MARINHEIRO

Aquele pássaro que voa pela primeira vez
afasta-se do ninho olhando para trás

Com o dedo nos lábios
Chamei-vos

Inventei jogos de água
na copa das árvores

Tornei-te a mais bela das mulheres
tão bela que enrubescias nas tardes

A lua afasta-se de nós
e lança uma coroa sobre o pólo

Fiz correr rios
que nunca existiram

De um grito ergui uma montanha
e em volta dançamos uma nova dança

Cortei todas as rosas
das nuvens do Este

E ensinei a cantar um pássaro de neve

Caminhemos sobre os meses desatados

Sou o velho marinheiro
que cose os horizontes cortados


Vincente Huidobro, in "Rosa do Mundo" assírio & alvim, 2001
trad. José Bento

RIQUEZA

Tenho a ventura fiel
e a ventura perdida:
uma é qual uma rosa,
e a outra como um espinho.
De tudo o que me roubaram
nunca fui despossuida:
tenho a ventura fiel
e a ventura perdida,
e estou tão rica de púrpura
como de melancolia.
Ai, como é amada a rosa
e que amante é o espinho!
Como o duplo contorno
dos frutos que gémeos vivem,
tenho a ventura fiel
e a ventura perdida…


Gabriela Mistral, in "Rosa do Mundo" assírio & alvim, 2001
trad. José Bento

Ao indagar acerca dos pressupostos implicados na privação da função de escrivão a que se abandonara o Bartleby, Agamben transforma a análise deste paradigma numa das mais densas meditações acerca dos pressupostos inerentes ao exercício da sua condição de escritor e de filósofo, apresentando simultaneamente as figuras e modos que compõem o seu método. Trata-se de um «experimento sem verdade», no qual «quem se aventura, arrisca, de facto, não tanto a verdade dos próprios enunciados quanto o próprio modo do seu existir e realiza, no âmbito da sua história subjectiva, uma mutação antropológica a seu modo tão decisiva quanto foi, para o primata, a libertação da mão na posição erecta, ou, para o réptil, a transformação dos membros anteriores que o mutou em pássaro».

Giorgio Agamben "Bartleby, escrita da potência seguido de Bartleby, o escrivão de Herman Melville" assírio & alvim, 2008


Devota como ramo
curvado pelos nevões
alegre como fogueira
nas colinas esquecidas

sobre acutíssimas lâminas
em branca camisa de urtigas
te ensinarei, minha alma,
este passo do adeus...

Cristina Campo, "O Passo do Adeus" asírio & alvim, 2002
trad. José Tolentino Mendonça

Dr. Hoffman's ...



O grasnido cosmopolita dos crepúsculos
Fere as minhas angústias
E abate as ideias oceânicas das árvores enlouquecidas.
Estou corrompido
Aqui
Com os sapatos
E os meus universos,
Como o oceano a marulhar,
Morto, completamente morto, a criar vidas e lágrimas;
Oriundo de montanhas com folhas murchas
E ruídos vertiginosos
Na audácia obscura do canto

Um largo tubo de sóis amarelos
As lágrimas — chuvas de objectos —
Mares assassinados num tubo profundo
Atravessam a ruína sonora, a rotura do coração,
E os olhares severos da turba
Fragmentam-se e preenchem o cérebro
Como o golpe do tempo na morte do herói .

Ó ventania, imenso ciclone do infinito
A aniquilar furiosamente
— ó furacão imensurável —
A espádua desmembrada

Sou aquele que chega errante
E a morrer,
Que vagueia à deriva
Com as grades dos leões e as aves sem sentido
O acordeão e os violinos estupefactos,
A vender outonos maduros
Pelo arame que ata o céu ao mundo,
A vaguear à deriva
Absorto com a verdade colossal e o assombro
Como a aranha na sua teia
E os filhos futuros na infância do pai.


Pablo de Rokha, in "Rosa do Mundo" assírio & alvim, 2001
trad. Jorge Henrique Bastos

Fay Ku

intimate details

horse shit

bridge

taking roots

surface tension

smelling the flowers


www.fayku.com
Edward Hopper [ Sunday ] 1926

… quando me vem uma forte vontade de trabalhar sento-me e espero que a vontade me passe…

PERGUNTAS À HORA DO CHÁ

Este senhor pálido parece
uma figura de um museu de cera;
olha através das cortinas rasgadas:
que vale mais, - o ouro ou a beleza?
Vale mais o regato que flúi
ou a grama imóvel em sua margem?
Ao longe ouve-se muito bem um sino
que abre mais uma ferida, ou a flecha:
é mais real a água da nascente
ou essa jovem que se fita nela?
Não se sabe, a gente passa o tempo
a construir castelos sobre a areia:
- é superior o copo transparente
à mão do homem que o cria?
Respira-se uma atmosfera fatigada
de cinza, de fumo, de tristeza:
o que uma vez se viu já não se volta
a ver igual, dizem as folhas secas.
Hora do chá, torradas, margarina.
Tudo envolto numa espécie de névoa.


