De noite, já tarde, fui procurar Nick Cave na cidade, mas o que me veio parar às mãos foi qualquer coisa diferente: um pescador da costa oriental, vermelhusco e brilhante de gordura. Despi-lhe as roupas, falei-lhe longamente do amor, das estrelas e da lei da gravidade da Terra. Ele ouviu, aguçando as grandes orelhas e sorrindo ingenuamente, com um ar idiota. Quis muito e bem depressa, e eu pus na mesa o melhor que tinha para oferecer. De manhã balbuciava como um bebé acabado de mamar e queria mais. Fiz como ele quis. Sorri e sussurrei-lhe ao ouvido, ofereci-lhe tudo numa bandeja de ouro. Deixei-o penetrar-me, ao mesmo tempo que que lhe apertava o pescoço com toda a minha força. Um gargarejo, e o seu espírito deslizou-lhe para fora do corpo balofo. Levantei-me, vesti-me, encomendei o pequeno-almoço e saí.

Rosa Liksom, in "Os paraísos do caminho vazio e outros contos" relógio d'água, 1994
trad. Merja Sinikka Nousia e Marta Duarte Daniel Dias

brevemente...


«Escrito na Cidade do México em 1955 (a primeira parte) e em 1956 (a segunda), contando a história da sua paixão por uma toxicodependente (de seu verdadeiro nome Esperanza Villanueva), Tristessa era (na palavras do próprio) a obra preferida de Kerouac, ainda que ele estivesse bem ciente da predilecção dos seus fãs por Pela Estrada Fora. O texto foi manuscrito (e não escrito directamente à máquina, como Kerouac habitualmente fazia) em caderninhos de bolso que ele trazia sempre consigo, entremeado de desenhos e esboços, composto de jactos nas ruas e praças, nos bares e tabernas de má nota, mas, ainda assim, «imaculado, sem emendas», orgulhava-se ele de afirmar.»

Jack Kerouac [ Tristessa ] relógio d'água, 2009

DE UM ANÓNIMO, PESCADOR À LINHA

Quando olho Lisboa, da Trafaria,
Ao entardecer com os navios parados,
Dá-me um fanico na fotografia
Que dela tenho sob as sardinheiras
Da minha infância na Graça.

Fico assim parado, no rodapé da alma,
Como se lesse, ao mesmo tempo dois poetas,
E fico na dúvida se estou a olhar Lisboa
ou se ela, como eu, lê selectas.

(É o vinho que faz ver dois, é certo,
mais o bagaço na taberna da Maluca.
Vai pelo mundo um desconcerto
Que co a lírica debaixo do braço
Vou a correr para a baiuca).


Nunes da Rocha, in "Cancioneiro da Trafaria" & etc, 2009

JACQUES PRÉVERT

A mulher pode seduzir de duas formas: ou olhando os olhos do outro, ou olhando os lábios do outro. Se olhar os olhos a sedução é lenta, se olhar os lábios a sedução é rápida. Entre o olhar nos olhos, e a nudez, a distância temporal é maior.
Entre a nudez mútua e a fornicação (também mútua) pode ocorrer um intervalo de seis dias, se as duas pessoas em questão forem envergonhadas e hesitantes. Seis dias são suficientes para dar doze voltas ao mundo, porém, por vezes, um órgão demora esse tempo a chegar ao destino amoroso.
O mundo só não é desequilibrado e surpreendente nos gráficos da administração central.

Gonçalo M. Tavares, n "Biblioteca" campo das letras, 2004

II. COISAS RARAS

Entre as coisas que são raras, acrescentaria um livro bem corrigido.
Um Homem que esquece o olhar dos outros homens.
Uma pinça de depilar que depila.
Persianas nas janelas que não deixem passa a luz do dia.

VII. DIFERENTES ESPÉCIES DE MULHERES

As mulheres que acham tudo admirável, fabuloso, fantástico são detestáveis.
As mulheres que acham tudo mesquinho, medíocre, estúpido, nulo, sem gosto são detestáveis.

XIV. COISAS QUE ENVERGONHAM

Entrar no quarto do marido, na ala ocidental do palácio, e vê-lo nu a quatro patas, na cama, rodeado dos seus pequenos lacaios, todos numa azáfama a aplicar-lhe pomadas, água fria, panos, unguentos — com o braseiro aceso em pleno verão — e o pequeno massagista a depilar-lhe o cu e o púbis à excepção do escroto.

XX. NOITES DE FOME

Então as noites sem pelo menos três orgasmos parecia-nos noites de fome.

XXXII. DESCOBERTA

Não gosto de fazer amor durante a primeira sesta.

CLVI. OS ORIFÍCIOS DO CORPO

Parece-me que os nove orifícios do meu corpo se abrem inutilmente. Devem sem dúvida ter começado a tomar consciência de que estão abertos para o vazio. Os meus nove orifícios começaram a dialogar com o silêncio da morte.


Pascal Quignard, in "As tábuas de buxo de Apronenia Avitia" cotovia, 1999
trad. Ernesto Sampaio

escutar...


Bonnie Prince Billy [ Beware! ] 2009




Joseph Green [ The Brain That Wouldn't Die ] 1962

CHEIRO DE LARANJEIRAS

Será alguém um dia
levado a pensar em mim
pelo cheiro de laranjeiras
quando eu também já for
«alguém há muito tempo»?


Shunzei, in "Rosa do mundo" assírio & alvim, 2001
trad. Stephen Reckert

«O final dos finais, meus senhores: o melhor é não fazer nada! O melhor é uma inércia consciente! Por isso, viva o subterrâneo! Embora eu tenha dito que sofro de uma inveja biliosa pelo homem normal, não gostaria de ser ele nas condições em que o vejo (embora não deixe de o invejar. Não e não, aconteça o que acontecer, o subterrâneo é mais vantajoso!). Lá, pelo menos, pode-se… Eh, lá estou eu outra vez a mentir! Minto porque sei, como dois mais dois serem quatro, que não é o subterrâneo que é melhor, mas qualquer outra coisa, completamente outra, a que eu aspiro mas nunca mais encontro! O subterrâneo para o raio que o parta!»

Fiódor Dostoiévski, in "Cadernos do subterrâneo" assírio & alvim, 2000
trad. Nina Guerra e Filipe Guerra

pintura de Wassilij Grigorjewitsch Perow, 1872