POST SCRIPTUM

Van Gogh não morreu de um estado de delírio a sério
mas por ter sido corporalmente campo de um problema à volta do qual se debate, desde as origens, o espírito iníquo desta humanidade.
O da predominância da carne sobre o espírito, ou do corpo sobre a carne, ou do espírito sobre uma e outro.
E neste delírio, onde fica o lugar do eu humano?
Durante toda a vida Van Gogh procurou o seu com energia e determinação estranhas,
e não se suicidou num ataque de loucura, no transe de lá não chegar,
pelo contrário acabava de chegar lá e descobrir o que ele era e quem era quando a consciência geral da sociedade, para castigo de ter-se dela,
o suicidou.
Deu-se isto com Van Gogh, como é hábito como se dá por altura de todas as bacanais, missas, absolvições gerais ou qualquer outro rito de consagração, possessão, sucubação ou incubação.
Meteu-se-lhe pois no corpo
esta sociedade
absolvida,
consagrada,
santificada,
e possessa,
apagou-lhe a sobrenatural consciência que ele acabava de tomar e, como se fora uma inundação de corvos negros nas fibras da sua árvore interna,
submergiu-o num acesso repentino
e tomando-lhe o lugar
matou-o.
Porque é lógica anatómica do homem moderno é nunca ter podido viver nem pensar em viver senão à possesso.


Antonin Artaud, in "Van Gogh o suicidado da sociedade" & etc, 1983
trad. Aníbal Fernandes

1 comentário:

Nádia C. disse...

gosto tanto deste cadé :)