei a dormir?
Apalpo-me:
sou tal como era,
o rosto a que estou habituado.
Toco no lábio,
por baixo desponta
um canino.

Escondo rapidamente a cara, como para me assoar,
corri para casa dobrando o passo.
Contorno prudente a esquadra mas de repente um grito ensurdecedor:
«Ó da guarda!
Ele tem uma cauda!»

Passei a mão e fiquei hirto!
Isto era mais claro
que todos os caninos,
na minha pressa furiosa não tinha reparado
que sob o casaco
uma enorme cauda tinha estendido o seu leque
e abanava atrás de mim,
uma enorme cauda de cão.

Que irá acontecer?
Um pôs-se a berrar, amotinando a multidão,
ao segundo juntou-se um terceiro, depois um quarto.
Derrubaram uma pobre velha
que benzendo-se gritou qualquer coisa a propósito do diabo.
E quando, a cara eriçada pelas vassouras de enormes bigodes
a multidão se aproximou,
imensa,
maldosa,
eu pus-me a quatro patas
e ladrei:
Au! Au! Au!

Vladimir Maiakovski, in "33 Poesias" quasi, 2008
trad. Adolfo Luxúria Canibal

A Bertrand e a Gradiva têm o prazer de o convidar a estar presente na sessão de lançamento do livro Joaninha, a menina que não queria ser gente de Ana Cristina Leonardo (texto) e Álvaro Rosendo (ilustrações).
O lançamento terá lugar no dia 17 de Maio de 2008, pelas 15h30 na Livraria Bertrand-Roma, na Avenida de Roma nº13B, em Lisboa.
A apresentação da obra será feita por Gonçalo M. Tavares.
Seguir-se-á uma sessão de autógrafos.

O BURRO E O PAPAGAIO

Num moinho, para além do burro que fazia girar a roda, havia um papagaio que sabia dizer ah, desgraçado! e o nome do patrão e muitas outras coisas. Ficaram ambos doentes, e veio o médico.
— É para mim! disse o papagaio. Vão tratar de mim porque são belas as minhas penas.
— Claro que não! respondeu o burro. Foi para mim que mandaram chamar o médico, porque sou eu quem faz girar a roda.
— Mas eu sei dizer ah, desgraçado!
— Mas eu é que faço girar a roda.
— Mas eu cumprimento o patrão quando ele passa.
— Mas eu é que faço girar a roda.
O médico curou o burro e deixou morrer o papagaio.
O mundo está feito assim, e é caso de espanto que o cinzento da pele do burro não cubra a terra inteira e que graciosas penas coloridas não desapareçam por completo.


O HOMEM E OS PEIXES

"Se o homem é tão perigoso para nós quando lança as redes ao ar, o que faremos quando ele conseguir penetrar nas nossas águas?" perguntou uma dourada.
E o tubarão, que tinha experiência, respondeu: "Uma boa refeição."


Italo Svevo, in "Fábulas" & etc, 2001
trad. Célia Henriques

B.B. vs C.C.



Christian-Jaque [ Les Petroleuses ] 1971

CUMPRIR OU NÃO UMA PROMESSA
tragédia em poucas linhas escrita por um novato, i.e., por mim

