O teu nome é um vocábulo
de amor, uma carícia
que a língua desenvolve.
Não o posso pronunciar
em voz alta
quando não estou só. As
respirações alheias
corrompem: poderia
dissolver-se no vento,
fragmentar-se
perder
o seu mistério indecifrável,
desviar
a flecha do seu alvo.
Pronuncio-o eliminando
o som, das duas sílabas
que rolam no meu corpo,
abrem os poros e,
pelos olhos,
enviam a mensagem necessária
ao suporte de Outubro.
Tudo canta, rodeando o silêncio,
a ligeira brisa que perfuma
as letras
quando passas a porta
e o teu sorriso doce
avança para mim
A garganta abre-se,
as sílabas esvoaçam, transformam
o espaço em música,
os acordes da água:
o meu corpo é agora um piano
onde a alegria abre
a felicidade, as suas asas.


Egito Gonçalves, in "A ferida amável" campo das letras, 2000
ilust. Alberto Vargas

uma boa notícia...

Eudora Welty "Os melhores contos" relógio d'água, 2009
trad. Miguel Serras Pereira

leitura recomendada...


De um encontro em Paris de Umberto Eco, um dos mais respeitados pensadores e romancistas da actualidade, com o cineasta e ensaísta Jean-Claude Carriére, nasce um extraordinário e contemporâneo diálogo em torno do papel dos livros no decurso da História.
Em «A Obsessão do Fogo», somos levados a percorrer mais de dois mil anos de histórias sobre livros, seguindo uma discussão erudita e divertida, culta e pessoal, filosófica e anedótica, curiosa e apetecível, plena de ironia, astúcia e referências culturais. Atravessamos tempos e lugares diversos; encontramos personalidades reais e personagens fictícias; deparamo-nos com elogio à estupidez, bem como com a análise da paixão pelo coleccionismo; e compreendemos a razão pela qual cada época gera as suas obras-primas. Para além disso, ficamos ainda a saber por que motivo “as galinhas levaram mais de um século para aprender a não atravessar a estrada” e porque é que “o nosso conhecimento do passado deve-se a cretinos, imbecis ou contraditores”.
Com a inteligência e o humor que lhes são reconhecidos, Eco e Carriere encetam uma viagem pela história dos livros e da literatura no geral, desde os papiros até à era digital da Internet e dos e-books. Um notável exercício de erudição de dois leitores apaixonados e coleccionadores de livros, uma espécie cada vez mais escassa numa era de obstinação pelo progresso tecnológico.

Umberto Eco e Jean-Claude Carrière "A Obsessão pelo Fogo" difel, 2009
trad. Joana Chaves

FLAUBERT

Excelentíssima madame, eis que primeiro vou descrever o seu esplendoroso vestido e logo a seguir, sim, a despirei com toda a ansiedade possível.
Belo programa, meu bom senhor. Mas essa primeira parte, não poderá saltar-se?
Excelentíssima madame, eu sou um escritor, não sou um fornicador.
Oh, meu bom senhor, que pena.

Gonçalo M. Tavares, in "Biblioteca" campo das letras, 2004

«EHEU!»

Aqui, junto ao mar latino,
digo a verdade:
Sinto em rocha, azeite e vinho,
a minha antiguidade.

Oh, que velho sou, Deus meu;
oh, que velho sou!…
Donde vem o meu canto?
E eu, para onde vou?

Conhecer-me a mim próprio
já me vai custando
muitos momentos de abismo
e o como e o quando…

E esta claridade latina,
de que me serviu
à entrada da mina
do eu e do não eu?…

Nefelibata contente,
julgo interpretar
as confidências do vento,
da terra e do mar

Umas vagas confidências
do ser e do não ser,
e fragmentos de consciências
de agora e de ontem.

Como no meio de um deserto
pus-me a clamar;
e vi o sol morto
e pus-me a chorar.


Rubén Darío, in "O mar na poesia da América Latina" assírio & alvim 1999
trad. José Agostinho Baptista

escutar...

jj [ n° 2 ] Sincerely Yours, 2009

William Faulkner/Raymond Chandler

Howard Hawks [ The big sleep ] 1946

AS PESSOAS SENSÍVEIS

As pessoas sensíveis não são capazes
De matar galinhas
Porém são capazes
De comer galinhas

O dinheiro cheira a pobre e cheira
À roupa do seu corpo
Aquela roupa
Que depois da chuva secou sobre o corpo
Porque não tinham outra
Porque cheira a pobre cheira
A roupa
Que depois do suor não foi lavada
Porque não tinham outra

«Ganharás o pão com o suor do teu rosto»
Assim nos foi imposto
E não:
«Com o suor dos outros ganharás o pão»

Ó vendilhões do templo
Ó construtores
Das grandes estátuas balofas e pesadas
Ó cheiros de devoção e de proveito

Perdoai-lhes Senhor
Porque eles sabem o que fazem


Sophia de Mello Breyner Andresen, in "A perspectiva da morte: 20 (-2) Poetas portugueses do séc XX ] assírio & alvim, 2009
org. Manuel de Freitas
foto. Fernando Lemos





Stanley Donen [ Two for the road ] 1967

escutar...


Noah And The Whale [ The First Days Of Spring ] Mercury, 2009

ENTRE TU E EU SEMPRE SE OPÕE

Entre tu e eu sempre se opõe,
por muito que tentemos ignorá-lo,
o antigo costume que dispõe:
«todo o estranho ardor há que acalmá-lo».

