CONTO DE FADAS

Eu trago-te nas mãos o esquecimento
Das horas más que tens vivido, Amor!
E para as tuas chagas o unguento
Com que sarei a minha própria dor.

Os meus gestos são ondas de Sorrento…
Trago no nome as letras duma flor…
Foi dos meus olhos garços que um pintor
Tirou a luz para pintar o vento…

Dou-te o que tenho: o astro que dormita,
O manto dos crepúsculos da tarde,
O sol que é de oiro, a onda que palpita.

Dou-te, comigo, o mundo que Deus fez!
- Eu sou Aquela de quem tens saudade,
A princesa do conto: “Era uma vez…”


Florbela Espanca, in "Sonetos" bertrand, 2005

imagem de Colette Calascione

WEEN


Where'd the cheese go?


The Mollusk

www.ween.com

FAZENDO AMOR EM POESIA

Numa guerra onde cada segundo conta
o Tempo cai no chão
como a sombra de uma árvore
debaixo da qual nós dormimos
num barco de madeira feito da árvore
por um carpinteiro desconhecido
além do mar
onde flutuam caroços de pêssegos
disparados por um artilheiro a cabo de munições
com um canhão do qual a boca arranca
buracos em forma de coração
ao horizonte da nossa carne
moída de sol
muda de estupefacção
entre o acto do sexo
e o acto da poesia
planeando no ar que escurece
no momento do amor e do júbilo
não há clarividência
sob a miséria do mundo.

Lawrence Ferlinghetti, in "a boca da verdade" edição Lawrence Ferlinghetti e André Shan Lima, 1986

Le bassin de John Wayne



CENA 22


JORNALISTA — E porquê o Pólo Norte?

ARIANE — Era um velho sonho do João: encontrar uma alma gémea com a qual pudesse mexer maravilhosamente a caia no Pólo Norte. Não foi Deus... foi a caia de John Wayne que o inspirou durante uma vida inteira.

JORNALISTA — A bacia de John Wayne? Não estou a ver...

ARIANE — No sonho do meu marido, John Wayne mexia maravilhosamente a bacia no Pólo Norte.

JORNALISTA — Há sem dúvida sonhos muito extravagantes. E, se me é permitido, podemos saber que estranho mistério envolve a bacia de John Wayne?

ARIANE — Não há mistério nenhum. É muito simples: o John Wayne arrasta ligeiramente a perna esquerda, porque é mais pesada do que a da direita. Os velhos alfaiates sabiam-no e, por isso, provavam as calças sempre à medida. Na perna esquerda, junto aos órgãos genitais, desenhavam a giz uma bolsinha e perguntavam escrupulosamente aos clientes: "Está bem assim, ou quer um nadinha mais folgada?". Ora aí tem!

JOÃO DE DEUS, off — Não havia que enganar. Estavam sempre no sítio e à mão de semear.

JORNALISTA — E, tendo chegado a essa conclusão, decidiram casar-se...

ARIANE — Casámos porque estávamos famintos. Famintos de amor, se quiser, que o amor é filho da fome. Já para os gregos, Eros era filho de Pénia, da Pobreza.
O amor é fome de outra vida, desejo de transmitir. Quando dois amantes se abraçam e beijam, entredevoram-se, morrem um no outro, de algum modo, e transitam para um novo ser. A vida não pode ficar, em nós, a repetir-se, que repetir é estar parado, é ocupar o mesmo lugar.
O amor compensa a morte, dá o que ela tira. O homem perpetua-se, amando e alimentando-se: Comei! Este é o meu corpo! O corpo é fruto assimilado; e o fruto é húmus, água e sol. e o fruto assimilado se transformará em espírito, alcançando assim a Divindade.

JOÃO DE DEUS, off — E dizia-se ainda mais. Dizia-se, por exemplo: O que é que o cu tem a ver com as calças? A minha mulher é que sabe tudo mas, para dizer a verdade, não há grande coisa para saber. A primeira vez que vi Ariane, olhei-a nos olhos, de alto a baixo, ai minha rica bacia, calei-me muito bem caladinho, e disse para mim: É esta!
Um homem, se for homem, aguenta a penada: Tem-te, não caias, Joãozinho!
Não sou homem de muitas falas. Na primeira aberta, só lhe disse o que o Professor Salazar terá dito à governanta: "Mariazinha, não estamos aqui para nos divertirmos".

JORNALISTA — E podemos saber o que, à semelhança de tantos dos nossos compatriotas espalhados pelos quatro cantos do mundo, vos leva a emigrar?

JOÃO DE DEUS — Pode. Estamos fartos desta caca.

JORNALISTA — Mas não têm condições de trabalho no nosso país?