Era uma vez uma donzela. Mas onde é que eu tenho a cabeça?
Chegou o tempo em que urge pensar. Esfrego a testa e medito.
Ela tinha qualquer coisa que não podia confiar a ninguém, assim uma espécie de mácula, ainda que eu não vá ao ponto de sugerir uma ignomínia.
Era uma vez um rapaz muito dotado que se matou com um tiro por qualquer coisa muito grave.
Vou agora requisitar os serviços de uma massagista.
Acerca da donzelazinha teríamos que ela amava um cavalheiro que retribuía o seu amor.
Tendo ela agora de esconder do mundo, i.e., da sociedade que representa o mundo, qualquer coisa bastante duvidosa, que possivelmente seria a desgraça dele ou, mais modestamente, lhe traria alguns dissabores, o que fazia ela?
Ela disse-lhe: «Nunca poderás casar comigo.» «Pois bem.», foi a resposta dele, «então não me caso contigo, amor da minha vida. Mas se não posso casar contigo, então não me casarei nunca com ninguém.»
Ao que ele a beijou intempestivamente, ou seja, com um ímpeto roçado a licenciosidade, que ela lhe perdoou, por sua vez, por sua vez acrescentando: «Amar-te-ei eternamente, meu querido, i.e., enquanto respirar, i.e., até que o bom Deus me chame para o seu refinadamente decorado e impecavelmente mobilado reino.»
Também ela o beijou, ao que o seu narizinho se achatou um pouco contra o rosto bem-amado.
Despediram-se fogosamente e cada um seguiu o seu caminho, sempre valorosamente cientes da promessa de se amarem para sempre mas nunca conjugalmente.
Mas podiam eles fazer uma promessa assim tão insolente? Estariam eles à altura de um problema de espécie tão elevada, de uma missão tão dificultosa e cheia de sacrifícios?
O que tem a boa natureza a dizer?
A mãe natureza?
Os anos passaram a voar, i.e., o tempo avançou, passo a passo, lento como um martírio.
A donzela manteve a sua palavra, como se esperaria, mas não o objecto do seu desejo, com quem ela não podia casar, pois um negro poder, uma espécie de fardo do passado, pesava sobre o seu pescoço branco como a neve.
Quase que não consigo conter o riso, mas pego no lenço de assoar e tapo a boca e os lábios inflados com os quais comi agora mesmo uma banana.
Ah, donzela com asas de virtude, como mereces o meu louvor, mas para aquele que faltou à sua palavra tenho apenas isto a dizer: «Patife sem vergonha!»
O caso com ele foi o seguinte: cansado da sua promessa, sondou as boas graças de uma qualquer mulher vinda não se sabe donde.
Ela revelou ser linda de morrer.
E ele firmou com ela um pacto vitalício, uma espécie de aliança de defesa e contra-ataque, estouvado homem, e irradiando alegria subiu com ela ao altar, enquanto as crianças lhe atiravam aos pés coroas de flores que o próprio prazer de viver parecia ter entrelaçado, e ao mesmo tempo a sempre fiel, informada do acontecimento e rodeada pelo estridor do órgão que acompanhava os outros dois à felicidade futura, fenecia de tristeza no seu quartinho, e com isto fica dito que ela mostrou uma atitude muito valorosa, a saber, despediu-se da vida tecendo um baraço da sua afeição ou asfixiando na palavra dada.
A constante e honrada mulher foi levada de casa num caixão.

Robert Walser, in "Histórias de Amor" relógio d'água, 2008
trad. Isabel Castro Silva

1.Já sentiu, pelo menos uma vez, o desejo de chegar tarde ao trabalho, ou de sair mais cedo?

Nesse caso, compreendeu que:

a) O tempo de trabalho conta a dobrar porque é tempo perdido duas vezes:
- como tempo que seria mais agradável empregar no amor, no sonho, nos prazeres, nas paixões, como tempo do qual se disporia livremente.
- como tempo de desgaste físico e nervoso.

b) O tempo de trabalho absorve a maior parte da vida porque determina também o tempo dito «livre», o tempo de descanso, de deslocações, de refeições de distracção. Atinge assim o conjunto da vida quotidiana de cada um, e tende a reduzi-la a uma sucessão de instantes e de lugares, que têm em comum a mesma repetição vazia, a mesma ausência crescente de vida verdadeira.

c) O tempo de trabalho forçado é uma mercadoria. Onde quer que haja mercadoria, há trabalho forçado e quase todas a actividades se identificam, pouco a pouco, com o trabalho forçado: produzimos, consumimos, comemos, dormimos para um patrão, para um chefe, para o Estado, para o sistema da mercadoria generalizada.

d) Trabalhar mais é viver menos.


Ratgeb [Raoul Vaneigem], in “da greve selvagem à autogestão generalizada” assírio & alvim, 1974