O AVÔ E O NETO

Ao ver o neto a brincar,
Diz o avô, entristecido:
«Ah, quem me dera voltar
A estar assim entretido!

«Quem me dera o tempo quando
Castelos assim fazia,
E que os deixava ficando
Às vezes p´ra o outro dia;

«E toda a tristeza minha
Era, ao acordar p´ra vê-lo,
Ver que a criada já tinha
Arrumado o meu castelo».

Mas o neto não o ouve
Porque está preocupado
Com um engano que houve
No portão para o soldado.

E, enquanto o avô cisma, e triste
Lembra a infância que lá vai,
Já mais uma casa existe
Ou mais um castelo cai;

E o neto, olhando afinal
E vendo o avô a chorar,
Diz, «Caiu, mas não faz mal:
Torna-se já a arranjar.»


Fernando Pessoa, in "ficções do interlúdio" bi, 2007

1 comentário:

Anónimo disse...

:)