JOÃO DE DEUS — Nem de trabalho, nem de coisíssima nenhuma, embora não me desagrade ver trabalhar.

JORNALISTA — Mas nunca exerceu nenhuma actividade profissional?

JOÃO DE DEUS — Ponha artista saltimbanco ou não ponha nada. É-me igual, ma quando era miúdo, passou-me pela cabeça ser marinheiro. Queria andar no mar alto, com um papagaio empoleirado no ombro. Ver outras terras, outras gentes.

ARIANE — Não sejas modesto, meu amor. Agora anda com a mania que foi marinheiro de água-doce.

JOÃO DE DEUS — Je te salue, vieil Océan! Il était un petit navire, qui n'avait jamais navigué...

JORNALISTA — E como pensam sobreviver no Pólo Norte? A comer carne de burro?

JOÃO DE DEUS — A fazer buraquinhos no gelo com a nossa varinha mágica. A minha mulher e eu não gostamos de carne de burro. Temos umas boquinhas muito esquisitas e não somos democratas.

JORNALISTA — e como pensam resistir à inclemência das neves eternas?

JOÃO DE DEUS — Estás a ouvir, Ariane? O gajo diz que a gente não vai resistir.

ARIANE — Deixa-o falar. Parece que não conheces a corja da têvê.

JOÃO DE DEUS — Quem conseguiu sobreviver nesta piolheira, também consegue sobreviver no Pólo Norte. Não se preocupe connosco. Se nos chatearmos, partimos para a lua...

JORNALISTA — Podemos, então, concluir que é o mesmo desejo de aventura que levou os portugueses de antanho à maravilhosa descoberta de novos mundos, que vos motiva ainda hoje?

JOÃO DE DEUS — Oiça, meu simpático senhor: digamos que é o mal-estar do mundo contemporâneo. Sou apenas um pobre emigrante polar. Polar Árctico. Sou velho como o cagar e chamo-me João de Deus.
T'es en train de me regarder, Jean? Excuse-moi le sale coup, mais chat échaudé craint l'eau froide. Ariane va tricoter une pair de chaussettes en laine et moi je t'everrai un petit cachalot, pour tes descentes dans le fleuve. Tiens bon, mon vieux français... Encore un effort... Je ne sius pas merdiatique du tout, n'est-ce pas?

JORNALISTA — Mas...

JOÃO DE DEUS — Anda, Luciano, que já enganámos mais um!


João César Monteiro, in "Le bassin de John Wayne seguido de as bodas de Deus" & etc, 1997


NOTA DO EDITOR

João César Monteiro. Poeta. Cinquenta e oito anos levados levados sim de vôo sem rede — e sem juizinho de agasalho. Melhor do que ele, ninguém escreve em português de — e para — cinema. São os seus scripts (ou filmes da galáxia Guttenberg) de lamber a língua canónica: volúpia e escarno, ascese e escatologia numa ondulação de tal modo ritmada que é já êxtase erótico, cópula astral. Depois, quando iluminados por projecção mágica, viram ópera: teatro e música enquanto, e só, artes sacras — comédias, bufonarias sejam, libertinagens, profanações.
Ver-se-á também aqui: o seu desdobramento, ou assumpção, em João de Deus (como Jarry em Ubu, Artaud em Mômo, porque não Renoir em Boudu?), na agónica crueza com que se despe (ou se oferece ao holocausto social em anarquista coroado: são espinhos...), deixa no pano de fundo da nossa torpe e malvada contemporaneidade um rasto repulsivo, mas um frémito de quase insuportável (convulsiva) beleza.
E ninguém como nele a irrisão bisturiza tão sem anestesia o pesadelo existencial para soltar o canto, o cântico profético da poesia incorrigível liberdade.


Vitor Silva Tavares

ENCONTREI-ME ILUMINADO

Encontrei-me iluminado nos telhados, era vago, era despovoado, era lindo.
Tinha a tristeza de uma cisterna
abandonada por preguiça de outras gerações.
Agora, ainda posso ver o meu choro discreto
quando no meu voo
os olhos grandes me deixam ver o sol em pausa.

Além, mesmo além
— o silêncio regressava aos braços cansados e sábios
para junto dos homens que volviam plácidos.
Além, mesmo além
o silêncio trazia no fundo chamas de queimar deuses e o próprio hálito dos deuses.
E queimava, queimava o selo vestido
hora a hora
até que das chamas colhia o segredo da vida e da morte.

Além, mesmo além
vago e despovoado eu caminhava mais um pouco
ainda com neve nos cabelos em ferida.

Que ninguém respire.
A hora não é de respirar,
reconheço.
No meu fato de espectador mal arrumado
exposto à porta de uma paróquia de condenados
não é de respirar,
reconheço.

