LIBERTAÇÃO.
O meu destino é partir.
Reunir as partes de todas as partidas e partir inteiramente.
Reunir as audácias sem retorno e fazer pedras de caminho
e das pedras pão e do pão rumos e de tudo forças
sobre a terra sobre o dia.
Tudo no corpo em círculos concêntricos expansivos
como ecos de gritos nocturnos.

Longe é um ponto cardeal qualquer. Vim dessa íntima exactidão.
Vim do Distante em fuga em febre frontalmente
como uma falésia penetrando pelo mar alto
e sou a amazona e a heroína fatal da trama terrível
que vou tecer ao sol com fios de saliva
da boca de monstros nas praias que ainda não há.
É esta emoção o sentido íntimo de principiar.
Um excesso de vibração cordas desfibrando-se.
batem martelos nos meus nervos incandescentes.
os olhos transformam-se em sóis vulcânicos
e a realidade das coisas inflama-se. Metamorfose.

Enamorei-me de uma espada
beijo-a todas as manhãs todas as madrugadas
sempre grata livre Heróica.
Sei que há raras mulheres guerreiras como raros homens oceânicos.
Tudo depende da exactidão férrea da alma.
Tenho loucura bastante para embebedar a infinita humanidade
passada e futura com a substância vital de alucinado Quixotes.
Meus corpo inflamável é um profeta que delira deuses.
Vinho novo em odres novos loucura nova em mulheres novas
para a plena possessão da embriaguez de si próprio.


Paulo Renato Cardoso, in "órbitas primitivas" quasi, 2007

imagem de Lorenzo Mattotti

3 comentários:

inês leal, 31 anos à volta do sol disse...

magnífico...!

Anónimo disse...

poesia é este acontecer imprevisto além da ordem corriqueira das palavras, das vidas, dos vícios da arte. Onde algumas portas violentamente se fecham e outras se abrem para nos oferecer a imensidão palpável dos sonhos.

miguel. disse...

é muito bom, assim como o resto deste livrinho, que por acaso foi o mais recente vencedor do prémio Daniel Faria...