BICICLETA
Lá vai a bicicleta do poeta em direcção
ao símbolo, por um dia de verão
exemplar. De pulmões às costas e bico
no ar, o poeta pernalta dá à pata
nos pedais. Uma grande memória, os sinais
dos dias sobrenaturais e a história
secreta da bicicleta. O símbolo é simples.
Os êmbolos do coração ao ritmo dos pedais —
lá vai o poeta em direcção aos seus
sinais. Dá à pata
como os outros animais.
O sol é branco, as flores legítimas, o amor
confuso. A vida é para sempre tenebrosa.
Entre as rimas e o suor, aparece e desaparece uma rosa. No dia de verão,
violenta, a fantasia esquece. Entre
o nascimento e a morte, o movimento da rosa floresce
sabiamente. E a bicicleta ultrapassa
o milagre. O poeta aperta o volante e derrapa
no instante da graça.
De pulmões às costas, a vida é para sempre
tenebrosa. A pata do poeta
mal ousa agora pedalar. No meio do ar
distrai-se a flor perdida. A vida é curta.
Puta de vida subdesenvolvida.
O bico do poeta corre os pontos cardeais.
O sol é branco, o campo plano, a morte
certa. Não há sombra de sinais.
E o poeta dá à pata como os outros animais.
Se a noite cai agora sobre a rosa passada,
e o dia de verão se recolhe
ao seu nada, e a única direcção é a própria noite
achada? De pulmões às costas, a vida
é tenebrosa. Morte é transfiguração,
pela imagem de uma rosa. E o poeta pernalta
de rosa interior dá à pata nos pedais
da confusão do amor.
Pela noite secreta dos caminhos iguais,
o poeta dá à pata como os outros animais.
Se o sul é para trás e o norte é para o lado,
é para sempre a morte.
Agarrado ao volante e pulmões às costas
como um pneu furado,
o poeta pedala o coração transfigurado.
Na memória mais antiga a direcção da morte
é a mesma do amor. E o poeta,
afinal mais mortal do que os outros animais,
dá à pata nos pedais para um verão interior.
Herberto Helder, in "Poesia Toda" assírio & alvim, 1981
COISAS QUENTES A BAIXAS TEMPERATURAS
Mistura o que quiseres, se fores ao parque ou à rua que desce, no Príncipe Real. Põe lado a lado literatura da boa —porque alguém disse que o que é bom é azul — e política medíocre. Equilibra as marcas para não haver sobre-representação. Mistura títulos com exemplares, chancelas com selos de correio, leitores com clientes, facturação com escoamento de stock. Usa ingredientes biológicos, recicla ideias. Mistura-te com pessoas que gostam de coisas que suportas com dificuldade. Não deixes de falar com desconhecidos. Não espreites perfis. Mistura o que quiseres, podes ser duas pessoas ou mais: vender e ser vendido, escrever biografias e cortá-las até terem duas linhas — uma delas pode ser tua, os outros relatos também são falsos. Ouve e copia sotaques alheios, como se a tua família fosse outra. Mistura o que quiseres, não expliques, não te queixes, cita sem saber quem citas. Escreve sempre que precisares. Usa o imperativo na segunda pessoa quando pensas numa multidão de desconhecidos que não está lá. Diz outra vez que preferes esse tempo e modo ao que era anterior. Trata o teu colega como gostarias que ele te tratasse a ti. Mistura casa com trabalho, caso com trabalho, costura com candura. Mistura o que cozinhas e o que temes. Vende os teus medos: faz com que não te pertençam, não vendas o que é teu. Acredita no que quiseres, esquece-te de que a tua intuição está provavelmente sempre certa. Diz que tudo é exercício: que sabes, sem anúncio, que o teu lugar já é de outra pessoa. Diz que tudo era cansaço e deseja felicidades a quem vier.
Margarida Ferra, in "Sorte de principiante" &etc, 2013
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