Nicanor Parra, in “Rosa do Mundo” assírio & alvim, 2001
trad. José Bento

El Amante Minguante


Pedro Almodóvar [ HABLE CON ELLA ]2002

«HÁ NA LEITURA aspectos que merecem a nossa atenção porque ligados a um difundido hábito não inspirador, julgo eu, de grandes afirmações… Refiro-me a ler na retrete. Em rapaz, quando procurava um lugar tranquilo para devorar os clássicos proibidos, muitas vezes me enfiei na retrete.
(…) De conversas com amigos íntimos pude concluir que a leitura na retrete é quase sempre fútil: revistas ilustradas, selecções, folhetins, romances policiais ou de aventuras, toda a escória da literatura. Há gente que chega a ter uma prateleira de livros na retrete, local onde a leitura os aguarda como na sala de espera de um dentista. É espantoso verificar a avidez com que as pessoas passam revista à “leitura”, se assim posso dizer, que se amontoa nas antecâmaras dos médicos e dos dentistas. Para não pensarem tanto nas provações que as esperam ou recuperarem o tempo perdido, “ficarem a par”, como dizem, da actualidade? Várias observações me garantem que estas pessoas já todas têm a sua conta de “actualidade”, quero dizer guerra, acidentes e mais guerra, desastres e outra guerra, assassínios e mais guerra, suicídios e outra guerra, assaltos a bancos, guerra e mais guerra quente e fria; as mesmas, não duvidemos, que têm o rádio aberto dia e noite, vão ao cinema o mais que podem — fora as novelas, fora a “actualidade” — e compram televisões para os filhos. Para estarem informadas! No entanto o que sabem (que valha a pena saber) dos acontecimentos importantes que estremecem o mundo?
Muita gente devora jornais e cola o ouvido ao rádio (às vezes as duas ao mesmo tempo!) para ficar ao corrente do que se passa. Ilusão pura. No entanto activa e ocupada, essa pobre gente toma consciência do vazio aterrador que existe dentro dela. Pouco importa aonde mama: essencial é evitar o encontro face a face consigo própria. Meditar no problema do dia, ou nos seus próprios problemas, é a última coisa que a gente normal deseja fazer.
Mesmo na retrete, sítio onde não há nada para fazer nem pensar, onde ao menos uma vez por dia estamos sós e tudo se processa de forma maquinal, onde a ocasião é de beatitude (pois realmente se trata de uma espécie de beatitude), há pessoas que decidem concentrar-se na matéria impressa e, ao que imagino, têm o seu género de leitura favorito: umas absorvem longos romances, outras bagatelas sem consistência, outras voltam páginas e sonham. Que espécie de sonhos?... pergunto eu. Que espécie de tintas lhes dão a cor?
(…).»

Henry Miller, in “Ler na Retrete” & etc, 1981
trad. Aníbal Fernandes


www.planetatangerina.com

www.planeta-tangerina.blogspot.com

«Cada vez que um segundo atravessa o mundo (sempre a correr, sempre apressado), milhões de coisas acontecem, aqui, ali, em todo o lado…»

"O mundo num segundo" planeta tangerina, 2008

Texto: Isabel Minhós Martins
Ilustrações: Bernardo Carvalho

SE TODO O SER AO VENTO ABANDONAMOS

Se todo o ser ao vento abandonamos
E sem medo nem dó nos destruímos,
Se morremos em tudo o que sentimos
E podemos cantar, é porque estamos
Nus, em sangue, embalando a própria dor
Em frente às madrugadas do amor.
Quando a manhã brilhar refloriremos
E a alma beberá esse esplendor
Prometido nas formas que perdemos.


Sophia de Mello Breyner Andresen, in "Sião" frenesi, 1987

ÁLVARO LAPA: A LITERATURA


A ante-estreia do filme ÁLVARO LAPA: A LITERATURA de Jorge Silva Melo será no IndieLisboa, a 25 de Abril às 21.30.
No Teatro Municipal Maria Matos.
Uma outra sessão realizar-se-á no Cinema São Jorge a 29 de Abril pelas 21.15.

