
UMA ESTAÇÃO
Esta mulher outrora era feita de carne
sadia e firme: quando esperava um filho
fechava-se, escondida, e murchava sozinha.
Não gostava de se mostrar deformada na rua.
Nas outras ocasiões (era jovem e sem querer
fez muitos filhos) passava na rua
com um andar seguro e sabia gozar cada instante.
Os vestidos são vento nas tardes de Março
e colam-se e ondulam à volta das mulheres que passam.
O seu corpo de mulher movia-se seguro no vento
que se esvaía deixando-o mais forte. Não tinha outro bem
a não ser o corpo, hoje consumido por tantos filhos.
Nas tardes de vento espalha-se um odor de seivas,
o cheiro que tinha em jovem o corpo
por baixo dos vestidos supérfluos. Um sabor a terra molhada
que em Março volta sempre. Na cidade, mesmo onde não há avenidas
e nem chega com o sol um sopro de vento,
o seu corpo vivia, exalando sucos
fermentados, entre muros de pedra. Com os anos também ela,
que alimentou outros corpos, se quebrou e dobrou.
Não é bonito vê-la, perdeu toda a força;
mas, dos muitos, uma filha volta a passar
nas ruas, à tarde, e a ostentar ao vento
sob as árvores, sadio e firme, o seu corpo que vive.
E há um filho que deambula e sabe estar sozinho
e sabe divertir-se sozinho. Mas olha-se nas montras,
satisfeito com a maneira como leva pelo braço
a companheira. Gosta, com um jeito dos músculos,
de a puxar para si e que ela resista e de a beijar no pescoço.
Gosta sobretudo, depois de gerar naquele corpo,
de o deixar murchar e voltar a estar sozinho.
Um abraço fá-lo unicamente sorrir e um filho
írrita-lo-ia. Sabe-o a rapariga e espera,
e prepara-se para esconder o ventre deformado
e entrega-se-lhe, complacente, e admira a força
daquele corpo que serve para fazer tantas outras coisa.
Cesare Pavese, in "Trabalhar cansa" cotovia, 2008
trad. Carlos Leite

A ROSA
A rosa
A rosa
A rosa
Ele levou-me a um roseiral
E, no escuro, enfiou uma rosa nos meus cabelos excitados
Por fim
Dormiu comigo sobre uma pétala de rosa.
Oh vós, pombas deformadas
Oh vós, árvores inexperientes, velhas e estéreis janelas cegas
Debaixo de meu coração e nas profundezas de minha bacia
Brota agora uma rosa
Uma rosa vermelha
Como uma bandeira no dia da Ressurreição.
Ah, estou grávida, grávida, grávida.
Forugh Farrokhzad, in “Rosa do mundo” assírio & alvim, 2001
trad. Kurt Scharf
ACORDAR TARDE
tocas as flores murchas que alguém te ofereceu
quando o rio parou de correr e a noite
foi tão luminosa quanto a mota que falhou
a curva - e o serviço postal não funcionou
no dia seguinte
procuras ávido aquilo que o mar não devorou
e passas a língua na cola dos selos lambidos
por assassinos - e a tua mão segurando a faca
cujo gume possui a fatalidade do sangue contaminado
dos amantes ocasionais - nada a fazer
irás sozinho vida dentro
os braços estendidos como se entrasses na água
o corpo num arco de pedra tenso simulando
a casa
onde me abrigo do mortal brilho do meio-dia
Al Berto, in "Horto de Incêndio" assírio & alvim, 1997

LEMBRANDO CHET
Caíra da janela ou atirara-se?
Ninguém o poderia saber.
Junto ao cadáver estava a corneta,
a crisálida de metal que o protegera
da morte em vida.
Hoje lembrei-me dele, da sua música de eterno neófito
arrebatado, e juro-vos que não chorei.
Afinal o amor é cosa mentale, caixa espectral
onde se precipitam as negras águas
da crença e do desejo.
Luís Quintais, in "Mais espesso que a água" cotovia, 2008
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