Entre tu e eu senpre se impõe
a ordem: «Aquele, aniquilá-lo!»
Assim o nosso amor já pressupõe
a fogueira que virá para apagá-lo.

As inomináveis escalas da injúria,
acosso sem fim, morte e olvido,
prisões, fogueiras, isso é amar-te.

Mas o terrível não é a tediosa fúria
que em cinzas nos tem convertido,
o terrível é saber se poderei achar-te.


Reinaldo Arenas, in "Poesia cubana contemporânea" antígona, 2009
trad. Jorge Melícias

nova edição...


Thomas Pynchon [ O Leilão do Lote 49 ] relógio d'água, 2009
trad. Manuela Garcia Marques

brevemente...


Eudora Welty [ O Coração dos Ponders ] relógio d'água, 2009
trad. José Miguel Silva

ACERCA DA OBRA DE BURROUGHS

A receita será esta: carne da mais pura,
sem qualquer molho simbólico;
visões reais & prisões reais
tal como os vemos uma vez por outra.

Prisões e visões apresentadas
com rarissímas descrições
que correspondam exactamente
às de Alcatraz e de Rose.

Um almoço nu é para nós o normal;
comemos sanduíches da realidade.
Ao passo que as alegorias não passam de folhas de alface.

Não escondamos sob elas a loucura.


Allen Ginsberg, in "Uivo e outros poemas" dom quixote, 1973
trad. José Palla e Carmo
Hayao Miyazaki [ Ponyo on the Cliff by the Sea ] 2008

NADA

Arranquem a dentadura aos dicionários, tenho excesso de comprimidos na farmácia do cérebro, a passagem estreita da penumbra para o escuro esmaga-me mais do que o previsto, fim.

Se não tomo cuidado afogo-me, vou engolir o preservativo em vez do ansiolítico. Toma. Chega para cá o cinzeiro. Serei pássaro, ou gago?

Entre o esgoto e o caixão, amostras simpáticas da crise seguinte. Com floreados. Na melhor das hipóteses, não ser clonado.

Tens uma aspirina? Estou farto deste sabor, é do látex. Preferia a outra posição, mas teimas em ficar por baixo. Que fêmea da tua parte. Não. Eu disse uma aspirina. Claro que fazer amor não é lutar contra a dor de cabeça. É amar sem cabeça nem dor.

Olha, o escaravelho. Adora merda. Procria em merda. Transporta merda. É orgulhoso da merda que transporta. Eu também. Terei entrado na fase escaravelho, ou é apenas uma questão de idade?

Cada membro se move segundo uma regra, ou talvez estejam todos à mesma regra, eu estou preso no meu corpo e gostaria tanto que uma só vez fosse o meu corpo a estar preso em mim, mas não, há regras para tudo, até para o desejo de não haver regras.

Tenho a lucidez colada à retina, o desejo grudado na virilha, o arrependimento nas banhas, um estômago que fabrica fluido e digere pedaços de outros animais. E lamento não ser animal, apenas rudimentar, e conter tanto excedente de mim que raramente lá caibo.

Queria uma ternura de carne e osso, um beijo só de lábios, uma amor defendido por glóbulos brancos como num processo de infecções, queria que uma mulher me infectasse sem eu a ter procurado, queria uma explosão ensurdecedora, a meio do verão, que me cegasse e corroesse até à medula, até perder os ossos e a dor…

Mas nada acontece. Amo e não sou amado. Suo e não sou suado. Desejo e não sou desejado. E o meu corpo vegeta, porque nada acontece. Mordo, e a ninguém dói. Arranho, e nada se queixa. Sangro, e é sem sentir.

Quantos dedos terei nas mãos? Se soubesse, parava de escrever.


Manuel Cintra, in "Alçapão" & etc, 2009

nova edição…


Fiódor Dostoievski "Crime e Castigo" relógio d'água, 2009
trad. António Pescada

regressos…



A voz pública tem a teimosia como um defeito; crismada perseverança torna-se uma virtude.

Por teimosia (ou perseverança) A Phala regressa.

Concebida em 1986 por Manuel Hermínio Monteiro, prosseguiu, nesse formato inicial, até 2003. De periodicidade irregularmente trimestal foi assegurando o interesse dos leitores. Instrumento, sem dúvida, da construção da editora que a Assírio & Alvim era e da sua evolução, foi bastante mais que isso. Procurou (e é grato pensar que conseguiu) ser observador atento e agente de divulgação do que a cultura portuguesa ia produzindo – em particular da poesia escrita em português ou em português vertida. A que na altura era escrita e publicada e aquela que tinha de ser recuperada e promovida.

A certa altura, este projecto, na forma que adquiriu, pareceu esgotar-se. À procura de um modelo mais ambicioso, menos rotineiro, A Phala sofreu uma transformação, na forma e no conteúdo. O primeiro número foi publicado, com o privilégio de, até agora, se ter revelado único.

Mudam-se os tempos… (que não as vontades) e teimosamente A Phala regressa, adaptada às novas formas de comunicação. Os objectivos são os mesmos. Deseja-se que a qualidade seja a mesma e mereça, de novo, a atenção de antigos leitores e a nova atenção de outros.

José Alberto Oliveira


http://phala.wordpress.com/






Ted Bafaloukos [ Rockers ] 1978



Às vezes parece
que estamos no centro da festa.
No entanto
no centro da festa não há ninguém.
No centro da festa está o vazio.

Mas no centro do vazio há outra festa.


Roberto Juarroz, in "Poesia vertical" campo das letras, 1998
trad. Arnaldo Saraiva
ilust. Gerard Dubois