A CAMINHO DO OESTE*

Um acto tão simples
como abrir os olhos. Simplesmente
entrar nas coisas pouco a pouco.

Manhã: uma lágrima rebenta
na escada de madeira
dos olhos da minha dama. Profusões
de verde. As folhas. As suas
constantes preensões. Como velhos
drogados em Sheridan Square, olhos
frios e redondos. Há uma canção
que Nat Cole canta… Esta cidade
& a confusa desordem
das estações.

Incapaz de mencionar
algo tão abstracto como o tempo.
Mesmo assim (inclinando-nos em fumo
Espesso de incenso barato; todos
os tipos de perguntas enchendo-nos a boca,
até que sufocamos & caímos mortos
em opulenta carpete). Mesmo assim,

sombras arrastar-se-ão sobre a nossa carne
para esconder a nossa desordem, as nossas mentiras.

Há fenos silvestres pouco agradáveis
fora da janela
onde os gatos se escondem. Eles gemem
aí de noite. Com cio
& sangrando nas minhas tulipas.

Sinos de aço, como a Esfinge
nociva e suja, sirgando no crepúsculo.
Velhos assassinos sem filhos, durante séculos
com olhos de bolor.

Estou angustiado. Pensando
nas estações, como passam,
como eu passo, a minha própria juventude, a
doçura sazonada da minha vida; escoada…

Como macacos Rhesus gigantes,
esburacando os crânios,
com engenhosa crueldade
chupando os miolos.

Para nada serve a beleza
sucumbida, com hálito bolorento
envelhecido. Peso insidioso
de sonhos gangrenados. O galo
volúvel de Tirésias.

Caminhando no mar, conchas
apanhadas no cabelo. Rudes
ondas dilacerando a língua.

Fechando os olhos. Um
acto tão simples. Flutuamos.


LeRoi Jones, in "Antologia da novíssima poesia norte americana" futura, 1973
trad. Manuel Seabra

*para Gary Snyder


Conrad Rooks [ Chappaqua ] 1966

MAIS VELHO

O filho único seria o mais velho de seus irmãos
e em sua orfandade algo possui
do que se entende pela palavra velho. Como se também tivessem morrido
seus impossíveis irmãos mais novos.
Muito mais rigoroso que o luto repartido
é o seu; a morte cortou-o à sua medida,
coseu-o, lenta, com extrema finura,
enquanto o pai se ia vazando no filho,
envelhecia-o à força de o criar à sua imagem
— menino outra vez o homem, homem outra vez o menino —
em noites tão escuras como o luto que levam.

E o filho tem alguma coisa de um irmão mais velho
como se o rodeássemos, nonatos, enquanto ele nasce pela segunda vez
para uma vida mais grave que a nossa.
Alguém se olha nele como os olhos fechados,
gravita em seu silêncio
sobre as nossas palavras sem objectivo.


Enrique Lihn, in “Rosa do Mundo” assírio & alvim, 2001
Trad. José Bento


mais poemas e contos do autor aqui

Reúnem-se neste volume prosas dispersas de Alexandre O’Neill.
O título foi encontrado no espólio do escritor, numa nota manuscrita datável de 1981: «Já cá não está quem falou / (título para um livro póstumo)»
A seriação guia-se pelo critério cronológico, à excepção das recensões a livros. De cada texto, no caso de ocorrerem várias publicações, é escolhida a última, menos no caso dos textos «O Clube dos Talentosos» e «Histórias Quadradinhas», dos quais foi escolhida a primeira versão, por ser notavelmente mais extensa.
São uniformizados os critérios ortográficos, como a utilização de itálicos em palavras estrangeiras, e corrigidas as gralhas, recorrendo às publicações existentes ou a dactiloscritos deixados pelo autor.


Alexandre O'Neill "Já cá não está quem falou" assírio & alvim, 2008

org. Maria Antónia Oliveira e Fernando Cabral Martins

ESCURIDÃO FORMOSA

À noite toquei-te e senti-te
sem que minha mão fugisse para lá de minha mão,
sem que meu corpo fugisse, aos meus ouvidos:
de um modo quase humano
senti-te.

A pulsar,
não sei se como sangue ou como nuvem
errante,
em minha casa, na ponta dos pés, escuridão que sobe,
escuridão que desce, cintilante, correste.

