não chamem logo as funerárias,
cortem-me as veias dos pulsos pra que me saibam bem morto,
medo? só que o sangue vibre ainda na garganta
e qualquer mão e meia me encha de terra a boca,
sei de quem se tenha erguido, de pura respiração, do fundo da madeira,
saibro, roupa, gôtas de orvalho ou cêra,
ornatos, espadanas, lágrimas,
últimas musicas,
não é como no escuro o trigo que ressuscita,
sei sim de quem despedaçou as tábuas e ficou entre caos e nada com o sangue alvoraçado nos braços e nas têmporas,
que se não pare nunca entre as matérias intransponíveis,
cortem-me cerce o sangue fresco,
que a terra me não côma vivo,

[excerto]

Herberto Helder, in “Ofício cantante – poesia completa” assírio & alvim, 2009

5 comentários:

manuel disse...

E farmácia com ph :)

miguel. disse...

:)

joão disse...

Olá miguel, pode dizer-me o que tem este livro de novo em relação aos anteriores do HH? Já agora, tem aqui um cantinho simpático e interessante, já está nos meus favoritos.

miguel. disse...

João,

trata-se de uma nova edição da poesia completa num volume de 624 páginas. Incluirá, além de mais poemas inéditos (e outros retrabalhados), todos os textos que constavam de a faca não corta o fogo.

ou seja, o Herberto é uma coisa mas não deixa de ser a outra...

;)

menina limão disse...

ofereceram-mo hoje! :D