Talking Heads



HOME IS WHERE I WANT TO BE

Home is where i want to be
Pick me up and turn me round
I feel numb - burn with a weak heart
(so i) guess i must be having fun
The less we say about it the better
Make it up as we go along
Feet on the ground
Head in the sky
It's ok i know nothing's wrong . . nothing

Hi yo i got plenty of time
Hi yo you got light in your eyes
And you're standing here beside me
I love the passing of time
Never for money
Always for love
Cover up + say goodnight . . . say goodnight

Home - is where i want to be
But i guess i'm already there
I come home - -she lifted up her wings
Guess that this must be the place
I can't tell one from another
Did i find you, or you find me?
There was a time before we were born
If someone asks, this where i'll be . . . where i'll be

Hi yo we drift in and out
Hi yo sing into my mouth
Out of all tose kinds of people
You got a face with a view
I'm just an animal looking for a home
Share the same space for a minute or two
And you love me till my heart stops
Love me till i'm dead
Eyes that light up, eyes look through you
Cover up the blank spots
Hit me on the head ah ooh

NA FLORISTA

Um homem entra numa florista
e escolhe umas flores
a florista embrulha as flores
o homem leva a mão ao bolso
para tirar o dinheiro
dinheiro para pagar as as flores
mas ao mesmo tempo
subitamente
leva a mão ao coração
e cai

Ao cair
o dinheiro corre pelo chão
e depois as flores caem
ao mesmo tempo que o homem
ao mesmo tempo que o dinheiro
e a florista ali parada
com o dinheiro a correr
com as flores a murchar
com o homem a morrer
Claro que tudo isto é muito triste
e ela tem que fazer qualquer coisa
a florista
mas não sabe como proceder
não sabe
por onde começar
Há tanta coisa a fazer
com aquele homem a morrer
com aquelas flores a murchar
e com aquele dinheiro
aquele dinheiro a correr
e que não pára de correr.


Jaques Prévert, in "Palavras/Paroles" sextante, 2007
trad. Manuela Torres

uma boa notícia...


Castelos Perigosos (D'un château l'autre, 1957) é o primeiro volume da derradeira trilogia de Louis-Ferdinand Céline, em que, com o absoluto domínio do seu estilo mas também dos seus ódios, o mesmo traça o retrato de um mundo (final da segunda guerra) que se afunda no ressentimento e na morte. Seguir-se-ão Nord (1960) e Rigodon (1961), a publicar em breve na Ulisseia.

imagem encontrada aqui

leitura obrigatória...


«Esta sucessão de histórias que escolhem uma realidade áspera para melhor a retratarem na sua verdade essencial (Oscar Wilde poderia dizê-lo), tecidas ao contrário da sensualidade contemplativa e disciplinada que satisfaz o prazer estético (Roger Caillois poderia fazê-lo lembrar), corre riscos de leitura em deslizamento por emoções epidérmicas e pelos mais fáceis sorrisos do humor negro. Executa uma dança: entre o jogo intelectual e a realidade sangrenta; faz um lado-a-lado de realidades reflectidas por um espectro cruel; remete ao ser humano que se não verga sob os limites da sua moral e da sua ordem. «A crueldade tem coração humano», escreveu William Blake no primeiro verso de «A Divine Image». E por vezes a literatura assume-a - aqui, uma reverência a De Quincey - como bela-arte.»

A presente obra reune 22 contos de vários autores (Balzac, Maupassant, Ionesco, Buzatti, Tennessee Williams, Saki [H. H. Munro], Ambrose Bierce, Léon Bloy, Donald E. Westlake, Stanley Ellin, Hanns Heinz Ewers, Aldous Huxley, Gaston Leroux, Medeiros e Albuquerque, Roland Topor, Octave Mirbeau, Monteiro Lobato e Marcel Schwob) seleccionados e traduzidos por Anibal Fernandes.


O festim da aranha, assírio & alvim, 2008

O bairro...


