DEZ MIL PELES-VERMELHAS

Para eles
o tempo existe
em estado nulo

Felizes de tanta felicidade
Dez mil peles-vermelhas agacham-se
na pradaria
e preludiam à sublime dança

Engolem os dias
despenteiam as noites

Dez mil peles vermelhas e lúcidas
preparam-se para fazer rir a chuva
as terras engelhadas por desejo e sede
fazendo os tambores soarem de som cheio

Som
cheio

Dez mil peles vermelhas apaixonadas
preparam-se para misturar o seu sangue irrequieto 
ao leite sombrio das mulheres tão calmas
ao mel risonho dos seus lindos filhos

Filhos do século
onde estão os vossos tridentes

Dez mil peles vermelhas
pálidas mas sólidas
abandonam a família para morrer à parte

Dez mil peles-vermelhas
de sangue em fogo
a sua vida ainda lá está
a desencantar demónios


Max Ernst, in "identidade instantânea" & etc, 1983
trad. Aníbal Fernandes

in dub…

Bruno Natal [ dub Echoes ] 2007

escutar...

Andrew Bird [ Fitz and the Dizzy Spells, ep ] 2009

Nas Livrarias…


«Do alto do muro a vista era ambivalente: de um lado, esperava-o um campo aceso de lajes – Aqui jaz. Ali jaz. – Um campo de ossos, fotografias e epitáfios semeados por mensagens de despedida ou saudade e ardentes chamas trémulas. Enquanto do outro se apresentava a cidade: fantasmagoricamente iluminada pelas luzes indecisas dos candeeiros; guardada pelos cães vadios e as gruas de aço. Onde, dentro das casas e edifícios, supostamente deitados sobre colchões e lençóis pestilentos, os peitos dos homens e das mulheres horizontais, cravados de ódios e maledicências, levantavam-se e baixavam-se ao ritmo de inspirações e expirações mais ou menos inconscientes.
Eles respiram, pensou o amputado.»

Sandro William Junqueira "O caderno do Algoz" caminho, 2009