brevemente...
Gostaria de me afundar como no mar.
Criar com a minha boca.
Que a minha mão saísse para fora das linhas...
Porque as melhores pessoas são tristes. A minha mãe é pálida, muito pálida, e mesmo quando se ri treme-lhe uma tristeza no riso como gotas de água num ramo ao sol. Nunca vemos Jesus dar cotoveladas aos seus discípulos e torcerem-se a rir. Judas, esse, queria armar-se em esperto e afastava-se deles para se rir sozinho. Nunca se viu ninguém pensar numa coisa difícil, nos rebentos de uma árvore, no sol, como é que ele sobe e desce na água do céu, e desatar a rir-se. Aliás, só há felicidade nos tristes. Os homens dizem: «Uma vida de cão.» Julgam que os animais são humilhados e infelizes. Mas eu tinha observado com atenção os animais e sabia que os homens se enganavam porque uma formiga nunca pára para suspirar, dizendo que a vida não vale a pena ser vivida, e não há um burro que diga: «Como me envergonho de ser burro.» E no que respeita às plantas, tanto orgulho têm por ser o que são, que nunca dizem nada a ninguém. Os animais só são infelizes quando magoam uma pata. Eu quando me magoo não me sinto infeliz. Mesmo quando era pequeno e caía, desatava a rir-me e gritava: «Dei um tombo!», ou chamava alguém para anunciar: «Tenho sangue a correr!» Nós, nós somos infelizes por não andarmos nada contentes com o que somos, e também por não sabermos o que gostaríamos de ser. [Luc Dietrich, "A Felicidade dos Tristes"].
Luc Dietrich nasceu a 17 de Março de 1913 em Dijon e morreu a 12 de Agosto de 1944. "A Felicidade dos Tristes", com que esteve à beira de ganhar o Prémio Goncourt em 1935, é a sua obra mais conhecida.
Luc Dietrich "A Felicidade dos Tristes" sistema solar, 2015
trad. Aníbal Fernandes
«Talvez pudesse ouvir passos junto à porta do quarto, passos leves que estacariam enquanto a minha vida, toda a vida, ficaria suspensa. Eu existiria então vagamente, alimentado pela violência de uma esperança, preso à obscura respiração dessa pessoa parada. Os comboios passariam sempre. E eu estaria a pensar nas palavras do amor, naquilo que se pode dizer quando a extrema solidão nos dá um talento inconcebível. O meu talento seria o máximo talento de um homem e devia reter, apenas pela sua força silenciosa, essa pessoa defronte da porta, a poucos metros, à distância de um simples movimento caloroso. Mas nesse instante ser-me-ia revelada a essencial crueldade do espírito. Penso que desejaria somente a presença incógnita e solitária dessa pessoa atrás da porta.»
Herberto Helder, in "os passos em volta" estampa, 1970
Subscrever:
Comentários (Atom)