«Há quem diga que as palavras são coisas mastigáveis como os alimentos, e há ainda quem entre em pormenores como quem entra numa sala, dizendo que todas as palavras são mastigáveis e transportáveis pela língua de um lado para o outro da boca, nem todas alimentam os homens; só certos versos o farão»

Gonçalo M. Tavares, in "O senhor Breton e a entrevista" caminho, 2008
ilustr. Rachel Caiano

CANSAÇO

Caminho dia e noite
Como um parque desolado
Caminho dia e noite entre esfinges desmoronadas de meus olhos
Perscruto o céu e sua erva cantante
Olho o campo ferido por gritos desmesurados
E o sol no meio do vento

Afago meu chapéu cheio duma luz incandescente
Passo a mão sobre o dorso do vento
Os ventos que passam como as semanas
Os ventos e as luzes com gestos de fruta e sede de sangue
As luzes que passam como os meses
Quando a noite se apoia sobre as casas
E o perfume dos cravos gira sobre seu eixo
Sento-me como o canto pássaros
É o cansaço longínquo e a neblina
Caio como o vento sobre a luz

Caio sobre minha alma
Eis o pássaro dos milagres
Eis as tatuagens de meu castelo
Eis as minhas plumas sobre o mar que se afasta
Caio de minha alma
E desfaço-me em pedaços de alma sobre o inverno

Caio do vento sobre a luz
Caio da pomba sobre o vento



ASTRO

O livro
E a porta
Que o vento fecha

Minha cabeça inclinada
Sobre a sombra do fumo
E esta página branca que se afasta

Escuta o rumor das tardes vivas
Relógio do horizonte

Sob a encanecida névoa
Dir-se-ia um astro de volúpia

Minha alcova balança como um barco

Mas és tu

Apenas tu

O astro que me ilumina

Contemplo tua desvanecida imagem

E aquele cândido pássaro
Bebendo a água do espelho


Vicente Huidobro, in “Natureza Viva” hiena, 1986
trad. Luis Pignatelli

Julia Kissina [ Meat Hairstyles ]








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FALSO RETRATO DE ANDY WARHOL

não penso
transcrevo conversas telefónicas ou falo
com a noite de new york
ou não falo e gravo a voz dos outros filmo
obsessivamente a morte
ou não filmo e multiplico cadeiras eléctricas
excito-me
sou o centro do mundo dos outros e
não existo
ou é a vida que me atravessa o sexo
e finjo a morte ou cintilo
como o diamante

Al Berto, in "O Medo" assírio & alvim, 2000
imag. Andy Warhol, 1981

«Mishima teve a grande sorte e o luxo de poder reunir num só gesto a sua concepção do suicídio e a ideia, mais elevada, de servir o país. O seu lado artista, não duvidemos, é que decidiu o melhor uso a dar àquela morte. Por horrível que entre nós pareça — como de resto entre muitos japoneses — não se lhe pode negar uma sombra de nobreza. Quem vai atrever-se a dizer que que foi obra de louco, ou mesmo de homem com espírito momentaneamente perturbado? Qualquer que tenha sido o nosso choque com o suicídio de Hemingway, a verdade é que nos afectou de outra forma ao ser consumado assim, com um cano de espingarda na boca para dar cabo dos miolos.» 

Henry Miller, in "Reflexões sobre a morte de Mishima" & etc, 1983
trad. Aníbal Fernandes

«O mais curioso é, talvez, que muitas das crises emocionais da infância ou da adolescência de Mishima têm origem numa dessas imagens de livros ou de filmes ocidentais a que foi exposto o jovem japonês nascido em Tóquio em 1925. O rapazinho que repudiou uma bela imagem do seu livro ilustrado, porque a criada lhe explicou que se tratava, não de um cavaleiro como ele pensava, mas de uma mulher chamada Joana d'Arc e sentiu esse engano como um logro que o ofendia na sua pueril masculinidade. E, neste caso, o mais interessante para nós é que tenha sido Joana d'Arc quem lhe inspirou esta reacção e não uma das numerosas heroínas do Kabuki disfarçadas de homem. Em contrapartida, na famosa cena da primeira ejaculação diante de uma fotografia de São Sebastião de Guido Reni, compreende-se tanto melhor a sua excitação pela pintura barroca italiana quanto a arte japonesa, nem sequer nas suas gravuras eróticas conheceu, como a nossa, a glorificação do nu. Nenhuma imagem de samurai oferecido à morte lhe poderia dar a mesma impressão desse corpo musculado mas exausto, prostrado no abandono quase voluptuoso da morte (os heróis do antigo Japão amavam e morriam envoltos na carapaça de seda e aço).»

Marguerite Yourcenar, in "Mishima ou a visão do vazio" relógio d'água, 1991
trad. Manuel Alberto

Guido Reni [ São Sebastião ] 1616


[ Yukio Mishima ] 1970