Mas rei
acompanho a minha antiguidade
que parte nervosa para uma grande viagem.
A meio do dia
tomarei a meu gosto um pouco de moral no sangue.
E quando lá do sonho
os espelhos trouxerem mar
a chama singular e franzina
queimará o século e a fronte,
as sombras dos dedos nos seios,
os veleiros de imortalidade
cheios de palmos de terra,
até que lá do sonho eu não respire,
que a hora não é de respirar,
eu reconheço.

Fernando Alves dos Santos, in "diário flagrante [poesia]" assírio & alvim, 2005

FELICIDADE

Às vezes, num repente, sem causa visível, percorre-me um grande arrepio de felicidade.
Vindo dum centro de mim, tão interior que eu o ignorava, ele leva, embora rodando a extrema velocidade, um tempo considerável a alcançar as minhas extremidades.
Esse arrepio é perfeitamente puro. Por mais extensamente que circule dentro de mim, nunca encontra nenhum órgão inferior, nem qualquer outro, de resto, nem encontra ideias, nem sensações, de tal modo é absoluta a sua intimidade.
E tanto Ele como eu estamos perfeitamente sós.
Talvez que , percorrendo todas as partes de mim, ele me pergunte à passagem: «Então, como vai isso? Posso fazer qualquer alguma coisa por si, neste sitio?» É possível. E que à sua maneira me console as entranhas. Mas eu não sou posto ao corrente.
Eu gostaria de proclamar a minha felicidade, mas que dizer? É uma coisa tão estritamente pessoal.
Dentro em pouco, o prazer é demasiado intenso. Sem eu dar por isso, no espaço de segundos, torna-se um sofrimento atroz, um assassinato.
A paralisia! digo cá para mim.


CÓLERA

Comigo, a cólera não surge de repente. Por rápido que seja o seu nascimento, ela é precedida por uma grande felicidade, sempre, que se manifesta fremente.
É soprada de repente, e a cólera começa a ruminar.
Tudo em mim assume o seu posto de combate, e os meus músculos, que querem intervir, até doem.
Mas não há qualquer inimigo. Se houvesse, ficaria aliviado. Mas os inimigos que tenho não são corpos em quem bater, pois o corpo falta-lhes totalmente.
Todavia, passado certo tempo, a minha cólera cede... por cansaço talvez, pois a cólera é um equilíbrio muito difícil de manter... Há também a inegável satisfação de ter trabalhado, e ainda a ilusão de que os inimigos fugiram, renunciando ao combate.


Henri Michaux, in "As minhas propriedades" fenda, 1998

VLADIMIR — Estaria eu a dormir enquanto os outros sofriam? Estarei eu a dormir agora? Amanhã, quando acordar, ou pensar que acordo, o que é que vou dizer de hoje? Que, com o Estragon, o meu amigo, neste local, até ao cair da noite, eu esperei pelo Godot? Que o Pozzo passou com o seu carregador e que falou connosco? Provavelmente. Mas em tudo isto o que é que será verdade?

Samuel Beckett, in "À espera de Godot" cotovia, 2001
João César Monteiro [ Recordações da Casa Amarela ] 1989


FUTEBOL

Descarga física daquilo que seres humanos e animais irracionais gostariam de fazer com o globo terrestre propriamente dito. Quando chutado com violência pode atingir o céu e deixar bem visível uma marca: a Lua. Lugar domingueiro de peregrinação, escape de trabalho forçado, orgia de valores primários tais como a alegria à força, a tristeza uterina e o desespero operário. Escola de formação de atrasados mentais pagos astronomicamente. Vírus instalado no transístor ao ouvido (quiçá dentro do ouvido) do Estado Novo aposentado. Se hábil, artista e puro, pode ser um jogo de entretenimento interessante, um espectáculo para os sentidos. Ficou célebre uma "pantera negra" que limpou as lágrimas de todo o planeta ao amor à camisola. Estranho pretexto para a fuga social para a frente. Exemplo: hoje está um dia lindo, ou seja, graças a Deus não chove.

Joaquim Castro Caldas, in "Convém avisar os ingleses" quasi, 2002

Martin Scorsese [ The Big Shave ] 1967

LA COGIDA Y LA MUERTE

A las cinco de la tarde.
Eran las cinco en punto de la tarde.
Un niño trajo la blanca sábana
a las cinco de la tarde.
Una espuerta de cal ya prevenida
a las cinco de la tarde.
Lo demás era muerte y sólo muerte
a las cinco de la tarde.