Correste por minha casa de madeira,
e abriste as janelas,
e senti pulsar a noite toda,
filha dos abismos, silenciosa,
guerreira tão terrível e tão bela,
que tudo quando existe,
sem tua chama, não existiria para mim.


Gonzalo Rojas, in "Rosa do Mundo" assírio & alvim, 2001
trad. José Bento

The Moldy Peaches




PARA HABLAR CON LOS MUERTOS

«Para hablar con los muertos
hay que elegir palabras
que ellos reconozcan tan fácilmente
como sus manos
reconocían el pelaje de sus perros en la oscuridad.
Palabras claras y tranquilas
como el agua del torrente domesticada en la copa
o las sillas ordenadas por la madre
después que se han ido los invitados.
Palabras que la noche acoja
como los pantanos a los fuegos fatuos.
Para hablar con los muertos
hay que saber esperar:
ellos son miedosos
como los primeros pasos de un niño.
Pero si tenemos paciencia
un día nos responderán
con una hoja de álamo atrapada por un espejo roto,
con una llama de súbito reanimada en la chimenea
con un regreso oscuro de pájaros
frente a la mirada de una muchacha
que aguarda inmóvil en un umbral.» [*]

Jorge Teillier

Jean-Luc Godard [ Le petit soldat ] 1963

Hoje dói-me pensar,
dói-me a mão com que escrevo,
dói-me a palavra que ontem disse
e também a que não disse,
dói-me o mundo.

Há dias que são como espaços preparados
para que tudo doa.

Só deus não me dói hoje.
Será porque hoje ele não existe?


Roberto Juarroz, in "Poesia Vertical" campo das letras, 1998
trad. Arnaldo Saraiva

ilust. Gérard Dubois

O amor turbulento de Oliveira e da «Maga», os amigos do Clube da Serpente, as caminhadas por Paris em busca do Céu e do Inferno, têm o seu outro lado na aventura simétrica de Oliveira, Talita e Traveler, numa Buenos Aires refém da memória.

A publicação de «O jogo do mundo» (Rayuela) em 1963 foi uma verdadeira revolução no romance mundial: pela primeira vez, um escritor levava até às últimas consequências a vontade de transgredir a ordem tradicional de uma história e a linguagem usada para a contar. O resultado é este livro único, cheio de humor, de risco e de uma originalidade sem precedentes.

Considerado o romance que melhor retrata as inquietudes e melhor resume o Século XX na visão latino-americana do mundo, desde a sua publicação, gerações de escritores são, de uma maneira ou de outra, devedoras de «O jogo do mundo».

in. Julio Cortázar "O jogo do mundo" cavalo de ferro, 2008
trad. Alberto Simões

Piotr Dumala [ Sciany ] 1988

OUÇO TANTA COISA DE VÓS
que não oiço mais
do que ouvir,

vejo tanta coisa de vós
que não vejo mais
do que ver,

tanta coisa me assedia
com desconversa
que dou por mim a falar
como quem conversa,
que dou por mim
a falar como quem
fica em silêncio.

Eu vivo, forte.


Paul Celan, in "A morte é uma flor" cotovia, 1998
trad. João Barrento

UM TÉDIO MAGNÍFICO

Eram os primeiros minutos do amanhecer. Simone pensou que, se nas alturas não havia nada de interessante, teria de o procurar em terra firme. Ou já não precisaria de procurar nada? Ficou na cama espreguiçando-se lentamente, com uma preguiça infinita, a observar as partículas de pó que pairavam num raio de sol dentro do seu quarto às escuras. E foi então que ouviu o grito. Alguém tinha gritado no amanhecer, numa casa próxima, talvez no seu próprio prédio, talvez no seu quarto. Para Simone, foi o mais semelhante a uma catarse, porque sentiu a sensação de que no seu despertar ia existir um antes e depois daquele grito. Logo a seguir, viu que não seria assim. O grito tinha passado e continuava tudo na mesma, cinzento e monótono como antes. Regressou ao seu tédio e chegou a uma firme conclusão, sem que previamente se tivesse dedicado a procurá-la. A partir daquele momento, enfrentaria directamente a verdade e suportaria o vazio e, por conseguinte, aceitaria a morte. Bem vistas as coisas, pensou, a verdade encontra-se do lado da morte, sempre o disse. Logo depois, voltou às partículas de pó, àquela espécie de poesia do invisível. Irei mais além da preguiça do infinito, disse para consigo. Era essa a sua meta na plenitude do seu magnífico despertar de morta. Porque tinha despertado morta, espreguiçando-se suavemente ociosa, esplendorosa.

