CAFÉ

Era um espaço construído de olhares e de ruídos.
Antigo.
Delimitado pelo casulo da menina da tabacaria, com postigo para a rua, e o guarda-vento que lhe defendia a privacidade de gueto masculino.
As mesas dispunha-se ao longo das paredes.
Sublinhadas por fotografias desactualizadas, em conflito com a modernidade dos autocolantes.
Mesas privadas, e de vítima.
Infinitamente repetidas nos espelhos, que as devolviam aos interessados.
Tinha residentes:
o cauteleiro, que apregoava a felicidade avulsa, e um engraxador, de fato-macaco e sapatos cansados de mostrarem o brilho disponível dos seus gestos.
Sempre que podia, fazia-se ouvir com uma tira de pano de bilhar.
Afirmava-se, interrompendo as conversas dos senhores:
o médico, o advogado, o gerente do banco, o rico e o informador.
Também havia um artista.
Cafés sombrios e delatores, da Beira.
Ou catedrais de lavradores, como os de Évora, em dia de são porco.
Cresci neles, com uma onça de tabaco e um caderno, autorizado por um café de saco.
Nem todos foram pervertidos em bancos, ou travestidos em lugares de culto.
Mas entre as saudades do cheiro e do espaço, pondero a maldade e a arrogância da frequência.

Jorge Fallorca, in "Longe do Mundo" frenesi, 2004
ilust. João Rodrigues

E perguntei-te se também morrias.
E tu disseste: «Sim».
E eu disse-te: «Que vai ser de mim?»
E tu disseste que nesse momento já seria crescido.
E eu disse-te: «Não vejo a relação».
E tu disseste que sim, que havia uma relação.
E eu disse: «Bom».
E tu disseste que todos nós tínhamos de morrer.
E eu perguntei-te se para sempre.
E tu respondeste : «Sim».
E eu disse-te: «Então, e o céu como é?»
E tu disseste que isso era depois.

Sim.

E eu disse que havia de levar-te flores.
E tu perguntaste-me: «Quando?»
E eu respondi: «Quando morreres».
E tu fizeste: «Ah!»
E eu disse que havia de levar-te flores, e disse também: «Papoilas».
E tu disseste-me que era melhor não pensar nisso.
E eu disse-te: «Porquê?»
E tu disseste-me: «Porque sim».
E eu disse: «Bom». E depois perguntei-te se nos íamos encontrar no céu mais tarde.
E tu respondeste-me: «Sim».
E eu disse: «Ainda bem».

Sim.

E depois perguntei-te quem a tinha inventado.
E tu disseste: «Inventado o quê?»
E eu disse: «Essa história da morte».
E tu disseste: «Ninguém».
E eu disse: «E o resto?»
E tu disseste: «Qual resto?»
E eu disse: «Essa história do céu».
E tu disseste: «Ninguém».
E eu disse-te: «É boa». E disse-te ainda: «Pois». E depois disse-te: «Quando morreres, faço da tua barriga um tambor».
E tu disseste-me: «Isso não se diz».
E eu disse-te: «É pecado?»
E tu disseste: «Não».


Arrabal, in "Baal Babilónia" estampa, 1977
trad. Ernesto Sampaio

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The Whitest Boy Alive [ Rules ] Bubbles Records, 2009