Não deixeis um grande amor

Aos poucos apercebi-me do modo
desolado incerto quase eventual
com que morava em minha casa

assim ele habitou cidades
desprovidas
ou os portos levantinos a que
se ligava apenas por saber
que nada ali o esperava

assim se reteve nos campos
dos ciganos sem nunca conseguir
ser um deles:
nas suas rixas insanas
nas danças de navalhas
na arte de domar a dor
chegou a ser o melhor
mas era ainda a criança perdida
que protesta inocência
dentro do escuro

não será por muito tempo
assim eu pensava
e pelas falésias já a solidão
dele vinha

não será por muito tempo
assim eu pensava
mas ele sorria e uma a uma
as evidências negava

por isso vos digo
não deixeis o vosso grande amor
refém dos mal-entendidos
do mundo.

José Tolentino Mendonça in. "longe não sabia"
imagem de lorenzo mattotti

3 comentários:

marta disse...

os lúcidos escrevem assim!

Galeria Colectiva disse...

gosto do desenho

Luísa Freire disse...

"não deixeis um grande amor"
é, um grande amor vai connosco pela vida fora dentro de uma caixa pequenina com furinhos para poder respirar, e ninguém se importa se seremos felizes assim.