Enrique Vila-Matas, in " Exploradores do Abismo" teorema, 2008
trad. Jorge Fallorca

Sleeveface...

















mais aqui e aqui

SÃO UM ERRO…

São um erro
estes braços e pernas
que já não funcionam

Quebram-se agora
e não há lugar para desculpas.

A terra não nos consola,
só te cobre
se tens a decência de permanecer calado.

O sol não perdoa,
olha e segue o seu caminho.

A noite penetra-nos
através dos acidentes que temos
infligido um ao outro.

A próxima vez que perpetremos
o amor, temos que
decidir primeiro quem vamos matar.


Margaret Atwood, in “qual é a minha ou a tua língua” assírio & Alvim
Org. Jorge Sousa Braga

«Alguém que o conheceu bem definiu-o como «o homem mais livre que já encontrei». Debord atraiu a atenção da sua época não só pelo trabalho teórico e pratico, mas também pela personalidade e pelo exemplo vivo que representava.
A sua glória é a de nunca se ter preocupado com carreira ou dinheiro, não obstante as inúmeras solicitações: de nunca ter desempenhado um papel no Estado; e de não ter contacto com celebridades da sociedade do espectáculo e de não ter utilizado os seu canais; e de, a despeito de tudo, ter conseguido ocupar um lugar importante na história contemporânea.»

In Anselm Jappe “Guy Debord” antígona, 2008
trad. Iraci D. Poleti e Carla da Silva Pereira


Nota: a presente obra será apresentada pelo autor no próximo dia 12 de Abril pelas 21.30 na Livraria Ler Devagar (braço de prata).

aqui há lebre...


Kenneth Anger [ Rabbit's Moon ] 1979

um grande grande obrigado ao Manuel

escutar...


robots in disguise [We're in the Music Biz] President, 2008

ELA ESTÁ DE PÉ NAS MINHAS PÁLPEBRAS

Ela está de pé nas minhas pálpebras
com os dedos nos meus entrelaçados.
Ela cabe toda em minhas mãos,
ela tem a cor dos meus olhos
e desaparece na minha sombra
como uma pedra sobre o céu.

Tem sempre os olhos abertos
e não me deixa dormir.
Os sonhos dela à luz do dia
fazem os sóis evaporar-se,
fazem-me rir, chorar e rir,
falar sem ter nada a dizer.


Paul Éluard, in "Algumas das palavras" dom quixote, 1977
trad. António Ramos Rosa

[ La Capitale de la Douleur ]



A tua voz, os teu olhos,
as tuas mãos, os teus lábios.
O nosso silêncio, as nossas palavras.
A luz que desaparece,
a luz que regressa.

Um único sorriso para os dois.
Por precisar de saber,
vi a noite criar o dia
sem que mudássemos de aparência.

Ó bem amado por todos e bem amado por um.
Em silêncio, a tua boca prometeu ser feliz.
"Afasta-te, afasta-te", diz o ódio.
"Aproxima-te mais", diz o amor.

Pelas nossas carícias, saímos da infância.
Vejo cada vez melhor a forma humana.
Como um diálogo entre amantes,
o coração só tem uma boca.

Tudo é ao acaso.
Todas as palavras são espontâneas.
Os sentimentos à deriva.
Os homens vagueiam pela cidade.

O olhar, a palavra.
E o facto de eu te amar.

Tudo está em movimento.
Basta avançar para viver,
seguir em frente, em direcção a tudo o que amamos.

Ia na tua direcção, seguia sem parar em direcção à luz.
Se sorris, é para melhor me envolveres.
Os teus braços luminosos entreabrem o nevoeiro.


Paul Éluard

Jean-Luc Godard [ Alphaville ] 1965

AN UPBRADING

Morri, é fácil vires agora
cantares aquelas canções
de que gostávamos os dois.
Porém, quando era vivo
nunca cantaste, ah nunca
quiseste. Agora, morto,
vejo-te a chegar ao pé de mim,
ao luar, vens em abandono.
O que eu não teria dado
para te ter tido mais vezes.
Quando também tu morreres
e estiveres aqui, comigo,
sem ser em estados diferentes,
serás distante como dantes,
vai ser tudo muito diferente
ou nem por isso?


Thomas Hardy, in "qual é a minha ou a tua língua?" assírio & alvim, 2008
org. Jorge Sousa Braga


BITÁCULA

Não conhece a arte de navegar
quem nunca navegou no ventre
de uma mulher, remou nela,
naufragou
e sobreviveu numa das suas praias.

Cristina Peri Rossi