El viento se llevó los algodones
a las cinco de la tarde.
Y el óxido sembró cristal y níquel
a las cinco de la tarde.
Ya luchan la paloma y el leopardo
a las cinco de la tarde.
Y un muslo con un asta desolada
a las cinco de la tarde.
Comenzaron los sones del bordón
a las cinco de la tarde.
Las campanas de arsénico y el humo
a las cinco de la tarde.
En las esquinas grupos de silencio
a las cinco de la tarde.
¡Y el toro, solo corazón arriba!
a las cinco de la tarde.
Cuando el sudor de nieve fue llegando
a las cinco de la tarde,
cuando la plaza se cubrió de yodo
a las cinco de la tarde,
la muerte puso huevos en la herida
a las cinco de la tarde.
A las cinco de la tarde.
A las cinco en punto de la tarde.

Un ataúd con ruedas es la cama
a las cinco de la tarde.
Huesos y flautas suenan en su oído
a las cinco de la tarde.
El toro ya mugía por su frente
a las cinco de la tarde.
El cuarto se irisaba de agonía
a las cinco de la tarde.
A lo lejos ya viene la gangrena
a las cinco de la tarde.
Trompa de lirio por las verdes ingles
a las cinco de la tarde.
Las heridas quemaban como soles
a las cinco de la tarde,
y el gentío rompía las ventanas
a las cinco de la tarde.
A las cinco de la tarde.
¡Ay qué terribles cinco de la tarde!
¡Eran las cinco en todos los relojes!
¡Eran las cinco en sombra de la tarde!


Federico García Lorca, in “Antologia Poética” relógio d’água, 1993

MICHAEL DUDOK DE WIT

[ O Aroma do Chá ] 2006

[ Pai e Filha ] 2000

[ O Monge e o Peixe ] 1994

TÉDIO

Já perdi a conta aos meses
Dezembro? Janeiro? Maio?

Batem-me à porta por vezes.
Não saio. Finjo que saio.

Mas regresso à velha mesa
Por vício? Não: por enlevo.

Filho da própria incerteza
Escrevo, finjo que escrevo.

Que dia é hoje? Sei lá!
O sinal da cruz diz: mais.

E uma hora quando é má
Diz que as outras são iguais.


Pedro Homem de Mello, in "eu, poeta e tu, cidade" quasi, 2007

imagem de Gérad Dubois
Jess Franco [ Vampyros Lesbos ] 1971

TAXI DRIVER...

David Bradford [ drive-by shootings ] Könemann, 2005







mais sobre o livro aqui

NAVIO DE ESPELHOS


O navio de espelhos
não navega, cavalga

Seu mar é a floresta
que lhe serve de nível

Ao crepúsculo espelha
sol e lua nos flancos

Por isso o tempo gosta
de deitar-se com ele

Os armadores não amam
A sua rota clara

(Vista do movimento
dir-se-ia que pára)

Quando chega à cidade
nenhum cais o abriga

O seu porão traz nada
nada leva à partida

Vozes e ar pesado
é tudo o que transporta

E no mastro espelhado
uma espécie de porta

Seus dez mil capitães
têm o mesmo rosto

A mesma cinta escura
o mesmo grau e posto

Quando um se revolta
há dez mil insurrectos

(Como os olhos da mosca
reflectem os objectos)

E quando um deles ala
o corpo sobre os mastros
e escruta o mar do fundo

Toda a nave cavalga
(como no espaço os astros)

Do princípio do mundo
até ao fim do mundo


Mário Cesariny, in “A Cidade Queimada” assírio & alvim, 2000

PIRATA

Sou o único homem a bordo do meu barco.
Os outros são monstros que não falam,
Tigres e ursos que amarrei aos remos,
E o meu desprezo reina sobre o mar.

Gosto de uivar no vento com os mastros
E de me abrir na brisa com as velas,
E há momentos que são quase esquecimento
Numa doçura imensa de regresso.

A minha pátria é onde o vento passa,
A minha amada é onde os roseirais dão flor,
O meu desejo é o rastro que ficou das aves,
E nunca acordo deste sonho e nunca durmo.


Sophia de Mello Breyner

as coisas do Mário...

Os 34 poemas aqui ditos por Mário Cesariny foram gravados por Vasco Pimentel durante o Verão de 2006, mantendo-se propositadamente na versão final todos os comentários do poeta recolhidos ao longo das 3 sessões de gravação. Os poemas foram escolhidos por Mário Cesariny a partir dos livros A Cidade Queimada, Pena Capital e Manual de Prestidigitação.

Autografia, o premiado filme de Miguel Gonçalves Mendes sobre Mário Cesariny, está aqui incluído no livro Verso de Autografia, já anteriormente publicado pela Assírio & Alvim, onde se reúnem longos excertos das conversas filmadas com o poeta e não utilizados na versão final do filme.

assírio & alvim, 2007

cenas de culto... ou o culto das cenas

Richard C. Sarafian [ Vanishing Point ] 1971

foi assim...