Jean-Honoré Fragonard [ Les hasards heureux de l'escarpolette ] 1767/68


«O BALOUÇO», DE FRAGONARD

Como balouça pelos ares no espaço
entre arvoredo que tremula e saias
que lânguidas esvoaçam indiscretas!
Que pernas se entrevêem, e que mais
não se vê o que indiscreto se reclina
no gozo de escondido se mostrar!
Que olhar e que sapato pelos ares,
na luz difusa como névoa ardente
do palpitar de entranhas na folhagem!
Como um jardim se emprenha de volúpia,
torcendo-se nos ramos e nos gestos,
nos dedos que se afilam, e nas sombras!
Que roupas se demoram e constrangem
o sexo e os seios que avolumam presos,
e adivinhados na malícia tensa!
Que estátuas e que muros se balouçam
nessa vertigem de que as cordas são
tão córnea a graça de um feliz marido!
Como balouça, como adeja, como
é galanteio o gesto com que, obsceno,
o amante se deleita olhando apenas!
Como ele a despe e como ela resiste
no olhar que pousa enviesado e arguto
sabendo quantas rendas a rasgar!
Como do mundo nada importa mais!

Jorge de Sena, in "Antologia Poética" guimarães, 2010

o bairro...


«Poderemos dizer que a cidade é tão aborrecida que tem horários para cada som. Numa cidade divertida um cego nunca saberia as horas exactas. Mas porque a cidade não é divertida: ele sabe.»

Gonçalo M. Tavares, in "O senhor Eliot e as conferências" caminho, 2010

brevemente...


À semelhança de muitos jovens, Jonathan Safran Foer passou grande parte da sua adolescência e dos anos de universidade alternando entre o ser um carnívoro entusiasta e um vegetariano ocasional. Quando se tornou marido de alguém, e depois pai, as dimensões morais da alimentação tornaram-se cada vez mais importantes para ele. Encarando a perspectiva de ter de explicar por que razão comemos uns animais e não outros, Foer dispôs-se a explorar as origens de muitas tradições alimentares e as ficções que ajudaram a criá-las. Viajando para os recantos mais escuros dos nossos hábitos alimentares, Foer levanta a questão silenciosa que está por trás de cada peixe que comemos, de cada frango que fritamos e de cada hambúrguer que grelhamos. Em parte memórias e em parte relatório de investigação, "Comer Animais" é um livro que, nas palavras do 'Los Angeles Times', senta Jonathan Safran Foer «à mesa com os nossos melhores filósofos». Ao contrário da maioria dos outros livros sobre o assunto, este também explora as possibilidades para aqueles que comem carne, para que o façam com mais responsabilidade, fazendo deste um livro importante não apenas para vegetarianos, mas para qualquer pessoa que esteja preocupada com as ramificações e o significado do seu estilo de vida.

Jonathan Safran Foer "Comer animais" bertrand, 2010

Goncourt 2010


Michel Houellebecq, La carte et le territoire

OS LIVROS DAS PESSOAS

Se muitas máquinas gravassem tudo o que dizemos uns aos outros, todos os ruídos da nossa terra, todos os uivos…
Se muitas máquinas filmassem tudo o que vemos, todos os rostos, os sítios onde vamos, os céus, as alucinações…
Se muitas máquinas transcrevessem tudo o pensamos e sonhamos, as coisas todas que nos passam pela cabeça…
E se todos os dias houvesse outras máquinas que copiassem tudo isto — cada palavra, cada som, cada imagem — para um rolo infinito de papel branco, e tudo isto se guardasse, como o registo do que andamos todos aqui a fazer e a imaginar…

E se, depois de tudo isto, houvesse muitas pessoas, muitas pessoas diferentes, que passassem tudo a limpo, cortando e revendo, re-escrevendo e mudando, se tudo isto se fizesse, não seria a maior maravilha?
Não há maior maravilha que os livros.

"Um livro é…"
É costume dizer muito bem dos livros, mas os livros não são nem bons nem maus. Há livros que nos põem doentes, livros que nos desencaminham, livros até que nos tiram a vontade de ler outros.
O que são então os livros? São as pessoas.
No mundo, os livros e as pessoas têm a mesma importância. Haver ou não haver pessoas más, livros que não prestam, tanto faz, não interessa. Os livros não "fazem" parte de nós, não são "espelho" de nós, não são nada de tão simples ou de tão acessório. Os livros são as pessoas, são elas todas, incluindo nós.
É preciso tê-los, mesmo que não se leiam, e lê-los mesmo que não se tenham, e querê-los mesmo quando não existam, e escrevê-los mesmo quando não nos são pedidos.

Há tantas coisas que nunca teriam sido pensadas se não tivessem sido escritas.

Os livros são repetições, explosões repetidas do milagre do sinal. É triste como se vê o livro, como coisa estranha. É estranho quando se vê o livro como coisa exterior. É absurdo quando se vê o livro como coisa especial.
O livro nem sequer coisa é.

Os livros guardam todos os recados que o mundo ainda tem para nos dar.


Miguel Esteves Cardoso, in "A Phala nº5 abril/maio/junho 1987" assírio & alvim
ilust. Alex Dukal
Frederick Sommer [ Coyotes ] 1945


«a juventude alimenta-se do que as garras apanham, e os antigos defendem-se das gerações insaciáveis atirando carne podre»

Herberto Helder, in "Photomaton & Vox" assírio & alvim, 1995
Edward Hooper [summer interior] 1909


Aceito a ordem
das coisas, a geometria
imposta do quarto?
Os objectos no
seu lugar de sempre,
a distância exacta
da cadeira à mesa,
do meiple à janela?
O sono do tapete?
O universo diário
do quarto alugado,
as molduras que
cercam, resguardam
naturezas mortas,
paisagens imóveis?
Aceito a minha vida?
Ou mexo no candeeiro,
desvio-o alguns centímetros
na mesa, altero
as relações das coisas,
afinal tão frágeis
que o simples desvio
dum objecto pode
romper o equilíbrio?
Pego no telefone
e grito ao primeiro
desconhecido: ouves-me?
Ou deixo tudo
tal como está,
medido, quieto
no rigor do quarto,
e eu hesitante
entre o soalho e o tecto?
Desloco o cinzeiro
sabendo que posso
matar mandarins,
provocar cataclismos,
fracturas, amores,
eclipses, sonhos,
com a ponta dum dedo?
Ou apago a lâmpada
eléctrica e entro
no mesmo torpor
que as flores do tapete,
a fruta dos quadros,
o frio, o bolor,
no chão, nas paredes,
o poema na mesa,
a mesa no espaço
do quarto comprado
mês a mês? Confundo
o aluguer e o tempo,
deixo-me ser
em cada milímetro,
em cada segundo,
do quarto, da vida,
o outro objecto
chamado inquilino?
Ou desencadeio
a insurreição
mudando de sítio
o meiple, a cadeira,
mudando-me a mim?

Carlos de Oliveira, in "O aprendiz de feiticeiro" assírio & alvim, 2004
W. H. Auden "O prolífico e o devorador" & etc, 2010
trad. Helder Moura Pereira